Pesquisar neste blog

A principal fonte dos textos postados aqui é da Internet, meio de informação pública e muita coisa é publicada sem informações de Copyright, fonte, autor etc. Caso algum texto postado ou imagem não tenha sua devida informação ou indicação, será escrito (autoria desconhecida). Caso souberem, por favor, deixe um comentário indicando o ou no texto, ou caso reconheçam algum conteúdo protegido pelas leis de direitos autorais, por favor, avisar para que se possa retirá-lo do blog ou dar-lhe os devidos créditos. Se forem utilizar qualquer texto postado aqui, por favor, deem os devidos créditos aos seus autores. Obrigada!

Abençoados sejam todos!

14 de out. de 2011

Deusa Konohana Sakuya Hime

Envolta em nuvens, eis Konohana Sakuya Hime, divindade residente do Monte Fuji. Na mão direita, leva um espelho, símbolo xintoísta de pureza. A mão esquerda segura um galho de sakaki, árvore sagrada com poderes sobrenaturais. Sakuya Hime enfeita o cabelo com uma graciosa tiara em forma de borboleta. Seu imaculado vestido branco está representado no estilo característico de Hokusai, num drapejado delirante de traços marcados.
Já no nome, a deusa está vinculada com a natureza e, em especial, a fertilidade: Konohana Sakuya Hime significa “Princesa do Florescimento das Árvores”. No Kojiki — obra que narra a teogonia das divindades japonesas, escrita no século VIII —, ela faz sua aparição no capítulo XLI, parindo o filho num castelo consumido pelo fogo.
As areias do tempo passaram e, na era medieval (séculos XIV a XVI), Sakuya Hime passou a ser associada ao Fuji, por meio de tradições folclóricas não registradas nos autos.
Há muito que o Fuji era relacionado com personagens femininas. A Crônica do Monte Fuji (Fugaku ki, c. 877), por exemplo, narra a aparição fantástica de duas mulheres vestidas de branco próximo ao cume, e as Narrativas do cortador de bambu (Taketori monogatari, mesmo período) conclui com a heroína celestial retornando aos céus exatamente sobre o Fuji.
Kaguya Hime era mulher. Além disso, sobreviveu num castelo em chamas. Portanto, era a candidata ideal para habitar o vulcânico Fuji. Sua associação com a fertilidade provavelmente surgiu depois: os agricultores empregavam flores em seus rituais para pedir aos deuses que abençoassem as colheitas. Então, os fazendeiros do sopé do Fuji uniram o útil ao agradável e incluíram Sakuya Hime em suas preces, erigindo santuários em sua honra.
No período Edo, a divindade tornou-se uma das principais figuras do culto ao Monte Fuji, o Fujikô.

fonte do texto e foto: http://cultura-japonesa.blogspot.com/2009/03/konohana-sakuya-hime.html

Deusa Amaterasu

Também conhecida como Ama-Terasu-Oho-Mi-Kami. Deusa do sol, divindade japonesa que vela sobre os homens e os enche de benefícios. Nasceu do olho esquerdo de Izanagi e domina o panteão xintoista, em que figura um certo número de personificações das forças naturais. É representada empunhando um disco solar.
"Amaterasu vivia em uma gruta, em companhia de suas criadas, que lhes teciam cotidianamente um quimono da cor do tempo. Todos os dias de manhã, ela saía para iluminar a Terra. Até o dia em que seu irmão, Susanoo, deus do Oceano jogou um cavalo esfolado nos teares das criadas tecelãs. Assustadas, elas se atropelaram, e uma delas morreu, com seu sexo furado por sua própria lançadeira. A deusa Amaterasu não apreciou a brincadeira: não gostava de cavalo cru. Zangada, recolheu-se em sua gruta e a luz desapareceu. E o pânico foi semeado até no céu, onde viviam os deuses e as deusas, que como os humanos, também não enxergavam nada. Eles se reuniram e bolaram uma estratagema. Pediram a Uzume, a mais engraçada das deusas, que os distraísse diante da gruta fechada em que Amaterasu estava amuada. Uzume não usou de meios termos: levantando a saia, pôs-se a dançar provocantemente, exibindo suas partes íntimas com caretas irresistíveis. Estava tão divertida que os deuses desataram na gargalhada... Curiosa, Amaterasu não aguentou: entreabriu a pedra que fechava a gruta, e os deuses lhe estenderam um espelho onde ela viu uma mulher esplêndida. Surpresa, ela se adiantou. Então os deuses agarraram-na e Amaterasu saiu para sempre de sua gruta. O mundo estava salvo."

