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12 de mar. de 2011

Mitologia Celta

Os bardos cantavam os grandes feitos dos homens famosos, em versos épicos, acompanhados pelos sons melodiosos da lira. A música original e grande parte da poesia épica desapareceram da tradição quando os mitos foram registrados pelos escritores cristãos. Contudo, algumas das histórias, relativas, principalmente, aos feitos heroicos dos lendários guerreiros célticos, sobreviveram e constituem a substância da literatura a que chamamos agora Mitologia Céltica.

A mitologia pode dizer-nos muitas coisas acerca de uma sociedade, antiga ou moderna. Todavia, antes de podermos começar a compreender a natureza da mitologia céltica, devemos, primeiro desfazer o nosso próprio mito moderno dos Celtas. Durante o final do século XVIII e o século XIX a principal referência aos mitos célticos encontrava-se em textos românticos; e estes proporcionavam uma fuga nostálgica da Era Industrial para uma era regida pela natureza e pela magia, povoada por guerreiros heroicos e por donzelas de pele clara.

Os poetas e os pintores de cada país redescobriram o seu próprio passado céltico: a Irlanda dirigiu o olhar para as lendas, como os contos de CuChulainn e de Fianna ou Feniana; o País de Gales teve a saga heróica de Pryderi no Mabinogion; o poeta escocês James Macpherson (1736 - 1796) forjou as suas Ossionic Ballads (Baladas Ossiânicas),reivindicando serem traduções de um poema gaélico, do século III, chamado Ossian; a Inglaterra ressuscitou as lendas do Rei Artur, em obras como o poema de Tcnnyson, Idjlls of the King (Idílios do Rei).

Os Celtas

O Romantismo impregnou os mitos com as suas próprias noções românticas e manteve, frequentemente, os elementos de medievalismo cristão que ficaram ligados às primeiras versões escritas. A visão romântica do Crepúsculo Céltico, continua a influenciar a nossa percepção dos Celtas no fim do século XX. Precisamos, igualmente, dos nossos mundos de sonho, pelo que a palavra céltica evoca misteriosas paisagens banhadas pelo luar, com sacerdotes druidas de vestes brancas, celebrando estranhos rituais e preparando poções mágicas.

A arte céltica, particularmente na joalheria tem um encanto abstrato que lhe é próprio, denotando ainda uma atração por um passado desconhecido. A literatura céltica tem um encantamento semelhante, o narrador leva-nos de um mundo de gente e de lugares aparentemente reais para terras fantásticas de fadas e de monstros; e tal descrição é fácil de nos enfeitiçar por uma tal cultura. Devemos perguntar-nos se os próprios Celtas entendiam a sua religião como um mistério e os seus poemas como fugas ao mundo real.

As respostas não surgem prontamente: os Celtas não escreveram as suas histórias. Portanto, limitamo-nos a saber quais eram os seus costumes e o seu comportamento pelo testemunho dos autores contemporâneos gregos e romanos, se bem que a sua visão dos Celtas fosse tão mítica quanto a nossa, porque se baseava na suposição de que os Celtas eram bárbaros não civilizados.

Contudo, a arqueologia tem confirmado algumas das observações mais radicais dos escritores clássicos: onde os Celtas praticavam realmente sacrifícios humanos e eram caçadores de cabeças. A arqueologia também aumentou os nossos conhecimentos quanto à maneira como os Celtas viviam, praticavam o culto e enterravam os seus mortos. A datação arqueológica confirma de achados célticos não só confirma as historias como também nós informa sobre o passado pré-histórico dos Celtas.

Existiu uma cultura reconhecidamente “pro-céltica” ao redor do Danúbio superior no ano de 1000 a.C. Contudo, alguns arqueólogos defendem agora uma muito espalhada e gradual “celtização” de culturas que existiam já na Idade do Bronze na Europa Setentrional e Meridional; assim, a Bretanha céltica podia mesmo remontar a 1500 a.C., quando a cultura de Wessex possuía características sócias heroicas em conformidade como os primitivos mitos célticos irlandeses.

Fonte bibliográfica: Introdução à Mitologia Céltica de David Bellingham; site: Templo de Avalon

Mitologia Celta

A mitologia celta não deixa nada a dever da grega. O grande diferencial está justamente em responder questões sobre nossa atualidade, como o papel da mulher na sociedade e a relação entre humanos e a natureza. Por tudo isso, a mitologia celta não fala somente de deuses distantes ou de arquétipos psicológicos. Os deuses celtas estão vivos em cada um de nós, e podem nos mostrar como lidar com muitos dos problemas que nos afligem atualmente.

(por Caio "Turgon" Herrera Teixeira ao site templo do conhecimento)

Introdução aos Celtas
Resume-se que os celtas existem desde o século XX a.C. (o que corresponde ao fim da Idade de Bronze), e alcançaram o ápice de sua cultura na Idade do Ferro. Naquela época estavam divididos em dois grupos, os primeiros se instalaram a partir do rio Danúbio, viviam da agricultura e do artesanato, eram mais pacíficos que o outro formado pelos celtas guerreiros como são conhecidos hoje, que se expandiram a partir da região dos Bálcãs, e tinham à disposição um formidável exército.
Eram estes, os celtas que são conhecidos por ter saqueado Roma e Delfos e por ter conquistado grandes partes da Europa. Transmitiram então sua cultura, costumes e religião aos povos das zonas conquistadas. Seus territórios então não pararam de crescer, na sua época de maior extensão o território ia desde o Danúbio até as Ilhas britânicas, e desde a Espanha até o mar do Norte.
Os celtas Guerreiros eram conhecidos por seu cavalheirismo, seu orgulho nas lutas e seu ânimo, mas também pela poesia, pela música e pela filosofia. Os celtas foram chamados de Keltoi pelos gregos, aos quais se deve, graças as suas produções escritas, grande parte das histórias e lendas celtas. Sua memória se remonta desde os séculos mais remotos, a tradição oral tem resistido durante séculos, apesar de que a cultura celta dói quase totalmente extinguida pelos romanos desde César e mais tarde pelos cristãos.
Os druidas, o status de maior influência e poder entre os celtas, sabiam ler e escrever em grego e latim (como os antigos sacerdotes egípcios), no entanto optaram por deixar pela via oral, em belos versos, as crônicas da existência celta. Este foi um dos principais motivos pelo qual não se considerou a magnitude, e boa parte dos livros de historia, da importância do legado celta que fundamentou notavelmente a sociedade ocidental, já que os mesmos celtas não colocaram suas tradições em arquivos escritos.
A Língua celta é uma língua Indo-germânica. Portanto, todas as línguas indo-germânicas, como o alemão e o espanhol, são parentes da língua celta. A Palavra “celta” significa, originalmente “Herói”. Hoje se encontra os celtas em nomes de lugares de toda a Europa, o resto da língua e da cultura celta seguem vivendo na Escócia, Irlanda, Pais de Gales, França, e Galicia (Espanha).
(por Bruno Danhia em 14/1/07 ao site templo do conhecimento)

Introdução à Mitologia Celta
Quando falamos em mitologia celta não devemos nos referir às crenças desse povo como um todo, visto que os celtas possuíam crenças diversas de acordo com a região em que viviam.A Mitologia celta é fragmentada pelo território que os celtas ocuparam, que é muito extenso, visto que eram um povo guerreiro que ocuparam a Grã-Bretanha e a Europa Ocidental entre os anos 1000 e 400 d.C. chegando até a Ásia Menor.
O que se conhece hoje dos mitos celtas vem em grande parte dos escritores romanos como Júlio César e de monges cristão que eram celtas convertidos que queriam manter a memória das tradições antigas de seu povo.A Mitologia Celta pode ser dividida em três grandes grupos: Mitologia Irlandesa, Mitologia Galesa e Mitologia Galo-Romana, referentes aos povos que viviam na Irlanda, País de Galês e na Gália respectivamente.
(por Lucas Ferraz ao site templo do conhecimento)

A Mitologia Galesa e seu Panteão
A Mitologia galesa foi mais afetada por elementos externos, e seus principais escritos são:
O Llyfr Du Caerfyddin (“Livro Negro de Caermarthen"). Aqui estão os poemas mais antigos em língua celta galesa sobre o rei Artur e o mago Merlim.
O Llyfr Aneirin (Livro de Aneirin) que contem o poema Gododdin do poeta gales Aneirin.
O Llyfr Taliesin (Livro de Taliesin), onde aparecem os relatos do livro Mabinogion.
O Llyrf Coch Hergest, o (Livro Vermelho de Hergesuno). Entre outros textos, conta com uma cópia em gales do poema arturiano Brut, os relatos do Mabinogion, e poesias de alguns bardos medievais importantes.
Livros como o Historia Brittonum de Nennius e o Historia regum Britanniae de Godofredo de Monmouth tratam do rei Artur. O Mabinogion se encontra dividido em quatro ramos principais que são narrativas independentes, mas que se relacionam entre si. Possue também 4 contos independentes (Macsen Wledig, Cyfranc Lludd e Llefelys, Culhwch e Olwen e O Sonho de Rhonabwy) e mais três conto arturianos (Owein ou A Senhora da Fonte, Peredur, Filho de Efrawk e Gereint e Enid).

Personagens dos Quatro Ramos do Mabinogion:
Arawn: Rei de Annwvyn. Regente do Inferno, Annwn, o Submundo na tradição galesa. Representa a vingança, o terror, a guerra.
Bran Vendigeit: Herói do segundo ramo do Mabinogion gales, Bran “o Abençoado”, filho de Llyr, era um gigante.
Branwen: “Corvo branco”. Filha de Llyr e irmã de Bran, esposa do rei da Irlanda Matholwch. Parece ser o aspecto poético de uma antiga divindade do amor.
Prydery: Filho de Pwyll e de Rhiannon, companheiro de Bran. Arrebatado de sua mãe o cria o rei Teyrnon.
Gilvaethwy: Na tradição galesa irmão de Ariandrod e de Gwyddyon.

Goevin: Formosa jovem em cujo colo devia apoiar os pés Math, filho de Mathonwy, para sobreviver em tempos de paz.
Gwyddyon: O Grande Druida dos galeses. Feiticeiro e bardo do Norte de Gales, seu símbolo era um cavalo branco. Rege a ilusão, as mudanças, a magia, o céu e as curas.

Lleu Llaw Gyffes: Filho incestuoso de Arianrod e Gwyddyon segundo a tradição galesa.
Llywarch Hen: Bardo mítico da tradição galesa.
Rhiannon: Grande rainha dos galeses, Rhiannon era a protetora dos cavalos e das aves. Rege os encantamentos, a fertilidade e o submundo. Aparece sempre montando um veloz cavalo branco.
Cernunnos: Seu nome deve ser pronunciado como se tivesse um "k": kernunnos. Deus Cornudo, Consorte da Grande Mãe, deus da Natureza, Senhor do Mundo. Comumente representado por um homem sentado na posição de lótus, cabelo comprido e encaracolado, de barba, nu, usando apenas um torque (colar celta) ao pescoço, ou ainda por um homem de chifres, sendo, por isso, erroneamente comparado ao diabo dos cristãos. Os seus símbolos eram o veado, o carneiro, o touro e a serpente. Deus da virilidade, fertilidade, animais, amor físico, natureza, bosques, reencarnação, riqueza, comércio e dos guerreiros.
Gwynn ap Nud: Rei das fadas e do submundo na tradição galesa.
Gwythyr: Oposto de Gwynn ap Nud, Gwythyr era o senhor do mundo superior, também no folclore gales.
Math Mathonwy: Deus da feitiçaria, da magia e do encantamento no folclore gales.
Personagens do Ciclo Arturiano:
Rei Artur: Rei lendário da Bretanha, unificou o reino e é em torno de seu reinado que gira todo o ciclo arturiano.
Bohort: Primo de Lancelot do Lago e rei de uma parte da Armórica. Encontra o Graal junto com Galahad e Perceval, e é o único que sobrevive nessa busca.
Edern: Filho de Nudd. Um dos mais velhos companheiros do rei Artur.
Elaine: Filha de Pelles, o rei Pescador.
Pelles: O Rei pescador nos relatos arturianos franceses.
Afang-Du: O filho da deusa Keridwen ou Cerriwen, para quem fez ferver um caldeirão da ciência do qual bebe três gotas o futuro bardo Taliesin.
Tristão: Herói de uma das lendas celtas mais conhecidas. Suas aventuras rondam em volta de se amor pela jovem Isolda.
Uther Pendragon: Pai de Artur e rei antes dele, se deitou com a mãe de Artur por meio das manipulações de Merlin.
Viviane: Senhora do Lago de Avalon.
Vortigern: Rei usurpador e traidor na tradição galesa.
Ygerne (Igraine): Mãe do rei Artur e de Morgana.
Yvain: Companheiro de Artur. É um herói civilizador que combate as trevas mas não pode viver se não sob a dependência de uma mulher.
Galahad: Filho de Lancelot do Lago e de Elaine, supera todas as provas do Graal e morre vendo o que há dentro dele.
Ginebra (Guinevere): Esposa do rei Artur. É célebre, sobre tudo, por seus amores com Lancelot do Lago. Precisamente por isto se produz a ruptura entre Lancelot e Artur.
Gwendolin: Nome da esposa de Merlin em a Vita Merlini de Godofredo de Monmouth.
Gwendydd: Na tradição galesa é a irmã de Myrddin (Merlin).
Gwrhyr: Velho e bom amigo do rei Artur, que possue poderes mágicos e fala com os animais.