fonte do texto e foto: http://cultura-japonesa.blogspot.com/search/label/Deuses

Kinuhime, a Deusa da Seda

Texto: Claudio Seto

Há muitos e muitos anos, havia uma linda jovem chamada Kinu (seda), numa aldeia famosa pelo cultivo da sericultura. Anualmente, na primavera, muitos dekasseguis (trabalhadores temporários) vinham para essa região e trabalhavam no corte dos galhos de amoreiras. Nessa época, a aldeia ficava muito populosa e todos trabalhavam felizes e com grande entusiasmo. Consequentemente, havia muitas festas na região. Os bichos-da-seda alimentavam-se das folhas de amoreiras cortadas e colocadas nos barracões pelos trabalhadores e faziam seus casulos nos galhos.

Quando terminavam os trabalhos de colheita dos casulos, os dekasseguis voltavam para suas províncias de origem e a aldeia voltava a ser pacata e até solitária.

A família de sericultores que acolheram Kinu temporariamente percebeu que, em todos os anos em que ela trabalhou na cultura da seda em suas terras, os casulos eram maiores e mais brancos, sendo considerados pelo comprador da produção melhores que os da China.

No final da temporada daquele ano, os sericultores fizeram grandiosa festa em agradecimento aos dekasseguis pelo trabalho e serviram um delicioso banquete. Durante a festividade, tentaram descobrir de que região do Japão Kinu teria vindo trabalhar, mas foi em vão. Ela nada contou, esquivando-se com respostas educadas. Assim, ninguém ficou sabendo de onde ela veio, nem para onde retornaria após a temporada de trabalho, nem sobre sua família.

Na hora da partida, a família que a acolhera naquele ano pediu encarecidamente que Kinu voltasse no ano seguinte. Ela despediu-se de todos e deixou a aldeia por uma estrada estreita. Para assegurar que ela voltaria na próxima temporada, alguns aldeões a seguiram sorrateiramente no meio da mata.

Porém, poucas horas depois de sair da aldeia, ela desapareceu de repente. O local onde ela desapareceu era na beira de um lago. Os aldeões vasculharam toda margem, mas não a encontraram. Um dos rapazes observou que no lago havia um ovo branco de serpente, fora isso, nada havia de diferente.

Na primavera seguinte, ela não apareceu, apesar de todos a esperarem ansiosamente. Alguns membros daquela família de sericultores viram várias vezes uma serpente branca andando na plantação de amora e no barracão da seda. Apesar de Kinu não ter aparecido, mais uma vez os casulos colhidos naquele ano foram brancos e bonitos.

A família concluiu que aquela serpente branca que eles viram era Kinu. Transformada em serpente, ela estava protegendo os bichos-da-seda contra os ratos.

Assim, fizeram uma estatueta com a forma dela e a colocaram num santuário Shintô (religião originária do Japão) na primavera, para ser reverenciada como deusa da seda. Após a temporada da seda, os aldeões, agradecidos, levam a estatueta até um lago e a colocam num pequeno barco, mandando-a de volta. Ainda hoje, em muitas aldeias de sericultores no Japão, esse ritual é praticado em reverência a Kinuhime, a deusa da seda.

fonte: http://cultura-japonesa.blogspot.com/2008/04/kinuhime-deusa-da-seda.html

A Origem da Estrela-do-Mar

Texto de Claudio Seto

Uma antiga lenda da província de Okinawa conta que, certa ocasião, o deus Estrela Polar e a deusa Cruzeiro do Sul resolveram trazer vida para a terra. Então, quando a deusa Cruzeiro do Sul estava pronta para dar à luz, ela perguntou ao deus Poderoso do Céu onde poderia ter seus bebês.

O deus Poderoso do Céu olhou para a terra e avistou uma pequena ilha chamada Taketomi-jima, onde existia, ao sul, um belo mar de coral. Então, ele disse à deusa Cruzeiro do Sul: – Vá ao lado sul de Taketomi-jima, pois lá existe uma praia com águas mornas e ondas mansas, isso será muito bom para seus bebês.

Assim, a deusa Cruzeiro do Sul desceu da Alta Planície Celeste e dirigiu-se à ilha, conforme sugerira o deus Poderoso do Céu. Lá chegando, deu à luz a várias estrelinhas cintilantes. A deusa estava muito feliz, pois realmente aquela praia tinha a água morna e uma temperatura perfeita para que suas filhas pudessem passar os primeiros anos de suas vidas.

– Assim que crescerem, elas subirão a Alta Planície Celeste para se encontrar comigo e viveremos cintilantes no céu. Disse a deusa retornando ao seu lugar.

Entretanto, o deus Sete Dragões do Mar ficou irritado, porque a deusa Cruzeiro do Sul não lhe pediu permissão e usou a praia para parir seus filhos. Ele então chamou uma das suas serviçais, a dona Serpente Gigante, e ordenou:

– Não admito que ninguém dê à luz em meu oceano sem minha permissão. Vá e devore todos os bebês que encontrar na região sul da ilha.

A dona Serpente Gigante, obediente à ordem de seu amo, engoliu todos os bebês da deusa Cruzeiro do Sul com sua enorme bocarra, matando-os todos. Em seguida, cuspiu seus corpos.

As estrelinhas mortas flutuaram no mar até alcançarem uma praia chamada Higashi Misaki, no lado leste da ilha Taketomi. As estrelinhas, empurradas pelas ondas, pararam na praia e ficaram com o corpo salpicado de areia. Nessa localidade, havia um santuário onde vivia a semideusa Amável. Quando encontrou as estrelinhas sem vida, Amável sentiu muita pena delas e levou-as para o santuário.

- Oh! Pobres estrelinhas, vou colocá-las no incensório. Assim, quando os aldeões vierem me trazer oferendas durante o festival e queimarem os incensos, suas almas poderão subir ao céu junto à fumaça. Lá, na Alta Planície Celeste, poderão reencontrar sua mãe.

Conforme a semideusa Amável planejou, quando chegou o dia do festival, os aldeões queimaram muitos incensos e as almas dos bebês-estrelas subiram ao céu levadas pelas fumaças.

Esta é a origem lendária da estrela-do-mar. Em Taketomi-jima, apesar de séculos terem se passado, ainda hoje é possível encontrar estrelas-do-mar com corpos salpicados de areia nas belas praias que ficam ao sul da ilha de Okinawa. Elas são conhecidas como Hoshi-suna (estrelas de areias), nome que nasceu em referência a esta lenda.

fonte: http://cultura-japonesa.blogspot.com/2008/04/origem-da-estrela-do-mar.html

Deusa Konohana Sakuya Hime

O nome desta Deusa japonesa quer dizer "Senhora que faz as árvores florescerem". Ela é a guardiã de todas as árvores, sobretudo a cerejeira. Escreva um desejo em um papel e amarre-o nos galhos de uma árvore - neste dia, a Deusa das Árvores fará com que seus desejos floresçam e tornem-se realidade.

fonte do texto e foto: http://cultura-japonesa.blogspot.com/2008/04/konohana-sakuya-hime.html

12 de out. de 2011

Pasowee–A Mulher Búfalo

Copyright © Monika von Koss

As Mulheres Búfalo pertencem a uma das sociedades secretas dos Kiowa, uma tribo do Alasca e do Canadá, que viveu na área de Wyoming, antes de seu posterior assentamento em Kansas e Oklahoma. Especialmente associadas com ritual, dança e cura, uma de suas histórias relata a trajetória de Pasowee.

Ainda criança, foi roubada de sua família no meio da escuridão da noite, vivendo por muitos anos em campo estrangeiro. Sentia-se tão saudosa daqueles que havia conhecido, que um dia fugiu para a floresta, escapando apenas para se encontrar perdida em um lugar que não conhecia.

Lá, no fim de um longo dia de fuga, estava diante dela a pele de um búfalo há muito morto, um abrigo para a noite. Escorregando para debaixo da pele, Pasowee adormeceu, quando sonhos estranhos fluíram como águas caudalosas por sua mente. O búfalo havia voltado à vida.