Kai: Companheiro de Artur.
Lancelot do Lago: Mais famoso cavaleiro de Artur, tem relações com Guinevere e é pai de Galahad que acha o Graal.
Mordred: Um dos sobrinhos de Artur e seu filho incestuoso. Era a encarnação das forças das trevas. Mata o pai e é morto por ele.
Morgana: representa na lenda arturiana, a figura de uma Deusa Tríplice da morte, da ressurreição e do nascimento, incorporando uma jovem e bela donzela, uma vigorosa mãe criadora ou uma bruxa portadora da morte. Sua comunidade consta de um total de nove sacerdotisas (Gliten, Tyrone, Mazoe, Glitonea, Cliten, Thitis, Thetis, Moronoe e Morgana) que, nos tempos romanos, habitavam uma ilha diante das costas da Bretanha. Falam também das nove donzelas que, no submundo gales, vigiam o caldeirão que Artur procura, como pressagiando a procura do Santo Graal. Morgana faz seu debut literário no poema de Godofredo de Monntouth intitulado "Vita Merlini", como feiticeira benigna. Mas sob a pressão religiosa, os autores a convertem em uma irmã bastarda do rei, ambígua, freqüentemente maliciosa, tutelada por Merlim, perturbadora e fonte de problemas.
Nimue: Nome que Thomas Malory dá à Viviane.
Olwen: Heroína galesa, filha do gigante Yspaddaden Penkawr.
Merlin: Figura já conhecida do círculo da mitologia arturiana, este era o Grande Feiticeiro, o Druida Supremo dos galeses. Dizia-se que aprendeu sua magia (que não era pouca) com a própria Deusa, sob os nomes de Morgana, Viviane, Nimue ou Rainha Mab. A tradição diz que Merlin dorme numa caverna de cristal depois de enganado por um encantamento de Nimue. Merlin era o senhor da ilusão, da profecia, da adivinhação, das previsões, dos artesãos e ferreiros. Diz-se ainda que tinha grande habilidade de mudar de forma.
Taliesin: Taliesin o Bardo, foi o druida chefe da corte de Arthur, um dos maiores reis da Inglaterra. Dominava a arte da escrita, a poesia, a sabedoria, a magia e a música. Taliesin é tido como patrono dos druidas, bardos e menestréis.
(por Lucas em 14/1/2007 ao site templo do conhecimento)

A Mitologia Irlandesa e seu Panteão
As principais fontes da Mitologia Irlandesa vem dos monges irlandeses que escreveram as historias ancestrais de seu povo, os principais desses manuscritos são o Lebhor na bUidhre (livro da Vaca Parda), o Livro de Leinster, o Grande Livro de Lecan, o Livro Amarelo de Lecan, o Livro de Bellymote, o Livro de Lismore, o Livro de Fermoy e o Livro das Invasões (talvez o mais importante escrito da história mitológica da Irlanda).
Importantes também são os contos A Batalha de Mag Tuired e principalmente A Segunda Batalha de Mag Tuired. As principais histórias irlandesas rondam em torno do Ciclo de Ulster ou Ciclo do Ramo Vermelho, cuja história é contada no épico Táin Bó Cúalgne (formado pelo livros da Vaca Parda, de Leinster e o Livro Amarelo de Lecan), e no menos conhecido Táin Bó Froagh.
Também importante na Mitologia Irlandesa são as histórias de Finn e Oissin, que compõe o ciclo Fenianico ou Ossiânico, que estão narradas no Acallam na Senorach (Colóquios dos Anciãos). Os Táins e o Ciclo Feniano são os grandes épicos da Irlanda, comparáveis à Ilíada e a Odisséia de Homero, ao Mahabahrata hindu e os Eddas germânicos. São centrais na mitologia Irlandesa as invasões sucessivas na ilha, começando por Cessair e Fintan, os seguintes foi o povo de Partholonm que foram destruídos pelos Fomorianos, logo depois viera os Nemedianos, foram rechaçados pelos Fomorianos e depois voltaram como os Fir Bolg, que fizeram uma era de paz e prosperidade.
Os Tuathas De Dannan foram os seguintes, como narrado nas Batalhas de Mag Tuired, eles derrotaram os Fir Bolg e depois os Fomorianos e tomaram o controle da Irlanda, mas foram depostos pelos Milesianos., liderados por Amergin; esses então passaram a controlar o mundo superior e os Thuata o inferior, vivendo em Sid e se transformaram no povo pequeno, nas fadas irlandesas.
Com isso fica preparado o terreno para as histórias passadas no Táin Bó Cúalgne e no ciclo Ossiânico, povoados por personagens como Cuchullain, Conchobhar, Fergus, a rainha Medb, Finn, Oisin, Conaire e outros. A última das invasões da Irlanda ocorre com São Patrício que cristianiza a ilha. Nessa mitologia as figuras de deuses e heróis muitas vezes se confundem, não há uma separação clara, mas os Thuata sem dúvida são os que mais se aproximam dos deuses das demais tradições indo-europeias, e os Fomorianos com os inimigos dos Deuses, como os Titãs gregos e os Gigantes germânicos. A seguir um pequeno resumo do Panteão Irlandês:

Aine of Knockaine: Deusa do amor e da fertilidade, mais tarde foi conhecida como a rainha das fadas. Deusa relacionada à lua, colheita, e a criação de gado.
Airmed: filha do deus da medicina Dian Cecht.
Amergein: Bardo dos Milesianos que derrotaram os Thuata e tomaram o controle da Irlanda.
Angus Og: Deus da Juventude, do Amor e da Beleza na Irlanda Antiga. Um dos Tuatha de Dannan, Angus possuía uma harpa dourada que produzia música de irresistível doçura. Os seus beijos transformavam-se em pássaros que transportavam mensagens de amor.
Aoibhell: Mulher do Sidhe, morava em Craig Liath.

Badb: Na mitologia irlandesa, Badb era uma das formas gigantes de Morrigan. Ela era suficientemente alta para colocar um pé em cada lado de um rio.
Balor: Fomoriano, avô de Lug, cujo equivalente gales é Yspaddaden Penkawr; tinha um único olho que fulminava todos a sua volta com seu veneno.
Banba, Eriu e Fodla: Trio de deusas filhas de Fiachna que personificam o Espírito da Irlanda.
Boann: Deusa do Rio Boyne e mãe de Angus Mac Og com o Dagda. Ela era esposa de Nechtan.
Bodbh: Deusa irlandesa que incitava os guerreiros durante a batalha.
Bres: Filho de pai Fomoriano e mão Thuata, traiu os Thuata e foi o pivô da segunda Batalha de Mag Tuired.
Brigite: Deusa tríplice de origem irlandesa, era filha de Dagda.

Cessair: Mulher primordial que ocupou a Irlanda antes do dilúvio, era neta de Noé.
Cian: pai de Lug.
Creidhne, Goibhniu e Luichtanel: Deuses do trabalho em metal e das artes manuais da Tuatha De Danaan, respectivamente brazeiro, ferreiro e carpinteiro.
Dagda: O Bom Deus, um dos principais do panteão irlandês, possuía uma harpa e um caldeirão mágicos e podia ter poderes maléficos ou benéficos.
Danu: Deusa mãe Irlandesa, dá nome aos Tuathas de Dannan, o Povo da Deusa Dana. Mãe de Dagda.
Dian Cecth: Deus da medicina irlandês, colocou a mão de prata em Nuadu e matou seu filho Miach por não gostar da cura que ele fez na mão verdadeira de Nuadu.
Edain: Deusa dos cavalos, a Epona Irlandesa.
Elcmar: irmão de Dagda.
Etain: Na mitologia celta, Etain (A Brilhante) era a tripla deusa do sol, água, cavalos, fragrâncias, beleza, música e transmigração das almas.
Ethlin: Na mitologia celta, era filha de Balor. Balor, aterrorizado pela profecia de que seria morto pelo neto, trancou Ethlin numa torre de vidro e colocou guardas para vigiá-la. Contudo, Cian disfarçado como mulher, entrou na torre e uniu-se a ela.
Fintan: Na mitologia celta, o salmão da sabedoria, era um metamorfo. Foi o único irlandês a sobreviver ao dilúvio mudando sua forma para um falcão para sobrevoar as águas e depois em salmão para nelas sobreviver. Tendo comido nozes mágicas recebeu todo o conhecimento, mas ficou preso numa rede e foi comido por Finn MacCool que acabou adquirindo seu conhecimento e seus poderes.
Lir: Divindade irlandesa, o Velho Homem do Mar.
Lug (ou Lugh, Luga, Lamhfada, Llew Llaw Gyffes, Lleu, Lugos, Samildanach): Maior dos deuses irlandeses, chamado de Mão Poderosa ou Mão Longa, foi o último a se juntar aos Thuata e possuía muitas habilidades.
Macha: Na mitologia irlandesa, deusa de jogos atléticos, festivais e fertilidade.
Manannan: era homenageado como uma das principais divindades do mar pelos irlandeses.
Mider: Deus do Outro Mundo.

Morrigan: Deusa irlandesa associada à gralha, deusa da guerra e do amor.
Nechtan: divindade irlandesa das fontes.
Nuada (Nuadu): Deus irlandês que perde o braço na primeira batalha de Mag Tuired, reverenciado como maior dos deuses, cultuado também na Gália.
Ogma: deus irlandês semelhante a Hércules, Ogma tinha uma enorme maçã com a qual defendia seu povo, os Tuatha de Dannan, sendo eleito seu campeão. Ele inventou a linguagem rúnica dos druidas, o Ogham.
Scathach / Scota / Scatha / Scath: Seu nome traduzia-se como A Sombra, aquela que combate o medo. Deusa do submundo, Scath era a deusa da escuridão, aspecto destruidor da Senhora. Mulher guerreira e profetisa que viveu em Albion, na Escócia, e que ensinava artes marciais para os guerreiros que tinham coragem suficiente para treinar com ela, pois era tida como dura e impiedosa. Não foi à toa que o adestramento do herói Cuchulainn foi levado a cabo por ela mesma, considerada a maior guerreira de toda a Irlanda. Scath era ainda a patrona dos ferreiros, das curas, magia, profecia e artes marciais.
(por Lucas Rafael em 14/1/07 ao site templo do conhecimento)
A Mitologia Galo-Romana e seu Panteão
Conjunto de crenças dos povos celtas que viviam na região da Gália, nas fronteiras do Império Romano, e que teve grandes influências dos deuses latinos. O que se conhece dessa mitologia foi redigido por escritores latinos depois do século I a.C., como Posidônio, Diodoro Siciliano, Estrabão, Lucano, Tácito e Julio César em seu As Guerras Gálicas, que narra a conquista da Gália por Roma. A seguir um pequeno resumo do Panteão Galo-Romano:
Andrasta: Deusa guerreira. Aparece com a rainha Budica. Tinha um esposo de que foi identificado com Marte (deus da guerra) romano.
Arduinna: Deusa-ursa.

Belenos (ou Belenus, ou Oengus, ou Maponos, ou Mac Oc): Deus do sol e da medicina, heterônimo de Apolo.
Belisama (ou Dama, ou Ana): é a divindade solar feminina, a Minerva gaulesa.

Bormo e Damona: deus e deusa das fontes e das águas termais.
Cernunos (ou Kernunnos, Slough Feg, ou Cornífero): Deus da abundância e fertilidade, possuía chifres.
Dis Pater: Originalmente deus da morte e do mundo subterrâneo, eventualmente o chefe dos deuses. É dito que é o ancestral de todos os Gauleses.
Divonna: deusa das águas correntes e das fontes.