Ele falou com ela em uma língua que ela entendia. Contou-lhe de curas que podiam ser encontradas em seu corpo e como poderiam ser usadas para curar doenças. Contou-lhe que sua pele poderia ser usada como abrigo, do mesmo modo que a tinha mantido quente durante a noite.

Sussurrou-lhe a sabedoria das eras em seus ouvidos adormecidos. E depois, antes do amanhecer, ele lhe contou dos campos repletos das pessoas de quem ela tinha sido roubada muitos anos antes e quais riachos e correntes seguir para chegar até eles novamente.

Quando a luz da manhã abriu seus olhos, ela não esqueceu a noite de sonhos. Sentando por um momento numa colina ali perto, ela observou dois lobos matarem outro búfalo, exatamente como o espírito do búfalo há muito morto havia profetizado. Roendo no búfalo que eles mataram, os dois lobos satisfizeram seus estômagos vazios, como o espírito do búfalo há muito morto havia previsto em seus sonhos.

Confiando então no espírito do búfalo, Pasowee esperou que os lobos tivessem sua parte, depois cortou carne suficiente para ela. Quando a carne estava suficientemente seca para ser comida ao longo do caminho, ela iniciou sua jornada.

Seguindo as águas rápidas descritas pelo búfalo, Pasowee reuniu-se com seu povo. Com alegria eles receberam a mulher que não tinham visto desde a infância e pediram-lhe para contar de seu tempo desde que foi levada. Em resposta silenciosa, Pasowee mostrou um pedaço de pele de búfalo que ela havia carregado consigo. Então ela o secou sobre as pedras que ainda estavam quentes do fogo. Todos observaram Pasowee, que costurava um círculo de pele de búfalo a um círculo de pele de veado, pregando cuidadosamente o casco e o rabo do búfalo a esta bolsa de couro, na qual ela colocou a medicina que lhe foi transmitida no sonho do búfalo.

O milagre da medicina do búfalo trouxe alegria e boa saúde para o povo Kiowa. Mas ainda havia mais sabedoria que o espírito do búfalo tinha dado a Pasowee para ensinar a seu povo. Assim, ela conduziu as jovens mulheres e os jovens homens do campo para a floresta, onde viviam as grandes árvores. Andando em volta de um bosque quatro vezes, eles entraram no bosque e Pasowee escolheu um choupo, em cujo galho mais baixo ela pendurou um pano. As pessoas jovens ficaram no bosque até o sol desaparecer. Ali eles permaneceram toda a noite, sob as estrelas que cintilavam entre as folhas dos galhos mais altos.

Quando a luz da manhã veio, Pasowee enviou os jovens homens para encontrar um búfalo. Cercada pelas mulheres, ela se pôs diante da árvore que tinha o pano, com um machado firme nas mãos. Três vezes ela girou o machado contra a árvore e na quarta, ela começou a cortar. Quando a grande árvore caiu ao chão, ela mostrou às mulheres como pintar o tronco de preto carbono e os galhos de vermelho ocre. Depois, separando os galhos vermelhos dos pretos, as mulheres fizeram o primeiro deodogiada, o primeiro mastro central de um tipi.

Então ela escolheu o lugar onde ficaria o tipi e ensinou às mulheres como amarrar as cordas para que, puxando por elas, o círculo de mulheres fizesse o deodogiada erguer-se tão alto e reto como havia feito na floresta. Em volta do mastro central, as mulheres colocaram mastros menores, 22 ao todo. E perto da base do deodogiada, elas colocaram pequenos galhos vermelhos, apitos, penas, seixos e uma cuba com raspas de cedro, exatamente como Pasowee as instruiu.

O cheiro do cedro queimando recepcionou os jovens homens quando voltaram com o búfalo. Dez sóis haviam passado, quando a pele estava seca e costurada e fixada no lugar. Assim foi que, do espírito do búfalo, Pasowee ensinou ao povo Kiowa como construir suas casas. É por este motivo que Pasowee é lembrada como Mulher Búfalo, Mulher de Medicina, a escolhida pelo espírito do búfalo para ensinar os Kiowa.

Fonte: Ancient Mirrors of Womanhood – Merlin Stone

Monika von Koss em maio de 2009

fonte do texto: http://www.monikavonkoss.com.br/site/indice-de-artigos/95-pasowee-a-mulher-bufalo

O Caldeirão de Ceridwen

Copyright © Monika von Koss

Nas diversas tradições celtas, vamos encontrar o caldeirão em suas várias funções, como propiciador de abundância, imortalidade, regeneração, conhecimento.

Os celtas são integrantes dos povos indo-europeus, originários das grandes estepes da Ásia Central. A partir do período neolítico, vários grupos se deslocaram em levas sucessivas, até ocuparem, no final da Idade do Ferro, todo o oeste europeu, do Rio Reno até o Oceano Atlântico. Nos dias de hoje, o centro da cultura celta se localiza nas ilhas britânicas, desdobrando-se em três ramos: o irlandês, o galês e o bretão. Na tradição galesa, o caldeirão do renascimento é associado com Ceridwen, deusa do grão e da inspiração, a suprema iniciadora e senhora dos mistérios. Nele ela ferve a poção iniciadora, a fonte de todo conhecimento. Em sua função de guardiã da sabedoria, ela pode assumir formas assustadoras, com o propósito de inculcar responsabilidade pelo conhecimento e seus usos.

Relata a lenda que Ceridwen, esposa do nobre Tegid do norte de Gales, tinha uma filha, que era a mulher mais linda do mundo, e um filho terrivelmente feio. Pensando em compensá-lo por sua feiura, Ceridwen usa sua magia para preparar a “poção da inspiração e de toda sabedoria”, no intuito de torná-lo o sábio vidente mais famoso de todos os tempos.

Para tanto, durante o ano ela colhe flores, folhas e ervas, que cozinha em seu caldeirão. Um ano e um dia fervilha a poção no caldeirão mágico de Ceridwen, quando três gotas respingam no dedo do jovem ajudante Gwion, encarregado de manter o fogo aceso. Como reflexo, ele põe o dedo na boca. As três gotas da poção mágica foram suficientes para que diante dele se abrissem passado, presente e futuro, incluindo o conhecimento do perigo que lhe advinha da própria Ceridwen, assim que esta soubesse do ocorrido.

Deixando pra trás o caldeirão fervente, ele fugiu na forma de um coelho, um peixe, um pássaro, mas a deusa-mãe o perseguiu como cachorro, lontra e falcão. Finalmente Gwion se reduz a um grão de trigo, mas é engolido por Ceridwen transformada em galinha preta. Ela engravida e o traz ao mundo como um menino tão bonito, que ela não é capaz de matá-lo. Em vez disto, ela o esconde num saco de couro e o joga ao mar, de onde é pescado pelo nobre Elffin, “o sem sorte”, na véspera de Beltane, de quem recebe o nome de Taliesin.

Mas o de Ceridwen não é o único caldeirão da mitologia celta. Quando chegaram à Irlanda, as tribos da Deusa Dana (os Thuata Dé Danaan), mãe fecunda, geradora divina de todos os deuses irlandeses, trouxeram consigo a religião, a ciência, a profecia, a magia e, principalmente, quatro talismãs, entre eles o caldeirão de Dagda, o Deus Bom. Conhecido por sua abundância, o caldeirão de Dagda incessantemente produz a comida mais requintada e a bebida mais saborosa. Diz-se que ninguém se afasta insatisfeito deste caldeirão inesgotável e benéfico.

Já na tradição bretã, a assimilação do cristianismo trazido pelos romanos transformou o caldeirão no Santo Graal, o cálice capaz de regenerar a terra devastada, desde que o cavalheiro que o encontrasse tivesse um coração puro e fizesse a pergunta apropriada, façanha que coube a Gawain, Cavalheiro da Távola Redonda. A pergunta correta a ser feita era: “A quem deve ser servido este copo?”

Qual seria sua resposta a esta pergunta?