Epona: deusa dos cavalos, identificada com a galesa Rhiannon e a irlandesa Macha.
Esus: Ligado a Mercúrio ou Marte, seu nome significava senhor e compunha a tríade dos maiores deuses com Taranis e Teutates.
Lug: Maior dos deuses, equivalente gaulês de Mercúrio, presente também nos mitos Irlandeses.
Math: Deus gaulês da magia.
Matrona: era a divindade mãe na Gália primitiva.
Medru: deus gaulês identificado com Mider ou Midir irlandês.
Moccus: seu nome significa porco e seu culto ligava-se ao javali.
Nantosuelta: deusa gaulesa.
Nodens: deus gaulês identificado com o Nuada irlandês.
Ogmios: deus gaulês da palavra, fazia a ligação entre homens e deuses, era o Ogma irlandês.
Rosmerta: deusa da abundância e fertilidade.
Sirona: deusa galesa.
Smertrios: deus gaules, “o provedor”.
Sul: deusa gaulesa do sol.

Sucellos: deus do martelo, identificado com o Dagda Irlandês.

Taranis: deus gaulês do trovão.
Teutates: o Marte Gaulês, comparado ao grande deus celta do outro mundo. O Rei Pescador dos romanos asturianos.
Como se pode perceber apesar das muitas tentativas de absorção do mitos dos gauleses pelos romanos eles mantêm sua identidade, visto que possuem estreita ligação com os celtas insulares, a ligação de Sucelos com Dagda, a presença de Lug em ambos os panteões e Nodens que é o mesmo que Nuada é prova mais que clara dessa ligação que dá identidade ao povo celta.

(por Lucas Rafael em 14/1/07 ao site templo do conhecimento)

Deuses com face humana
Muitos se surpreendem em relação ao fato dos Tuatha Dé Dánnan nos relatos míticos célticos não viverem numa espécie de versão céltica do ´Monte Olimpo´ e muito pelo contrário mesmo levavam um cotidiano tão comum como de qualquer outro ´´mortal´´apesar de seus ´dons sobrenaturais´, ou seja, eles tinham que caçar , pescar e plantar se quisessem poder comer alguma coisa. De fato mesmo a aparência dos Tuatha Dé Dánnan não era aquela coisa toda asséptica e certinha de ficar sempre com vestes de puro linho branco enrolados no corpo como uma espécie de toga improvisada.
Para se ter uma ideia , por exemplo, Morrigan invariavelmente envolvida em brigas normalmente podia ser de antemão notada em sua chegada por seu forte mal cheiro. No tocante das vestimentas ( ou melhor dizendo na falta delas ) dos Tuatha Dé Dánnan era mais comum andarem semi-nus com tiras de couro curtido amarrado e entrelaçando sobre partes do corpo que era totalmente tatuado com figuras geométricas e pintado da cabeça aos pés. Para se ter uma ideia se muito usavam peles de animais nos dias de mais frio.
Interessante observar, ainda pensando em paralelismo com o mundo mítico grego, havia uma versão própria de ´´ambrosia´´ para os Tuatha Dé Dánnan que assumia a forma do anual ´´Banquete das Eras´´ que era acompanhado com uma bebida de mágicas propriedades ( a cerveja Gobniu ) onde segundo parece estava origem de seus ´´super-poderes´. Agora mesmo com todo este ´reforço mágico´ de vigor e poder místico conferido pelo ´´Banquete das Eras´´, não eram os Tuatha Dé Dánnan invulneráveis e imortais. A citar o caso de Nuada, um dos seus reis, que em um combate teve seu braço direito amputado e posteriormente foi morto na Batalha de Moytura Setentrional.
Aliás, mesmo depois de um tempo absurdo, em comparação aos padrões meramente comuns de existência humana, chegava um momento que também os Tuatha Dé Dánnan envelheciam e até onde se supõem morriam como qualquer reles mortal.Assim, se chega a conclusão que ou bem os celtas tinham uma visão bem estranha do que fossem ´´deuses´´ ou soa bizarro que os Tuatha Dé Dánnan sejam encarados como divindades diante das características tão peculiares que possuíam.

(por Ioldanach em 11/3/2007 ao site templo do conhecimento)

O DESVELAMENTO DO MITO ARTHURIANO
Atentar uma identidade para o Rei Arthur, é algo irrelevante e que nos remete adentrar em um universo complexo. A rigor, a literatura usa materiais mitológicos como fonte direta de eventos e personagens históricos, na qual a história é deformada pela imaginação popular, onde traça sobre o mito um perfil, como concretização de uma utopia, o fato da obra literária ser uma utopia concreta mantém viva a esperança e o ideal.
A literatura nos afeta através da capacidade de construir pessoas, um mundo cresce diante de seus limites da razão e descrição empírica. Contudo, o mito é dinâmico, se transforma com o tempo ao acompanhar o espírito de uma época, e os elementos que fazem dele uma fonte de autoconhecimento configura-se em metáfora, retratando a essência do homem. Assim, o mítico Rei Arthur tornou-se atemporal e transcendeu a história. Consequentemente, a literatura faz com que o Rei Arthur não seja um rei legado ao passado, mas sim do presente, pois à medida que se resgata o passado de uma obra literária para compreendê-la no presente, inconscientemente ressuscita-se.

(por Edileide Brito em 10/1/08 ao site templo do conhecimento)

A Fala dos Celtas
A língua dos Celtas. Atualmente, existe um interesse imenso sobre qual seria a língua falada por tão fascinante povo, e porque ela teria morrido. Na verdade, ela não morreu, e nem mesmo há uma única língua de origem Celta no mundo. Nesse momento, existem quatro línguas Celtas faladas ainda na Europa e nas colônias, e duas em processo de ressurreição. E todas, sem exceção, retrocedem à antiga língua-mãe Celta.
As línguas Celtas são idiomas Indo-Europeus em origem, e derivam portanto da linguagem Indo-Europeia. Enquanto os Indo-Europeus migravam para o Oeste (Celtas, Helenos, Germanos, Italiotas...) e Leste (Hindus principalmente), as difusões e épocas migratórias geraram, influências de povos aborígenes e períodos de isolamento geraram diferentes povos, com diferentes estruturas sociais e também, línguas diferentes.
Desses ramos linguísticos, um deles foi chamado de Céltico pelos filólogos; não se sabe exatamente quando o Céltico teria florescido, uma vez que caráter migratório dos povos Celtas os levava sempre à novas regiões, com novas influências linguísticas, e assim, o Céltico terminou por dar origem a um sem número de línguas, a maioria perdida atualmente.
As línguas Celtas melhor documentadas são aquela que pertencem ao chamado Céltico Insular, ainda que os primeiro registros que temos sejam das linguagens pertencentes ao Céltico Continental. Das línguas Celtas Cotinentais, aquela que conhecemos melhor é o Gaulês. Apesar disso, é um erro pensar que Gaulês era idioma único. Os cronistas nos dizem que a fala dos Gauleses de uma região diferia da fala dos de outra, indicando a possibilidade de um grande número de dialetos locais. Daqui vem muitas das palavras tão conhecidas daqueles que estudam os Celtas, como Maponos (Mabon, em Galês), Samonios (Samhain, na tradição Irlandesa) e outras.
Alguns dizem, com base nos nomes de Maponos, Epona e alguns outros, que a língua Galesa teria fortes afinidades com as línguas insulares Britônicas, uma vez que Maponos é semelhante à Mab (filho em Galês) e difere de Mac (filho em Gaélico). O mesmo vale para Epona, da raiz Gaulesa “epos” (égua), enquanto o Gaélico Arcaico seria “ech” (semelhante ao Latim “equus”). De qualquer modo, o Gaulês veio a perecer com os séculos de dominação Romana, e apenas as inscrições nos dão o testemunho dessa língua.
Muitas línguas Celtas Continentais também nos legaram alguns registros, como o Celtibérico, e todas elas tem recebido estudos em uma tentativa de reconstrução. Todavia, são línguas mortas, pois o vocabulário disponível não permite uma fluência verdadeira em nenhum dos casos. Os melhores avanços foram feitos no Gaulês, onde um sistema Gramatical (o Labarion) foi desenvolvido, e um belo vocabulário existe. A realidade das línguas Celtas Insulares é bem diferente.
Quando os Celtas atingiram as Ilhas Britânicas, houve uma cisão entre eles. Na Irlanda ficaram os chamados Celtas Goidélicos, enquanto na Bretanha, os Celtas Britânicos. Não se sabe exatamente como houve essa separação, mas é normalmente aceito que as línguas já diferiam antes dos Celtas alcançarem as Ilhas. Algumas evidências apontam para um Celtibérico mais próximo ao Gaélico, enquanto, como já foi dito, o Gaulês seria mais semelhante aos idiomas Britânicos, e isso talvez nos diga que as expedições dos Celtas para as Ilhas partiram de regiões diferentes. Se alguma chegou antes, se empurrou ou assimilou a outra, isso é uma questão de suposições apenas.
O Britonico se assentou na Ilha maior, e pode ter sofrido influências do idioma Picto, embora pareça que os Pictos é que tenham sido Britonizados, uma vez que alguns nomes Pictos conhecidos tem afinidades Britônicas. Uma outra hipótese é que os Pictos tenham sido sempre Celtas Britonicos, apenas separados dos outros por épocas migratórias. Após isso, com a dispersão das tribos pela Bretanha, diferenças de dialetos surgiam. A invasão seguinte, a dos Romanos, trouxe novas influências ao Britonico. Porém, diferente do que ocorrera na Gália, na Bretanha a língua nativa sobreviveu, agora já diferindo do que era anteriormente, com influências Latinas.
As invasões seguintes, dos Escotos da Irlanda e dos Germanos (Saxões, Anglos, Jutos...) continuavam a influenciar a língua, mas ela permanecia Britonica no todo. Aqui nasceu um dos dois ramos que os filólogos atuais identificam como línguas Celtas modernas, o Celta Britonico, ou Celta P, já que suas palavras utilizavam uma troca do som do “K” Indo-Europeu por um “P” (ou “b”, em Galês moderno), ainda que o som do “K” não fosse totalmente perdido. Do Britônico nasceu o Galês (Cymraeg) que permaneceu falado no interior Britanico, em regiões de menor influencia dos Anglos e Saxões.
Com a chegada dos Normandos, os falantes do Galês recuaram mais para o Oeste. Uma versão do Galês também foi falada no sul da Escócia, mas ali a língua cedeu rapidamente espaço para as variantes do Inglês. Porém o Galês no País de Gales não pode ser banido, tendo diversos inimigos e aliados ao longo da História. Uma das ações que permitiram a sobrevivência da língua foi a da “cultura de capelas” da Igreja Metodista, que apoiava o uso da língua, mesmo com ela proscrita pela coroa Inglesa. Atualmente, a lingua Galesa sofre poucos problemas, mas seu número está longe de ser seguro.
Gwynedd, Dyfed e Glamorgan são os três maiores centros de falantes de Galês, que são cerca de um terço da população do País de Gales. Cerca de trinta mil Argentinos também falam Galês, descendentes de colonos Galeses que se assentaram na Patagonia. A língua não corre mais risco de desaparecimento imediato, mas ainda não tem o futuro assegurado. Outra língua descendente do Britonico, mas que não teve tanta sorte, foi o Córnico (Kerneweg), que foi falada na Cornualha, no atual extremo sudoeste da Inglaterra. A língua diferia pouco do Galês, apenas o suficienta para ser considerada outro idioma, mas a baixa população e a rápida queda de Kernow perante os Anglo-Normandos condenaram a língua. Como o Galês, ele foi proscrito, e nem mesmo a Igreja Metodista pôde salvá-lo. Porém, a destruição não foi completa, nos legando textos, como dramas religiosos medievais, e permitiram a reconstrução da língua. Diferente do Gaulês, a quantidade de textos era grande, e a estrutura gramatical era reconhecida no Galês e no Bretão. Com um vocabulário vasto, e duas línguas irmãs disponíveis, o Cornico foi reconstruído no século XX, e alguns dos estudiosos passaram a ensinar o idioma em suas casas. Atualmente, cerca de trezentas pessoas falam Córnico, e seu caso único, o de uma língua morta que parece realmente estar conseguindo ressurgir das cinzas.
O Bretão (Brezhoneg) é um caso mais complicado. Também uma língua Britônica, é atualmente a única língua Celta falada na Europa Continental. A migração dos Britonicos para a atual Bretanha Francesa (Breizh) começou por instigação dos Romanos, e atingiu seu ápice durante as invasões dos Saxões à Ilha Britânica. Ali, os Bretões, que viviam separados de seus primos nas Ilhas, terminaram por desenvolver uma língua que diferia de sua base Britônica, com influências dos dialetos Latinos da região, e depois do Francês Normando também. A língua foi o idioma Celta que sofreu os ataques mais ferozes, por parte do governo Francês, e não do Inglês. Ela foi perseguida até o século XX, mas sobreviveu, e apesar de ser uma língua com um grande número de falantes idosos, ela tem um número expressivo (cerca de meio milhão de fluentes) e com o fim da perseguição (apesar de algum preconceito ainda persistir), ela finalmente volta a crescer.