Quais são os ingredientes da poção que você está preparando no seu caldeirão?

fonte do texto: http://www.monikavonkoss.com.br/site/indice-de-artigos/96-o-caldeirao-de-ceridwen

Deusa Escura

Copyright © Monika von Koss

Tentativas sérias de transformação interna não podem ser abordadas ou alcançadas sem o encontro com a deusa escura, a verdade por trás de toda manifestação, uma realidade mais profunda, além de toda forma. Como uma força primordial, ela tem sido ignorada e suprimida, com profundos efeitos negativos, tanto para a humanidade quanto para o planeta Terra.

Compreender a deusa escura nos leva a um equilíbrio sexual e a uma maturidade em todos os níveis de consciência, incluindo aqueles que transcendem o gênero, escreve Caitlín Matthews em Sophia, Goddess of Wisdom.

Na base do conhecimento espiritual, sua imagem continuamente aparece em muitas tradições como a Deusa Velada, a Virgem Negra, a Irmã Renegada, a Viúva Enlutada, a Escura Mulher do Conhecimento. Nossa própria procura pela Deusa começa na escuridão e no desconhecimento. Iniciamos com a sábia ignorância da criança no útero materno, que teme as forças que a fazem nascer para um mundo desconhecido. Mas uma vez fora do útero, o que nos assusta é o confronto com nossas origens, estes tesouros do divino feminino que estão profundamente dentro de nós, esperando para serem descobertos.

Na tradição celta do Mundo Profundo, há dois aspectos da Deusa que são especialmente relevantes e poderosos: a Deusa Luminosa que habita acima e a Deusa Escura que habita abaixo. Elas são as duas faces de uma unidade que, na prática, quando meditamos ou visualizamos, são encontradas muito próximas uma da outra. “Mas elas não são intercambiáveis de um modo fácil, através da arbitragem humana”, nos alerta R.J.Stewart em Earth Light.

A deusa escura é a casa de força que alimenta nossa espiritualidade, mesmo se a desconhecemos. Tememos a deusa escura, porque projetamos nossos temores em qualquer coisa que não conhecemos e que permanece escondido de nós. Mas houve um tempo em que a natureza e a deusa estavam integradas na nossa visão do mundo, antes que surgisse o desprezo pela matéria, por nossos próprios corpos e suas funções. Quando nos aventuramos no caminho que leva a ela, chegamos invariavelmente à deusa das estrelas, a deusa luminosa que é sua outra faceta.

Sua imagem foi afastada por muito tempo, mas agora a encontramos para onde quer que olharmos, pois ela assume a face da natureza, a face do mundo, para nos lembrar de nossa responsabilidade pela criação. Para entrar em contato com a Deusa Negra precisamos seguir o caminho das sensações, contornando o hábito de pensar. Chegamos a ela através do próprio corpo, pois ela é a matéria da qual nossos corpos são feitos.

Os físicos e astrônomos, que exploram a vasta e escura extensão do universo na busca de uma compreensão científica da nossa origem, têm afirmado que a Via Láctea é formada por matéria que reflete a luz, denominada de bariônica (composta de elétrons e prótons), aquela que somos capazes de detectar e conhecer por meio de instrumentos altamente sofisticados e de tecnologia avançada. Mas as pesquisas mais recentes têm chegado à conclusão de que esta matéria bariônica constitui apenas a décima parte da matéria que compõe o universo,  as outras nove partes sendo de uma matéria escura, desconhecida e de difícil detecção, pois não reflete a luz. Sabemos de sua existência por causa de seus efeitos sobre a matéria luminosa.

Não bastasse o mistério desta matéria escura, os pesquisadores se depararam com algo mais misterioso ainda: a energia escura, responsável pela acelerada expansão do universo. Conhecida e desconhecida, escura ou não, a matéria responde por um total de 27,5% do universo, dos quais apenas 4,8% é matéria comum. Os restantes 72,5% são energia escura, cuja pressão produz uma espécie de antigravidade, ou seja, ela afasta os corpos celestes, criando espaço entre eles. É neste espaço que precisamos penetrar, para encontrar nossa origem.

Enquanto a ciência tenta descobrir o mistério da matéria e da energia escura, dando continuidade à busca alquímica pela prima matéria, a matéria primordial, caótica e misteriosa, com a qual se iniciava a grande obra da transformação, ela sempre esteve presente na imaginação de todos os povos como a Deusa Negra.