Os Bretões foram alguns dos principais responsáveis pelo “Renascimento Celta”, com a força e divulgação de sua cultura, música (Alan Stivell) e literatura, e se esse movimento permanecer em crescente, o futuro da língua pode estar assegurado. Na Irlanda proliferou o ramo chamado Celta Goidélico (ou “Celta Q”), atualmente o mais visível ramo das línguas Celtas. Possivelmente levado à ilha por Celtas vindos da Ibéria, o Goidélico permaneceu praticamente sem contestação até a Idade Média. Sua língua herdeira local, o Gaélico Irlandês (Gaeilge), foi falada até a conquista Britânica, e foi a língua na qual foram registrados os primeiros livros em língua Celta, pelos monges que pregavam na ilha. Nessa língua estão preservados verdadeiros tesouros como o Echtrae Chormaic, o Tochmar Étaine, o Táin e o Leabhar Gaballa Érenn, todos textos importantíssimos para o entendimento da mitologia Celta. A língua foi inclusive levada por migrantes Irlandeses para suas colônias além-mar.
A língua permaneceu falada entre o povo após a Cristianização, e muitos textos fundamentais ao primeiro Cristianismo Irlandês tem versões tanto em Latim quanto em Gaélico. Após a conquista pela coroa Britânica, o Irlandês sofreu ferozes ataques do governo centrado em Londres, mas como sempre acontece com as línguas Celtas, o povo se recusava a deixar a fala de seus pais. Os piores estragos ocorreram com a horrível gestão de Cronwell e a Praga da Batata, já no século XIX, fatos que atingiam principalmente o povo Gaélico do interior da Ilha Esmeralda, causando morte e imigração para a América do Norte massivas, e dificilmente a língua sobrevivia à mudança. Mas a língua resistiu, e com as ações de independência, deixou de sofrer ataques diretos, ainda que continuasse ameaçada pela mídia e educação Anglofonas.
A língua foi incluída como matéria obrigatória nas escolas Irlandesas, e é a primeira língua da nação pela Constituição. Atualmente, a língua, mesmo não sendo falada pela maioria da população Irlandesa, tem interesse renovado, número de falantes seguro e material de sobra para que aqueles que se interessam por estudos Celtas. A língua foi levada até a Ilha de Mann pelos Irlandeses, e é possível que a população anterior fosse Britânica, mas os Gaélicos se tornaram logo predominantes, inclusive, seu santo nacional é o mesmo São Patrício da Irlanda. Porém a ilha passou para o domínio Britânico, mas a língua prevaleceu. Então veio a regência Escandinava na Era Viking (gerando uma das mais exóticas conversões da Historia, com a maioria dos Manqueses adotando a religião pagã Nórdica, misturando-a ao Cristianismo e ainda agregando fortes elementos Celtas), e durante esse tempo, a influência Nórdica penetrou fundo na língua, tornando-a bastante distinta do seu Gaélico original. Depois o controle da ilha passou à Escócia (que baniu a religião “mista” local), e a língua passou a ser reconhecida como Manx. Estando dentro do espectro da Coroa Britânica, a língua também estava destinada a ser banida, e também permaneceu falada pelo povo, mesmo com a pequena população da ilha.
A língua oficialmente morreu na década de 1970, mas foi totalmente registrada, e vem sendo estudada e revitalizada. Ela foi incluída no currículo escolar como matéria opcional par as crianças, e o interesse aumentou muito após a sua extinção. Atualmente, existem cerca de 1500 falantes do Gaélico Manx (ou Gailck), que aprenderam a língua por atitude própria e a passam aos filhos, e cerca de mil crianças frequentam as aulas de Manx nas escolas. Tudo leva a crer em uma ressurreição completa da língua.
O Gaélico escocês (Gaidhlig) foi levado pelos colonos Irlandeses, na instituição do Dál Ríada. A língua nunca foi realmente falada por todo o território Escocês, dividindo espaço com uma variação do Galês no sul, e o idioma Picto (do qual não nos sobram registros) no leste, mas essas línguas logo deram espaço à variante do Inglês conhecida por “Lallans”. O Gaélico também cedeu rapidamente, mas por algum tempo houveram regiões que falavam Gaídhlig. Ele, como o usual, foi resistindo entre o povo, mas de forma extremamente restrita. Porém, justamente pelo difícil acesso à essas regiões, ela sobreviveu, e não só isso, como manteve uma estrutura mais arcaica do que o Gaélico Irlandês, que sofreu mais influências do Inglês. Com a anexação definitiva da Escócia ao Império Britanico, o Gaélico cedeu rapidamente mesmo nessas áreas isoladas. Hoje, a língua sobrevive, mas é a mais ameaçada de todas as línguas Celtas. Seus números só são maiores do que os das línguas que morreram (Manx e Kerneweg) e talvez seus cinquenta ou sessenta mil falantes na Escócia não sejam suficiente para manter a língua viva.
Existem falantes dessa língua em Cape Breton, no Canadá, mas talvez seus números também não aumentem muito as chances. Alguns trabalhos vem sendo feitos para sua revitalização, mas sem um apoio estatal forte, não é possível afirmar que haverá um futuro seguro para o Gaídhlig. Essas são as línguas Celtas, as herdeiras da fala desse povo antigo tão fascinante, e nas quais muitos dos seus tesouros culturais e literários são preservados. Elas são ameaçadas, mas resistem com uma tenacidade digna dos antigos Britânicos e Gaélicos, e trazem ao mundo moderno um pouco do seu modo de pensar e ver o mundo. E por isso, são cheias de méritos para aqueles que se interessam pelos Celtas, qualquer que seja seu motivo.

( por Wallace William em 26/6/2007 ao site templo do conhecimento)

OS CELTAS

As primeiras referências que temos dos celtas encontram-se na literatura grega, por volta de 500 a.C. Parece que, por essa altura, deveriam já habitat uma vasta área geográfica, que incluía França e Espanha e que se estendia até ao Danúbio superior, na Europa Oriental. A datação arqueológica dos achados não só confirmam sua história como também nos informa sobre o passado pré-histórico dos celtas.

Existe uma cultura reconhecidamente pré-cética em redor Danúbio superior do ano de 1000 a.C. Contudo arqueólogos defendem agora uma muito espalhada e gradual "celtização" de culturas que existiam já na Idade do Bronze na Europa Setentrional e Meridional; assim, a Bretanha céltica podia mesmo remontar a 1500 anos a.C., quando a cultura de Wessex possuía as características sociais heroicas em conformidade com os primitivos mitos célticos irlandeses.

Os celtas Hallstatt (Idade do Bronze), europeus meridionais cOs celtasomeçaram cedo a explorar o ferro para ferramentas e armas e a expandir o seu território, primeiramente através da Europa, em direção à França e à Península Ibérica, como afirmam os primeiros historiadores gregos. As tribos gálicas fizeram, então, incursões na Itália romana e etrusca, tendo sido quase bem sucedidos ao sitiar Roma, em 387 a.C., e acabando por se estabelecer no vale do Pó (maior rio italiano).

A cultura céltica deste período é conhecida como La Tène (Idade do Ferro), nome de uma localidade na Suíça que apresenta características típicas da sociedade céltica do séc. V a.C. Muitos arqueólogos veem La Tène como a primeira cultura verdadeiramente céltica e, por certo, este é o povo que, a partir de então, é referido como os celtas pelos historiadores clássicos.

Uma expansão céltica posterior foi dirigida para o Sudeste da Europa, o Báltico e para a Turquia Ocidental. No século IV a.C. vemos Alexandre, o Grande, receber embaixadores célticos na sua corte na Macedônia, e ouvimos dizer que, em 279 a.C., tribos célticas tentaram saquear o santuário grego de Delfos, a que se opôs um miraculoso nevoeiro enviado pelo Deus Apolo.

Os gregos faziam distinção entre os celtas orientais, a que chamavam Galatoi (Gálatos originalmente da Gália), e os celtas da Europa Ocidental, a que chamavam Kelkoi. Os Romanos fizeram mais uma distinção, chamando Galli (Gauleses) aos celtas franceses e Belgae (originalmente do que é agora a Bélgica) e Britanni (Bretões) aos celtas britânicos.

A Gália céltica tornou-se a província romana da Gallia, após as conquistas de Júlio César, no século I a.C., e a Bretanha tornou-se a Britannia romana, no reinado do imperador Cláudio, no ano 43 da nossa Era. A Irlanda nunca foi invadida por Roma e, portanto, os seus mitos tendem a preservar a sua primitiva cultura céltica pré-histórica com mais pormenores.

Júlio César e outros escritores dos primeiros séculos a.C. e d.C. deram-nos relatos precisos da cultura e dos costumes célticos vistos por não-celtas. A principal característica que emerge é a que se refere a pouca unidade entre eles: estavam divididos em tribos dirigidas por chefes que, ao que parece, mantinham lutas constantes entre si. Todavia, deve recordar-se que os romanos, provavelmente, encorajavam essas divisões tribais nativas para facilitar as suas próprias invasões.

Fonte bibliográfica: Introdução à Mitologia Céltica de David Bellingham

TERMINOLOGIA, RELIGIOSIDADE E IDIOMA

Por Lornnah Carmel©2002

A palavra celta é derivada da ancestral Keltoi que os gregos ancestrais usaram para denominar as tribos europeias ao norte deles. Para os gregos e estudiosos modernos, a palavra distingue diferentes culturas, do mesmo modo que foi usada no passado para denominar diferentes tribos, referindo-se a cultura e não ao povo geograficamente delimitado.
Culturas celtas, ao contrário do que se fala, ainda existem. O termo celta começou a ser usado para culturas europeias atuais (portanto vivas) a cerca de 300 anos atrás. Para algo ser chamado de celta significa, portanto que se desenvolveu e existe numa cultura que fala a língua celta.
São considerados celtas hoje em dia, países das quais, certa porção da população fala algum idioma celta, fato que explica a designação dos "sete países celtas" enquanto na verdade, se o critério fosse a colonização ou habitação primitiva dos celtas, obviamente muito mais países entrariam nessa lista. Existem dois troncos principais da família celta.
O primeiro tronco é o Gaulês ou Gaélico encontrado na Irlanda (Eriu), Escócia (Alba) e Ilha de Man (Mannin). O segundo tronco é o Bretão, encontrado em Gales (Cymru), Cornualha (Kernow) e Bretanha (Breizh).
O termo céltico não é sinônimo dos termos irlandês, escocês ou galês, etc. O celta relaciona a cultura e específico idioma enquanto os outros designam a nacionalidade. celta é uma descrição cultural e seus laços são definidos pelo idioma, que é a mais forte característica para enquadrar todas as tribos a qual o termo foi atribuído, num só grupo entre os séculos XVI e XIX na Bretanha e no continente houve um grande interesse em material antiquário.