Os mitos arcaicos falam da Escuridão Primordial, do Grande Profundo, que originou o mundo que conhecemos. Os gregos denominaram este caos primordial de Gaia, a mãe de todos os deuses. No Egito pré-dinástico era Nun, o oceano primordial. Entre os sumérios, era chamada de Nammu, o abismo aquoso.

As grandes deusas arcaicas sempre se apresentavam em um aspecto duplo, regendo sobre o mundo da luz e sobre o mundo da escuridão. A Ísis Negra, mais antiga e primitiva, regia as horas noturnas, quando a divindade solar masculina se defrontava com seus maiores inimigos. Sua contraparte era Hathor, aquela que regia as horas diurnas.

Na mitologia sumeriana, encontramos a Deusa Negra na figura de Ereshkigal, a Rainha do Grande Abaixo, a quem foi atribuída o domínio do submundo, o mundo do não retorno. Sua contraparte é Inanna, a jovem deusa vestida de estrelas.

Também Deméter, a deusa mãe grega responsável pelos campos arados, possuía seu aspecto claro e escuro. Como Deméter Olímpica, era a mãe de Plutão/Hades, doadora de riqueza. Na Arcádia, como a deusa que vagueia, ela foi raptada por Poseidon e, tendo ficado muito furiosa, os habitantes locais a chamaram de Fúria. As Fúrias são mulheres do submundo, representadas como anciãs, tendo serpentes como cabelo, cabeça de cachorro, corpos negros, asas de morcego e olhos tintos de sangue. Sua função é vingarem danos feitos às mães e, quando elas se tornam aflições de consciência, são capazes de matar um homem que brutal ou inadvertidamente quebra um tabu.

Sophia, a Deusa da Sabedoria, era a matéria prima com que os alquimistas começavam sua grande obra. Sua condição original era o estado da rubedo (vermelhidão), o fogo interior que aquecia e inspirava a todos. Após a queda da humanidade, transformou-se em nigredo(negritude), a Escura Mãe da Terra, tão antiga quanto o tempo e denominada Sophia Nigrans. Em seu esforço para ascender, ela representa a Sophia Stellarum, a Brilhante Virgem do Céu, tão jovem quanto a eternidade. A tintura que buscavam obter os alquimistas era o sangue sagrado, que representa o elo entre os seres humanos, a fagulha do espírito na matéria.

Na tradição celta, são muitas as mulheres feias, negras, desfiguradas. Em contraposição às belas donzelas, elas têm sempre um papel ativo, sua função principal sendo a de desafiar os de boa índole a irem em busca do verdadeiro valor da alma, valor este que está oculto na escuridão e que, ao emergir, traz a luz.

A deusa escura representa os mistérios do inconsciente, seja pessoal, seja coletivo, razão pela qual pode parecer ameaçadora, especialmente para a consciência egóica defensiva, obcecada com sua própria independência. Apesar de ser uma função útil e peculiar do ser humano, uma função e extensão da psique total, é preciso que o ego reconheça e aceite a deusa escura como um fator positivo da totalidade, caso contrário ele corta suas próprias raízes e rapidamente seca e colapsa.

As tentativas da consciência egóica para alcançar independência, baseada na demonização da deusa escura, é o erro principal da era patriarcal, sua correção sendo uma tarefa urgente para nosso tempo, se quisermos criar um mundo de harmonia.

Como um portal para a consciência em expansão, a Deusa Escura é acessível através de nossas sensações. Quando prestamos atenção ao que acontece em nosso corpo, podemos vislumbrar sua orientação e nos abrirmos para outras dimensões em consciência.

A negritude da deusa se deve ao fato dela ser “o símbolo de todas as coisas que podemos saber na escuridão além da visão. Porque ela representa todas as forças que nos envolvem e que não são percebidas com os olhos, mas que se estendem do espectro visível até os modos inexplorados de ser. Porque ela é a Deusa da visão da noite, do sonho e de todas as coisas que vemos com a luz interior, quando nossos olhos estão fechados”, escrevem Penelope Shuttle e Peter Redgrove em The Wise Wound [A Ferida Sábia].

Monika von Koss em julho de 2009

fonte do texto: http://www.monikavonkoss.com.br/site/indice-de-artigos/102-a-deusa-escura