La Tène

Distribuição dos celtas na Europa. A área verde sugere a possível extensão da área céltica por volta de 1000 a.C. A área laranja indica a região do nascimento da cultura "La Tène" e a área vermelha indica a região sob influência céltica por volta de 400 a.C

Inevitavelmente, na ausência de um sistema científico de classificação para construir um panorama cronológico do passado, os investigadores compactaram o material remanescente dos habitantes ancestrais da Europa, de modo tudo que era aparentemente pré-romano "pertencia" ao mesmo horizonte cultural. Assim os druidas, Stonehenge e os celtas se tornaram, segundo a Dra. Miranda Green, erroneamente intrincados e assim permanece até hoje.
As tradições tem permanecido vivas nas áreas que falam idioma celta. Na maioria dessas áreas, os velhos costumes têm revivido ao mesmo tempo em que o idioma, de maneira muito orgânica. Nas últimas poucas décadas, os governos da Irlanda e Escócia vem tentado criar novas áreas de língua gaélica. Gales tem vestido sua herança céltica há muitos anos. Um milagre aconteceu na Cornualha e a língua nativa, que estava extinta, renasceu.
As únicas reais verdades sobre as coisas ditas celtas, são as que oferecem correspondente nas crenças, espiritualidade, tradições, cosmo visão comuns às comunidades que falam o idioma céltico, que são o Gaélico e o Bretão.
Grupos que se denominam celtas por motivos religiosos, políticos ou qualquer outro isoladamente da cultura, não terão jamais compreensão de mundo das comunidades celtas e por tanto o uso do termo torna-se dubitável. Um brasileiro que fala gaélico interage muito mais na cultura celta, do que um irlandês que não fala gaélico irlandês.
O termo celta seja gaélico ou bretão não se refere à raça. Não existe o chamado "sangue celta". Celta é uma classificação cultural que não tem nada haver com genética ou pureza racial. Tomando os gauleses como exemplo, povos de muitas áreas como fenícios, semitas e ilírios estavam reunidos nas terras que são gaulesas hoje, originando, o que se torna dispensável dizer, no povo gaulês.
O uso da terminologia céltica como pano de fundo para problemas políticos, alegando pureza racial é puro merchandising, que não encontra embasamento histórico nenhum. O mesmo pode ser afirmado no que diz respeito à associação do termo a reivindicação de pureza e extremismo racial.
Nas últimas décadas as pessoas tem tentado restabelecer a ligação com suas raízes culturais e idioma nativo. Infelizmente a maioria das informações presentes na "espiritualidade celta" de hoje, não são referentes às culturas celtas e sim materiais modernos de mitos da idade média e romantismo.
Chamar algo de celta quando não é parte da cultura celta é errôneo do mesmo modo que, selecionar um aspecto dessa e de qualquer outra cultura é divorciá-la do restante do contexto no qual ela é inserida. Aqueles que fazem isso aniquilam a cultura e o seu real significado.
A religião celta é completamente dependente da cultura celta e a única maneira de entender uma é entendendo a outra. Averigua-se facilmente nesse tipo de mal uso, uma desconexão histórica grosseira e completo desleixo com a realidade das comunidades celtas. Com o passar do tempo, o povo que foi para o Novo Mundo abandonou suas culturas célticas em pró de seu novo ambiente.
Como resultado as tradições célticas tornaram-se tão estrangeiras para seus descendentes quanto para qualquer outra pessoa de outra cultura, da qual ela tenha sido levada. Até mesmo no Reino Unido, muitas pessoas não tem tido acesso ao conhecimento tradicional devido ás guerras mundiais, crescimento das cidades e da tecnologia.
Entendido o entrelaçamento entre religião e cultura, pode-se afirmar que um chinês que fale gaélico pode certamente saber mais sobre a religiosidade celta que um irlandês, uma vez que a língua oferece a imersão dentro de uma cultura. Essa comparação pode ser bem entendida se trazida para a realidade brasileira: uma inglês que fale tupi sabe muito mais da religião e cultura indígena do que nós que aqui moramos e somos seus descendentes.
Toda religião celta pós-moderna que floresceu distante dos territóriosTriskle de Newgrange célticos então é posta em cheque por esse bloqueio linguístico. Aprender o gaélico do território céltico cuja religião você está se conectando é um dos principais elementos para se seguir numa religião celta moderna verdadeira. Discordo daqueles que defendem que só os descendentes de celtas podem compartilhar das crenças religiosas célticas.
Esse tipo de pensamento só vem a disfarçadamente reforçar o extremismo racial dos celtas enquanto povo, enquanto na verdade uma pessoa nascida em qualquer região do planeta pode ser considerado celta se dominar tal idioma e por tabela a cultura inteira, uma vez que é sabido que foi a língua, a maior unidade das tribos celtas ancestrais. Além disso, existe um compromisso transcendente inerente ao aprendizado da língua de seus Deuses: mantê-la viva.
Tais idiomas vem sendo, assim como o nosso e muitos outros no mundo, substituídas pelas novas gerações pelo inglês. Claro, salvo as devidas proporções em comparação ao nosso português. Os idiomas nativos da Irlanda, que como outros, guardam os contos folclóricos, lendas, costumes, canções, orações, mitos, Deuses Pagãos e conhecimentos diversos, estão confinadas aos lugares rurais mais remotos, que obviamente, pela ordem natural do desenvolvimento do país, tende a desaparecer.

Com as religiões modernas, a única que é assumidamente moderna, é a chamada de Paganismo Celta Reconstrucionista (CPR), de todas as "religiões celtas" ela é a única que não reclama uma "pura legitimidade sanguínea" ou "ancestralidade neolítica". Quem não gosta muito de aulas de história, o reconstrucionismo, também chamado de: Tradicionalismo Gaélico, Tradicionalismo Irlandês, Escocês, Aurrad, Tuathanách entre outros, ressalta a importância do idioma, porque busca uma prática religiosa vinculada ao conhecimento da cultura e do cotidiano, original dos celtas.

Multiplicide Celta
Ensaio original de Lornnah Carmel©2002
Para começar a entender a mitologia celta, é preciso entender ao menos um pouquinho do povo que deu origem a ela. A denominação genérica celta define não só um povo ou raça, como costumamos entender essa palavra; mas sim um vasto número de tribos diferentes espalhadas por diversos países da Antiga Europa, que apesar da dispersão geográfica guardavam entre si fortes profundas semelhanças de cunho social, religioso, mitológico e principalmente linguístico (gaélico).
Os celtas viviam em tribos. Cada tribo possuía seu Deus particular, e Deuses ‘maiores’ compartilhados por tribos vizinhas. Não é minha intenção descrever esse povo e seu modo de vida, mas sim fazer um breve apanhado geral sobre o quão distribuídos estavam os celtas pela Europa, para que se possa compreender a variedade de Deuses, seres espirituais, valores, costumes e conceitos registrados em sua mitologia.
Além da interpretação tribal que cada mito, que cada Deus e que cada aventura celta sofria, devido às diferenças regionais, existe também o agravante dessa literatura ser exclusivamente oral, uma vez que esse povo não dos deixou nada por escrito, o que justifica suas complexidade e variação. Tendo esses conceitos previamente compreendidos, pode-se pensar então em conhecer os Deuses celtas em sua real natureza e não em comparação com outros sistemas politeístas já conhecidos.
Eles, ao contrário dos greco-romanos, por exemplo, não são personificações de funções ou virtudes somente. Não procure nos Deuses celtas arquétipos como "de Amor ou de Guerra". Pelo contrário, todos os Deuses possuem várias funções diferentes, podendo ser de proteção e destruição ao mesmo tempo. Todas essas peculiaridades dificultam o aprendizado de início, mas em contrapartida proporcionam um prazer imenso a quem decide persistir e pesquisar essa cultura.

Fonte e créditos: TRÊS MUNDOS - Paganismo Reconstrucionista Celta

6 de mar. de 2011

Celtas

“Quem eram os Celtas?”

1 – Introdução - “Quem eram os Celtas?”


“A Gália está toda dividida em três partes (...) a terceira pelos que em sua língua se chamam celtas, na nossa gauleses” – Júlio César em “Relatos Sobre a Guerra Gálica”.
Os dados para conhecimento da história celta, das origens até o seu desaparecimento como civilização individualizada, encontram-se em textos históricos da Antiguidade grega e romana, assim como em contribuições da arqueologia, da antropologia e da linguística. No entanto, grande parte dos dados existentes permanece hipotética, em face da pouca unidade da organização política dos celtas e da existência de documentos originais sobre as primeiras fases de sua história.

Reconhece-se hoje que sua história se estendeu por cerca de dois mil anos, aproximadamente de 1800 a.C. até o final do séc. I d.C., compreendendo cinco períodos principais: o primeiro, de 1800 a 1200 a.C., é o da individualização dos celtas entre os demais grupos indo-europeus, com habitat inicial a sudoeste da Alemanha e depois diversos outros pontos da Europa ocidental e central; o segundo, de 1200 a 750 a.C., é marcado pelas invasões celtas até o sul da França e Espanha, crescente domínio das técnicas do bronze, da agricultura, habitação e cerâmica. O terceiro período, aproximadamente de 725 a 480 a.C., incluindo a chamada era de Hallstratt, traz a implantação do começo da civilização céltica do ferro, que se estende da atual Tchecoslováquia até a Grã-Bretanha, envolvendo a Áustria, o sul da Alemanha, o oeste da França e da Espanha. É a fase em que se consolidam os traços particulares da cultura e da civilização célticas, ao mesmo tempo em que essas absorvem influências decisivas, quer resultantes das invasões cimérias, quer do intercâmbio comercial com os gregos e etruscos no Mediterrâneo. É ainda nesse período, a partir do século V a.C., que os celtas adquirem verdadeira autonomia nacional.

De 480 até a metade do séc. II a.C., o quarto dos grandes períodos de sua história, os celtas expandem-se para leste até a Ucrânia, chegam à Grécia e Ásia Menor, ocupam toda a Gália, boa parte da Itália e da Espanha, indo em grandes vagas humanas para a Grã-Bretanha. É o apogeu conhecido como civilização de La Tène, que se ergue sobre fortes impulsos de crescimento econômico, tendo por protagonista uma aristocracia formada pelo conteúdo com os países mediterrâneos: deixou os traços de sua passagem em ricas sepulturas encontradas na França e na Alemanha, dentro das quais objetos de ouro e cerâmica revelam o adiantamento artesanal e artístico alcançado, bem como a viva influência das culturas grega e etrusca, assimilada, porém, com originalidade.
O último período assinala-se entre o início do séc. II a.C. e o ano 100 d.C.: é a fase de decadência e recuo dos celtas, minados pela desunião de suas tribos e pelo assédio dos exércitos romanos, que acabaram por submetê-los, depois de se apossarem do Piceno, da Gália, da Gália Cisplatina, da Península Balcânica, da Espanha e da Grã-Bretanha, restando apenas a Irlanda como última importante sobrevivência do império celta. No entanto, a sobrevivência cultural se firmara com relevo em diferentes campos, sobretudo no da língua, em que os celtas conseguiram unidade relativamente duradoura e que melhor se pôde estudar com objetividade.

As línguas celtas: Como parte integrante do complexo indo-europeu, intermediado o tronco ítalo-celta, depois cindido no itálico e no celta, as línguas celtas podem ser compreendidas em dois grupos principais: o do celta continental, representado pelo gaulês, que se falou na Europa central e na Ásia Menor antes da era cristã; e o do celta insular, que se reparte em dois subgrupos: o gaélico ou goidélico, a que pertencem o irlandês, o escocês e o manx (dialeto da ilha de Man), e o britônico, formado pelo câmbrico ou galês, o bretão — que chegou ao maciço Armoricano a partir das ilhas Britânicas — e o cósmico, extinto, falado na Cornualha (Cornwall).

Religião: Definir e descrever precisamente a religião dos celtas, também chamada druidismo, não constitui tarefa simples. A escassez das fontes e as dúvidas que pairam sobre o valor de muitas, não autorizam conclusões definitivas. O grande número de povos celtas, desde a Ásia Menor até a Península Ibérica e as ilhas Britânicas, é também um obstáculo ao conhecimento do que lhes é comum e exclusivo. Além disso, a presença dos romanos, principalmente na Gália e na Bretanha, ocasionou grandes transformações na cultura desse povo, particularmente na sua religião, na qual nomes e ritos foram alterados. Também não se pode menosprezar a destruição de documentos causada pelos expurgos impostos pela igreja na Idade Média. Ademais, a natureza dos documentos é muito diversa, variando conforme a tribo de que provêm.

Pelo testemunho de fontes secundárias (informações dos geógrafos gregos), sabe-se algo do ritual do culto dos celtas gauleses, porém nada de sua mitologia. Entretanto, no caso dos celtas da Irlanda, a mitologia não se perdeu inteiramente, em virtude de os documentos serem posteriores ao desaparecimento da primitiva religião. Assim, elementos lendários e épicos constituem as únicas fontes do patrimônio mítico daquela cultura.
Ao que parece, a ideia central do druidismo era de que da união da deusa Mãe-Terra com o deus tribal procedia ao vínculo da tribo com seu território, simbolizando e garantindo a prosperidade da descendência, do gado, da agricultura, bem como o sucesso na guerra.Com o fenômeno das mudanças sociais, com a diferença de status, concentrando- se o poder em mãos de chefes ou grupos, surge a tendência para a adoção de deuses maiores, mas não há registro de um sistema hierárquico, como entre os romanos, os quais, entretanto, identificaram com os nomes de seus deuses principais alguns dos deuses celtas. Coexistia o culto dos animais e da natureza com o dos deuses-heróis, de algum modo identificado com o culto dos ancestrais. As festividades relacionavam- se com as estações, basicamente a do frio e a do calor. O calendário celta se relacionava com a agricultura, destacando-se como festas principais Samhain (1º de novembro) e Beltane (1º de maio). Realizavam em grande escala sacrifícios animais e humanos, utilizando-se, para estes caixões de carvalho nos quais eram queimadas as vítimas.

Arte: Devem-se aos celtas as manifestações mais ricas e mais realizadas da chamada “arte bárbara”. Trata-se principalmente de objetos pequenos e de uso cotidiano. Os celtas eram, nesse sentido, acentuadamente práticos, não separando utilidade e beleza. Via de regra, desenvolveram acima de tudo uma arte do metal, predominantemente do bronze e do ouro, mas também da prata. Nesse campo, orientavam-se por três finalidades prioritárias: a militar (todo armamento dos guerreiros: espadas, carros, punhais, pontas de lança, capacetes, escudos), a doméstica (envolvendo um sem número de recipientes para servir comida, bebida, etc.) e a do adorno pessoal, reunindo joias e adereços de toda espécie, como colares, brincos, braceletes, fivelas, cintos, anéis e ainda peças de toucador, como espelhos espelhos e navalhas.

2 – Relatos de Júlio César sobre os Gauleses

Segue abaixo parte de um texto escrito por Júlio César (retirado de “Comentários Sobre a Guerra Gálica”) onde o autor relata de forma direta como era a sociedade gaulesa vista por ele durante suas incursões. Isto pode ajudar a melhor entender esta misteriosa e curiosa civilização:
(...) Dois são em toda Gália os gêneros de homens, que são tidos em alguma conta e estimação. (...) Mas destes dois gêneros um é o dos druidas, o outro, o dos cavaleiros. Aqueles que entendem nas coisas sagradas, cuidam dos sacrifícios públicos e particulares, e explicam as doutrinas e cerimônias da religião: a eles acode grande número de adolescentes com o fim de instruir-se, e esses são tidos em muita estimação. Pois os druidas decidem de quase todas as contendas públicas e particulares; e, se comete-se crime, ou perpetra morte, se disputa-se sobre herança, ou limites, julgam e estabelecem recompensas e castigos; se algum particular ou povo recusa sujeitar-se à decisão, lançam-lhe interdito na participação aos sacrifícios; o que é entre eles pena gravíssima. Os que assim incorrem no interdito, são tidos por ímpios e celerados, todos se apartam deles, fogem do seu acesso e conversação, para que não recebam dano com a comunicação, nem se lhes faz justiça, quando a solicitem, nem participam de honra alguma. A todos estes druidas porém preside um, que exerce a suprema autoridade. Morto este, ou lhe sucede o que sobressai em dignidade, ou se há muitos iguais na hierarquia, é eleito pelo sufrágio dos druidas: algumas vezes também disputam a preeminência pelas armas. Estes, em certo tempo do ano juntam-se em lugar consagrado nas fronteiras dos Carnutes, que se reputam no centro de toda a Gália. Para aqui se dirigem todos os que têm pleitos, e sujeitam-se às suas decisões e sentenças. Supõe-se haver sido esta doutrina deparada na Bretanha, e dali transmitida à Gália; e ainda agora os que desejam estudá-la fundamentalmente, lá vão as mais das vezes aprendê-la.

Costumam os druidas abster-se da guerra, e não pagam os tributos a que estão sujeitos os mais Gauleses; gozam da isenção da milícia e da imunidade de todos os encargos. Excitados por tais vantagens, muitos são os que os procuram para instruir-se na sua ciência, seja por livre vontade, seja mandados por seus pais e parentes. É fama que aprendem aí grande número de versos (e alguns há que gastam vinte anos neste estudo); mas não se permite escrevê-los, sendo que em tudo mais, ou se trate de negócio público, ou particular, usam de caracteres gregos. Parece-me que assim o instruíram por duas razões: a primeira, evitarem que a sua doutrina se espalhe pelo vulgo; segunda, não deixarem os que a prendem, de cultivar a memória, fiados nos escritos; pois acontece ordinariamente, que com o socorro destes omitem muitos o cuidado de decorar, e o cultivo da memória. Fazem sobretudo acreditar que as almas não perecem, mas passam, depois da morte, de uns para outros corpos, e com isso julgam incitar-se principalmente ao valor, desprezando o medo da morte. Discorrem também muito sobre os astros e seu movimento, sobre a grandeza do mundo e a da terra, sobre a natureza das coisas, sobre a força e poder dos deuses imortais e transmitem os discursos à mocidade.
Outro gênero é o dos cavaleiros. Estes, quando é necessário, e ocorre alguma guerra (o que antes da chegada de César quase todos os anos costumava a suceder, ou para empreenderem correrias, ou para repelirem as dos vizinhos), vão todos à guerra, e como cada um mais sobressai em nobreza e haveres, tanto mais guarda-costas e clientes têm em torno de si. Nisto fazem consistir todo seu crédito e poder.

Toda a nação dos Gauleses é mui dada a superstições e por isso os que são acometidos de enfermidades graves, andam nas batalhas, e correm perigo, ou imolam vítimas humanas, ou prometem imolá-las; pois, a não se dar vida de homem por vida de homem, não julgam placável o poder dos deuses imortais; e estatuem sacrifícios públicos deste gênero. Alguns há que forma simulacros de descomunal grandeza, cujos membros tecidos com vime enchem de homens vivos, e aos quais lançado fogo, expiram homens abrasados pelas chamas. Reputam mais agradáveis à divindade os sacrifícios dos que são surpreendidos em furto, roubou, ou algum delito, mas, a falta destes, descem também aos sacrifícios dos inocentes.
Adoram principalmente ao Deus Mercúrio. Muitos são simulacros, que dele possuem: consideram-no como inventor de todas as artes, o guia dos caminhos e jornadas, o maior protetor no ganho de dinheiro e no comércio. Veneram depois dele a Apolo, Marte, Júpiter, Minerva. Destes têm quase a mesma opinião, que as mais nações: isto é, que Apolo expele as doenças, Minerva transmite os princípios dos artefatos, Júpiter tem o império dos céus, Marte preside à guerra. A este, quando se propõem pelejar, votam as mais das vezes o que hão de tomar na guerra; imolam, depois de vencerem, os animais tomados, e depositam os mais objetos da presa num lugar. É de ver em muitas cidades montões destes objetos acumulados em lugares consagrados; e quase nunca acontece em si o que tomou, ou tirar o que foi depositado, sendo que gravíssimo suplício com torturas está reservado a este crime.

Todos os Gauleses se apregoam descendentes de Dite (Plutão), segundo lhes é transmitido pelos druidas. Por isso calculam a divisão do tempo, não pelo número dos dias, mas pelo das noites e contam-se os dias natalícios, e os princípios de meses e anos de modo que o dia vem sempre depois da noite. Nos mais usos da vida quase que só diferem dos outros povos em não consentir que seus filhos se aproximem deles em público, senão quando têm crescido a ponto de poder suportar o encargo da milícia, pois reputam indecoroso que o filho de idade pueril esteja em público na presença do pai.
Ao dinheiro que, a título de dote, trazem as mulheres com que casam, juntam os maridos, feita a estimação, outro tanto de seus bens com os dotes. De todo este dinheiro faz-se um assento conjuntamente, e vai-se acumulando o rendimento. Àquele dos dois cônjuges que sobrevivem, pertence à parte de um e outro com o rendimento de todo o tempo decorrido até então. Os homens têm, na qualidade de maridos, direito de vida e morte sobre suas mulheres, assim como na de pais, sobre seus filhos; quando morre algum pai de família de ilustre linhagem, reúnem-se os parentes do morto, e se há suspeita sobre a morte, põem as suas mulheres a tormento dos escravos, e se se descobre que existe crime, fazem-nas perecer pelo fogo com todo gênero de torturas. Os funerais dos Gauleses são proporcionalmente a seu estado de cultura magníficos e suntuosos; todos os objetos, que amaram em vida, compreendidos os animais, são lhes lançados na fogueira; e pouco antes deste tempo os escravos e clientes, que constava lhes haverem sido caros, eram igualmente queimados nos funerais.

As cidades que passam por melhor reger-se, têm estabelecido nas leis, que se alguém souber da parte dos povos vizinhos por boato ou fama alguma coisa que interesse à república, o participe ao magistrado, sem comunicá-lo a qualquer outro; pois tem-se reconhecido que homens imprudentes e sem experiência se deixam aterrar por falsos rumores, e impelir ao crime tomando resoluções precipitadas sobre negócios da maior importância. Os magistrados ocultam o que parece reservado, e comunicam à multidão o que reputam conveniente. Dos negócios de Estado não é permitido falar, senão em pública assembleia.


3 – Costumes religiosos dos celtas

3.1 - O culto do carvalho

Na história religiosa da raça ariana na Europa, o culto das árvores teve um papel importante. Nada podia ser mais natural, pois, no alvorecer da história, a Europa estava coberta de imensas florestas primevas, onde as clareiras esparsas devem ter parecido pequenas ilhas num oceano verde.

Entre os celtas, o culto do carvalho pelos druidas é conhecido de todos, e a palavra antiga que usavam para santuário parece ser idêntica, na sua origem, ao latim nemus (“bosque”) que ainda sobrevive no nome de Nemi.

(...) Ao passarmos do sul para o centro da Europa, continuamos a encontrar o grande deus do carvalho e do trovão entre os árias bárbaros que viviam nas florestas primevas. Assim, entre os celtas da Gália, nada havia de mais sagrado para os druidas do que o visco e o carvalho no qual este crescia: escolhiam os bosques dessa árvore como cenário de suas celebrações solenes e nenhum dos ritos era celebrado sem as suas folhas. “Os celtas”, diz um autor grego, “adoram Zeus, e a imagem celta de Zeus é um alto carvalho”.

3.2 - Veneração do visco

Desde os tempos imemoriais, o visco era objeto de veneração supersticiosa na Europa. Foi cultuado pelos druidas, como nos diz um trecho de Plínio. Depois de enumerar os diferentes tipos de visco, ele prossegue: “Ao tratar o assunto, a admiração que se tem pelo visco em toda a Gália não deve passar despercebida. Os druidas, pois é assim que os gauleses chamam seus magos, não consideram nada mais sagrado que o visco e a árvore na qual ele cresce, desde que essa árvore seja um carvalho. Mas, à parte isso, eles sempre escolhem bosques de carvalhos para seus bosques sagrados e não realizam nenhum rito sagrado sem as folhas dessa árvore; de modo que o próprio nome de druidas pode ser considerado como um nome grego derivado de seu culto do carvalho. Eles acreditam que tudo o que cresce nessas árvores é proveniente do céu e constitui sinal de que a árvore foi escolhida pelo próprio deus. O visco é encontrado raramente; mas quando o encontram, colhem-no com solenidade. E o fazem, sobretudo no sexto dia da lua, do qual datam o início de seus meses, de seus anos e de seu cilho de trinta anos, porque, no sexto dia, a lua tem muito vigor e não percorreu ainda metade de seu curso. Depois dos devidos preparativos para um sacrifício e uma festa sob a árvore, eles a saúdam como um remédio universal e levam ao local dois touros brancos cujos chifres nunca foram aparados. Um sacerdote vestido de branco sobe na árvore e, com uma foice de ouro, corta o visco, que é colhido numa toalha branca. Em seguida sacrificam as vítimas, orando para que Deus possa fazer prosperar seus escolhidos. Acreditam que uma poção preparada com o cisco fará com que os animais estéreis reproduzam e que a plante é remédio que vale contra todos os venenos. Uma parte tão grande da religião dos homens é habitualmente dedicada a essas insignificâncias” .
Num outro trecho, Plínio nos diz que o visco que cresce num carvalho era considerado o mais eficaz na medicina e que sua eficácia era tida, por pessoas supersticiosas, como maior se a planta fosse colhida no primeiro dia da lua sem o uso de ferro e se, ao ser colhida, não tocasse a terra. O visco do carvalho assim obtido era considerado como um remédio para a epilepsia; se fosse sempre levado pelas mulheres, ajudava-as a conceber; curava ulcerações com grande eficiência, se o enfermo mastigasse um pedaço da planta e colocasse outro sobre a ferida. Plínio diz ainda que o visco era considerado, como o vinagre e o ovo, um meio excelente para extinguir o fogo.

3.3 - Sacrifícios humanos e as festas dos fogos

Os costumes populares relacionados com as festas dos fogos da Europa, há certas características que parecem indicar uma prática anterior de sacrifício humano. Pessoas vivas agiram, com frequência, como representantes do espírito das árvores e do espírito dos grãos, e foram imoladas como tais. Não há razão, portanto, para que não tenham sido queimadas, se fosse possível obter vantagens especiais levando-as à morte dessa maneira.
Dos sacrifícios humanos oferecidos nessas ocasiões, os traços mais claros são os que, há cerca de cem anos, ainda perduravam nas fogueiras de Beltane nas Highlands da Escócia, isto é, entre um povo celta que, localizado numa região remota da Europa e quase totalmente isolado de influências externas, conservara até então o seu velho paganismo, melhor talvez do que qualquer outro povo da Europa ocidental. É significativo, portanto, que os sacrifícios humanos pelo fogo — dos quais há provas indiscutíveis — tenham sido praticados sistematicamente pelos celtas. A mais antiga descrição desses sacrifícios nos foi deixada por Júlio César. As linhas principais do costume parecem ter sido as seguintes. Criminosos condenados eram escolhidos pelos celtas para serem sacrificados aos deuses nas grandes festas realizadas a cada cinco anos. Quanto maior o número dessas vítimas, maior se acreditava que seria a fertilidade da terra. Se não houvesse quantidade suficiente de criminosos, prisioneiros de guerra eram imolados para compensar a deficiência. Quando chegava o momento, as vítimas eram sacrificadas pelos druidas. Algumas eram mortas a flechadas, outras empaladas, e outras ainda queimadas vivas da forma descrita a seguir. Imagens colossais feitas de vime ou de madeira e folhagem eram construídas, e, no seu interior, eram colocadas pessoas vivas e animais de várias espécies. O fogo era então ateado às imagens, e estas queimavam-se com seu conteúdo vivo.

Essas eram as grandes festas realizadas a cada cinco anos. Mas, além dessas festas quinquenais, celebradas em grande escala e com um tão grande desperdício de vidas humanas, parece lógico supor que festas do mesmo tipo, mas de menor escala, fossem realizadas anualmente e que delas descendem linearmente pelo menos algumas das festas dos fogos que, com seus vestígios de sacrifícios humanos, ainda são celebradas a cada ano em muitas partes da Europa. As imagens gigantescas construídas de vimeiros ou cobertas com capim nas quais druidas encerravam suas vítimas nos lembram a moldura de folhas na qual o representante humano do espírito das árvores ainda é, com frequência, enquadrado. Portanto, observando que a fertilidade da terra estava aparentemente na dependência da realização adequada desses sacrifícios, podemos interpretar as vítimas celtas, encerradas em vimeiros e folhagem, como representantes do espírito das árvores ou espírito da vegetação.
Ao que parece, os ritos sacrificais dos celtas da antiga Gália podem ser rastreados nas festas populares da Europa moderna. É na França, naturalmente, ou melhor, na ampla área compreendida pelos limites da antiga Gália, que tais ritos deixaram vestígios mais claros nos costumes de queimar gigantes feitos de vime e animais encerrados em estruturas ou cestos de vime. Esses costumes manifestam-se geralmente no solstício de verão ou mais ou menos nessa época. Disso podemos deduzir que os ritos originais dos quais são sucessores degenerados eram celebrados no solstício de verão. Essa dedução harmoniza-se com a conclusão, sugerida pelo exame geral dos costumes folk europeus, de que a Festa do Solstício deve, de um modo geral, ter sido a mais difundida e a mais solene de todas as festas anuais celebradas pelos primitivos arianos na Europa. Devemos ter presente, ao mesmo tempo, que, entre os celtas britânicos, as principais festas dos fogos foram, sem dúvida, a de Beltane (1º de Maio) e a de Hallowe’en (último dia de Outubro), o que levanta uma dúvida sobre se os celtas da Gália também não teriam celebrado os seus principais ritos do fogo, inclusive os que incluíam a queima sacrificial de seres humanos e de animais do início de maio ou no início de Novembro, e não no solstício de verão.


3.4 - Festas do Solstício de Verão

Em toda a Europa os camponeses têm, desde tempos imemoriais, o costume de acender fogueiras em certos dias do ano e dançar e saltar à volta delas. Costumes desse tipo podem remontar, segundo as evidências históricas, à Idade Média, e sua analogia com costumes semelhantes observados na Antiguidade contribui, com forte ocorrência interna, para provar que sua origem deve ser procurada num período muito anterior ao cristianismo. Na verdade, a mais antiga prova de sua ocorrência no norte da Europa nos é proporcionada pelas tentativas feitas pelos sínodos cristãos, no século VIII, para acabar com esses costumes, sob a alegação de que eram ritos pagãos. Não é raro que sejam queimadas efígies nessas fogueiras, ou que se finja nelas queimas umas pessoas vivas; há razões para acreditarmos que, antigamente, seres humanos eram realmente queimados nessas ocasiões.
Nas Highlands da Escócia, no País de Gales e na Irlanda, as fogueiras, conhecidas como fogos de Beltane, eram acesas antigamente com grande solenidade a 1º de Maio, e os vestígios de sacrifícios humanos eram, nesse caso, particularmente claros e inequívocos. O costume de acender fogueiras perdurou em vários lugares até o século XVIII, e as descrições da cerimônia, por autores da época, apresentam um quadro curiosos e interessante do antigo paganismo que sobreviveu na Inglaterra. John Ramsay relata: “Mas a maior das festas druídicas é a de Beltane, ou 1º de Maio, que era recentemente realizada em certas partes das Highlands com cerimônias extraordinárias. Nos últimos anos, a ela comparecem principalmente os jovens, pois as pessoas de idade mais avançada consideram-na incompatível com sua gravidade. Não obstante, várias circunstâncias relativas a essa festa podem ser recolhidas da tradição ou da conversação com pessoas bastante idosas que testemunharam essa festa em sua juventude, quando os ritos antigos eram melhor respeitados.

A festa é chamada em gaélico Beal-tene, isto é, o fogo de Bel (...) Como outros cultos públicos dos druidas, a festa de Beltane parece ter sido realizada em montes ou lugares elevados. Parecia-lhes degradante para aquele cujo templo é o universo supor que habitasse em qualquer casa feita por mãos humanas. Os sacrifícios que se lhe faziam eram, portanto, oferecidos ao ar livre, frequentemente no alto das colinas, onde eram presenteados com as mais deslumbrantes vistas da natureza e onde estavam mais próximos da sede do calor e da ordem. E, de acordo com a tradição, era essa a maneira de celebrar a festa de Beltane nas Highlands nos últimos cem anos. Mas, desde o declínio da superstição, ela vem sendo promovida pelos moradores de cada aldeia em algum morro ou elevação em torno da qual um assento de relva era preparado para os espectadores. No meio era colocada uma pilha de lenha ou outro combustível, que antigamente acendiam com o tein-eigin — isto é, o fogo forçado, ou o fogo obtido pelo atrito de madeira seca (need-fire) e ao qual se atribuíam propriedades mágicas. O processo do fogo forçado era o seguinte: “Na noite anterior, todos os fogos da região eram cuidadosamente apagados, e, na manhã seguinte, o material para acender esse fogo sagrado era preparado. O método mais primitivo parece ser o usado nas ilhas Skye, Mull e Tiree. Buscava-se um pedaço bem velho de carvalho, no meio do qual era aberto um buraco, ao qual se aplicava então uma espécie de verruma da mesma madeira. Em certas regiões, porém, o mecanismo era diferente. Usavam uma trama de madeira verde, de forma quadrada, no centro da qual havia um eixo. Em alguns lugares, era preciso três vezes três pessoas, e, em outros, três vezes nove, se sucedessem, em turnos, para rodar o eixo ou verruma. Se alguma dessas pessoas era culpada de assassinato, adultério, roubo ou outro crime, imaginava-se que o fogo não se acenderia, ou que não estaria revestido de suas virtudes habituais. Assim que surgiam fagulhas devido ao atrito violento, aplicavam-lhes uma espécie de agárico que cresce nas bétulas velhas e é muito inflamável. O fogo assim obtido tinha a aparência de vir diretamente do céu, e muitas eram as virtudes a ele atribuídas. Acreditavam que ele era uma proteção contra feitiçaria e um excelente remédio para doenças malignas, tanto no homem como nos animais; também se supunha que ele fosse capaz de modificar a natureza dos mais fortes venenos.

Depois de acesa a fogueira com o tein-eigin, preparavam-se as comidas. E, tão logo terminavam a refeição, os presentes se divertiam algum tempo cantando e dançando em torno do fogo. Ao final do entretenimento, a pessoa que oficiava como mestre-de-cerimônias apresentava um grande bolo feito de ovos e recortado nas bordas, chamado am bonnach beal-tine, ou seja, o bolo de Beltane. Era dividido em vários pedaços e distribuído aos presentes solenemente. A pessoa a quem cabia um determinado pedaço era chamada de cailleach beal-tine, isto é, o carline de Beltane, termo muito pejorativo. Quando se descobria a quem coubera tal pedaço, o resto dos presentes agarrava essa pessoa e fingia que ia atirá-la à fogueira, mas outros se opunham, e ela era salva. Em alguns lugares essa pessoa era deitada no chão, como se fossem esquartejá-la. Depois, atiravam-lhe cascas de ovos e continuavam a chamá-la pelo odioso epíteto durante todo o ano. E, enquanto a recordação da festa ainda perdurava na memória das pessoas, fingiam falar do cailleach beal-tine como se estivesse morto”. (...)

Entre os antepassados pagãos dos povos europeus, a festa dos fogos mais generalizada e popular do ano era a grande comemoração da véspera do Solstício de Verão, ou do dia do Solstício, à qual correspondia a festa dos fogos do Solstício de Inverno. Entre os povos celtas de Land’s End, na Cornualha, por outro lado, as principais festas dos fogos eram as do 1º de Maio ou de Beltane, e do Hallowe’en. Essas duas datas marcam a época em que os pastores levam o gado para pastar e em que com a aproximação do inverno, levam-no novamente de volta para os currais. A divisão celta do ano em duas metades marcadas pelo início de maio e pelo início de novembro data assim de uma época na qual os celtas eram principalmente um povo pastoril que, para sua subsistência, dependia de seus rebanhos, e na qual, por essa razão, as grandes épocas do ano eram os dias nos quais o gado partia de suas fazendas no princípio do verão e aqueles em que para elas voltava novamente no princípio do inverno. (...)

Das duas festas, o Hallowe’en talvez fosse a mais importante, já que os celtas parecem ter datado o início do ano a partir dela, e não a partir da festa de Beltane. Na ilha de Man, um dos redutos em que a língua e o folclore celtas mais resistiram ao sítio dos invasores saxões, o 1º de novembro (calendário antigo) era considerado como o dia do Ano-Novo, até épocas recentes. Assim, os mascarados de Man costumavam sair às ruas na festa de Hallowe’en cantando, na linguagem de Man, uma espécie de canção de Hogmanay (Ano-Novo) que começava assim: “Hoje é a noite do Ano-Novo, Hogunnaa!”. Um dos informantes de Sir John Rhys, um velho de setenta anos da ilha de Man, “havia sido empregado de fazenda desde os dezesseis anos até os vinte e seis, com o mesmo patrão, perto de Regaby, na paróquia de Andreas, e lembra-se de que seu patrão e um vizinho próximo discutiam a expressão dia do Ano-Novo aplicada ao 1º de novembro e explicaram aos jovens que sempre fora assim antigamente. De fato, parecia-lhe bastante natural que assim fosse, já que todos os contratos de ocupação de terra terminam naquela época e todos os empregados começam o seu serviço também nessa época”.

Nas regiões celtas, o Hallowe’en parece ter sido a grande época do ano para se prever o futuro. Todos os tipos de adivinhações eram postos em prática naquela noite. Dathi, rei da Irlanda no século V, estando no monte dos Druidas (Cnoc-nan-druad) , no condado de Sligo, durante a festa de Hallowe’en, mandou que seu druida lhe previsse o futuro, entre aquele dia e o próximo dia de Hallowe’en. O druida passou a noite no alto de uma colina e, na manhã seguinte, fez uma previsão ao rei que se tornou realidade. No País de Gales a festa do Hallowe’en era a mais estranha de todas as Teir Nos Ysbrydion, ou Três Noites dos Espíritos, quando o vento, “soprando sobre os pés dos cadáveres”, levava suspiros às casas dos que deviam morrer naquele ano. Acreditava-se que, se, naquela noite, alguém saísse até uma encruzilhada e escutasse o vento, ficaria sabendo das coisas mais importantes que deveriam acontecer nos próximos doze meses.

4 – A arte celta

Para examinar a arte dos celtas é necessário retroceder até à segunda idade do ferro, ou seja, à época chamada de “La Tène”, cerca de 500 a.C.; por seu turno, a arte dos celtas nos leva a um período de se alonga desde cerca de 700 a.C. até o último século do Império Romano do Ocidente, quando se afirma uma outra arte já completamente medieval e que se costuma designar “arte bárbara”.

Celtas e nômades da Ásia têm de comum o gosto pelas formas que criam a ilusão de movimento. De feição puramente decorativa, a arte de “La Tène” exclui a concretização naturalista da forma e, baseando-se nas combinações de linhas espirais, foge a qualquer eixo de simetria; vai direta à sensibilidade física e dir-se-ia que o seu fim é impor um ritmo; não é apenas um espetáculo para o contemplador, mas exige dele uma espécie de participação.
Quanto à arte das estepes, ao mesmo tempo que o céltico da “La Tène”, vai influir em toda a arte do metal do Centro e Ocidente da Europa, influência que se exerce também numa área vastíssima que se estende desde os Cárpatos até o coração da Ásia (a sua penetração na China foi artisticamente decisiva sob vários aspectos). É uma arte que procura manter-se no próprio limite exato em que as formas naturais deixam de ser reconhecíveis. Mas estas estilizações de formas são combinadas em estruturas lineares dominadas pela curva e torções numa contínua transformação de umas formas nas outras. Assim é obtida uma rítmica tão musical como a que nos sugerem as combinações próprias da arte decorativa céltica.

Os celtas, na fase a que chamamos a segunda idade do ferro, ou período de “La Tène” (do nome de um lugar nas margens do lago de Neuchâtel, na Suíça), entre os séculos V e IV a.C., ocupavam já há muito tempo o Centro e Oeste da Europa. Essa arte de “La Tène” em breve se espalhou desde o Mosa até o Marne, e pelas duas margens do Reno, para se estender depois a toda atual França e penetrar no Noroeste da Península Ibérica; século III ao I a.C. introduzir-se- ia na Grã-Bretanha e Irlanda. Mas já desde meados do século IV a.C. houvera uma grande expansão céltica para sul e para oriente.

Convém saber os caminhos destas grandes migrações, que, segundo Tito Lívio, partiram da Gália, onde se tinham confederado as tribos celtas chefiadas por Ambicatus, rei dos bitúriges (ou seja, de Burges), o qual confiou aos seus sobrinhos Sigoveso e Beloveso, no dizer do historiador romano, partiu para a Itália e, abatendo os etruscos, chegou a Roma, enquanto Sigoveso, pelo vale do Danúbio, se dirigia à Hungria e aos Balcãs, até ser detido na Galácia (Ásia Menor).

Na realidade, foram deslocações diferentes de dois grupos do mesmo povo, que desde o ano de 500 a.C. se tinha revelado tão movediço (houve nova penetração céltica na Espanha durante o século V a.C. e a invasão da Grã-Bretanha pelos bretões sucedeu entre 323 e 321).
A conquista de Roma (ficaram célebres o cerco do Capitólio e a dura frase de Breno: Vae victis!) deu-se em 381 a.C., ao passo que a invasão da Trácia e da Macedônia foi realizada muito mais tarde. Lembremos que os gauleses efetuaram o saque do santuário de Delfos entre os anos 279 e 278, antes de se transferirem para a Ásia Menor.

Pelos fins do século III a.C., os povos célticos estendiam-se, pois, desde a Galiza e a Gália até à Galácia; porém, não tardariam muito as campanhas militares romanas que, a seguir à destruição de Cartago, conteriam a expansão dos celtas os subjugariam, arruinando sua cultura. Mas, desde as grandes invasões, a arte de “La Tène” ressurge, libertada das influências clássicas.

A arte céltica do período de “La Tène” manifesta aspectos variados. São notáveis as vasilhas metálicas, de grande elegância de formas, com decoração incrustada e asas de corpo de quadrúpede, além das suas armas características, o punhal e a espada. Os gauleses e os celtas da Grã-Bretanha usavam escudos de madeira chapeados de ferro e com adornos de bronze e capacetes pontiagudos ou redondos, de uma grande variedade.
Os adereços pessoais mais característicos sãos os braceletes, as axorcas, as fíbulas (frequentemente em forma de meia-lua, como as mais antigas lúnulas irlandesas) e os típicos colares usados pelos homens e que se chamavam “torques”.

A ornamentação repuxada denota muitas vezes uma imaginação sutil, como muito bem se pode apreciar numa das peças de maior fama da arte céltica, o “caldeiro de Gandestrup”, descoberto na Dinamarca, para onde teria sido levado durante o século II ou I a.C. Esta época, em que toda a arte céltica sofreu uma rápida evolução, está bem representada em numerosos espólios de túmulos encontrados nas margens do Reno médio e na Borgonha.
Há várias fases na evolução da arte decorativa dos celtas. Já desde o século IV a.C. que se desenvolvia o segundo estilo de “La Tène”, o qual se caracteriza por um notável
aumento da abstração curvilínea. Nos meados do século seguinte, na Suíça e na Hungria, aparecerá um terceiro estilo, caracterizado por arabescos de motivos vegetais combinados com alusivas esquematizações zoomórficas. Na Grã-Bretanha, tais arabescos alcançarão durante o quarto estilo (ou seja, desde o século I a.C.) um alto grau de esplendor. Então os ornatos, de inspiração naturalista, num enlace harmonioso de curvas, volutas e círculos, evidenciam-se pelo seu forte relevo, que lhes aumenta a importância plástica. Citemos, entre os exemplares famosos pertences a esta fase (todos eles atualmente no Museu Britânico), o escudo de Wandsworth, o de Battersea, encontrado no Tâmisa e decorado com botões esmaltados, o espelho de bronze de Desborough, em cujo reverso está finamente gravado um harmonioso desenho de folhagem enrolada.

Na França, especialmente no Sul, na Provença, os celtas deixaram os exemplares mais representativos da sua arquitetura e da sua escultura, artes que contrastam, pelo caráter rudimentar, com a finura e a originalidade que encontramos na ornamentação do metal.
As suas povoações pertenciam ao tipo de oppidum, ou pequena cidade fortificada de que César nos fala no De Bello Gallico, cujas muralhas de pedra eram reforçadas com paliçadas de madeira. Quanto aos santuários, os que se encontraram em Roquespertuse, Autremont, Sant-Rémy (foz do Ródano) e Ollioules (departamento do Var) são do gênero do heróon grego, ou sepulcro em honra de um herói. A escultura, de pedra calcária, é, em geral, expressiva, ainda que tosca. Não obstante, há alguns exemplares extraordinários que costumam ser incluídos na chamada arte celto-lígure, de provável influência etrusca, assim, temos o monstro antropófago chamado Tarasca de Noves (no Museu Calvet, de Avignon), sentado e apoiando as patas dianteiras nas cabeças barbudas das vítimas que decapitara, ou o deus sentado, hoje sem cabeça, procedente de Roquepertuse (Museu de Marselha), ou, no centro da antiga Gália, a estatueta chamada Dieu de Bouray (encontrada perto de Ferté-Alais), que representa um personagem nu, sentado e com o torque no pescoço (Museu de Sant-Germain- en-Laye). As moedas, de influência grega nas regiões do Sul, são também merecedoras de interesse.

É difícil encontrar os motivos por que um grupo étnico tão importante como o dos celtas nos deixou, à parte os seus artefatos decorados, tão poucas obras de arte.
A literatura celta — A arte literária céltica está dividida em quatro: as literaturas em gaélico da Irlanda, em gaélico da Escócia, em galês e em bretão são das mais antigas da Europa; têm origens pré-cristãs. Levam hoje existência precária, com exceção da literatura do País de Gales. Em dois momentos históricos exerceram influência profunda sobre todas as outras literaturas europeias: na Idade Média, pela difusão das lendas do rei Artur, da Távola Redonda e da procura do Santo Graal; no séc. XVIII, pelo sucesso fulminante das poesias atribuídas a Ossian, sucesso do qual dá testemunho, até hoje, a frequência dos prenomes Oscar e Selma, que ocorrem naquelas poesias.

Nas origens semimísticas do gaélico da Irlanda existem numerosos fragmentos de canções épicas pré-cristãs, atribuídas a bardos de existência mais ou menos histórica. Esses fragmentos foram nos sécs. XI a XIV reunidos em várias coleções de lendas, genealogias fantásticas etc. As canções lembram, de longe, as sagas islandesas da época pagã e, como nestas, as lendas incluem muito material semi-histórico. Os fragmentos formam ciclos em torno de famosos personagens lendários como Cuchulainn e Deirdre, que reaparecerão no séc. XX em obras de escritores irlandeses de expressão inglesa, como Yeats e Synge. A cristianização da Irlanda foi iniciada no séc. V por São Patrício (Patrick), ao qual se atribuem alguns hinos em língua gaélica, assim como ao maior dos monges irlandeses, são Columba. Em mosteiros como Bangos, Iona, Lindisfarne e outros, desenvolveu- se uma igreja semi-independente de Roma, governada por abades em vez de bispos, e de alto nível cultural. São Columba e outros monges itinerantes difundiram essa cultura no continente europeu, fundando em Luxeuil, St. Gallen, Bobbio etc. conventos famosos pela abertura das florestas virgens e pelo culto das letras clássicas. A literatura dos monges irlandeses é escrita principalmente em latim. Na Irlanda, o paganismo sobreviveu em simbiose com o cristianismo, manifestando- se nas “visões”, relatos de viagens fantásticas para remotas ilhas de felicidade, meio paraíso erótico e meio paraíso cristão. As canções populares dessa época são francamente eróticas.

A partir da conquista da Irlanda pelos Ingleses, no séc. XII, os bardos relatam os feitos heroicos das grandes famílias a que pertencem: agora já se trata de personagens históricos, alguns de notáveis talento poético, como Donough Mór O’Daly ou Tadhg Óg O’Higgin. Intensificam- se as relações com o continente europeu e aparecem versões gaélicas do ciclo de Tróia, do ciclo de Alexandre Magno, mas também de lendas especificamente célticas: as lendas do rei Artur e Távola Redonda e do Santo Graal. São numerosas as biografias de santos e os anais, como os do mosteiro de Innisfalle e outros.
No País de Gales a literatura celta é a única que sobrevive até hoje. Mas é também aquela da qual subsistem as mais antigas poesias de valor indubitável. No séc. VI d.C., Taliesin, Myrddin e Llywarch Hen são três poetas de expressividade surpreendente, antecipando o lirismo (de outras literaturas européias) da Idade Média. É na literatura galesa que sobrevivem as versões mais antigas das lendas em torno do Rei Artur e dos seus cavaleiros. A fonte é a Historia Britonum, de Geoffrey of Monmouth, que conta a história lendária dos bretões, de Brutus até o séc. VII. A versão poética desse ciclo de lendas é o Mabinogion (Disciplina) , a obra principal da literatura galesa antiga. Em sua forma atual, o livro é do séc. XIV, mas os 11 relatos que o compõem são de origem muito mais antiga. O conteúdo é semi-histórico.

Assim como a literatura escocesa exerceu no séc. XVIII influência decisiva em todas as literaturas europeias, assim na Idade Média a literatura da Bretanha: as lendas do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda e as do Santo Graal formam a Matière de Bretagne, isto é: através da Bretanha chegaram essas lendas à França, e da França espalharam-se na Europa inteira. Mas em língua bretã só subsistem fragmentos dessa “matéria”, que datam do séc. XV.

Bibliografia Consultada:

FRAZER, Sir James George. O Ramo de Ouro. Zahar Editores S.A., Rio de Janeiro, 1982.

CÉZAR, Júlio. Comentários Sobre a Guerra Gálica. Coleção Universidade de Bolso. Ediouro, Rio de Janeiro – RJ.

SALVAT EDITORA DO BRASIL. História da Arte, Tomo 3. São Paulo, 1978.

ENCICLOPÉDIA MIRADOR.