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22 de out. de 2011

Deusa Maat

Maat, a guardiã da verdade e da justiça

“Sobriedade é meu propósito e minha vontade,
Nenhum impostor inebriado pela ilusão
poderá alterar as minhas palavras, nem deturpar a minha lei.
Eu sou a Justiça Cósmica e todos deverão
conhecer e respeitar as minhas verdades eternas,
independentemente da sua posição social ou hierárquica.
Deixo-me tocar pelas preces sinceras e vindas do coração
Mas permaneço surda aos pedidos mesquinhos ou egoístas,
Pois não me deixo influenciar pelos desejos da carne
Nem pelas armadilhas da mente.
Ninguém permanecerá imune à minha avaliação
E todos os corações serão julgados de acordo
com as eternas leis da verdade e da justiça.”

Mirella Faur

O panorama atual do nosso país e do mundo nos incita refletirmos sobre o arquétipo simbolizado por Maat. Antiga deusa egípcia representando a união do deserto e da terra fértil, da individualidade e do Eu superior, Maat personifica o princípio da verdade e da justiça divina, a quem mesmo as divindades eram subordinadas.

A Sua natureza era justa e verdadeira, era o Seu sopro que conferia a essência divina e era Ela quem pesava as almas, aferindo seu peso com a pena de avestruz. Se a balança se inclinasse pelo peso das más ações cometidas, a alma era entregue ao monstro Ammut, que a devorava. Se os pratos da balança permaneciam equilibrados, o deus Osíris permitia a passagem da alma para o mundo dos espíritos puros. Os critérios usados no julgamento das almas eram referentes aos comportamentos e às repercussões das ações cometidas na Terra, bem como à negligência no nível espiritual. Para os egípcios o egoísmo, a gula, a inveja, a cobiça, o roubo, a mentira, a traição ou o descaso espiritual eram infrações que turvavam a consciência e determinavam a trajetória da alma.

Se a transgressão fosse menor, desviando apenas levemente a balança de Maat, a alma precisava passar por retificações e purificações no mundo inferior, antes de voltar para uma nova encarnação. Nos casos graves, a alma era aniquilada, regredindo para o estado de caos.

O hieróglifo para a verdade era a própria pena de Maat e seu nome é a sílaba básica do nome “Mãe” nas línguas indo-europeias. Além de ser a juíza das almas, Maat era reverenciada como Metet, a Barca Matutina do Sol, a Mãe benevolente da luz, cujas leis governavam o céu, a Terra e o mundo subterrâneo.

Às mulheres modernas Maat ensina que ao falar a verdade adquire-se a habilidade de materializar as intenções que vem do coração. O poder mágico da vontade é alicerçado na verdade, tornando-se assim invulnerável aos ventos das mudanças. Somente as mentiras são construídas sobre a areia movediça das emoções.

E para todos nós, homens e mulheres, seria útil e necessário meditarmos sobre a “Confissão Negativa” que todos os egípcios deveriam recitar ao chegar na presença de Maat:

“Não fiz mal a ninguém. Não provoquei a dor alheia. Não fiz ninguém chorar. Não agi de forma violenta, não agredi nem humanos, nem animais. Não roubei. Não poluí a água, nem devastei a terra. Não fiz julgamentos apressados, nem fui insolente. Não provoquei brigas, nem incentivei ninguém a matar. Não dei falso testemunho, nem explorei os outros. Não enganei, nem prejudiquei. Não criei riqueza por meios ilícitos, nem apossei-me dos bens alheios. Não deixei ninguém passar fome, nem tirei o leite das crianças.”.

fonte do texto: http://www.teiadethea.org/?q=node/151

fonte da foto: hranajanto.com

Deusa Lucina

Mirella Faur

Lucina - ou Lucetia - era a deusa luminosa dos sabinos (povo montanhês da Itália), reverenciada em um imponente templo (erguido na colina Esquiline em 735 a.C.) e representada como uma jovem cercada de luz, segurando nas mãos uma tocha e um prato de oferendas (patera). Posteriormente foi considerada um aspecto da deusa Juno e honrada como a padroeira dos partos por propiciar o ato de “dar à luz”. Com o passar do tempo, outro aspecto de Juno - Eileithia, cultuada em Creta - assumiu esta regência nos seus aspectos de Natio, padroeira dos nascimentos e Lucina, deusa da luz. O culto de uma deusa padroeira da luz solar é muito antigo, oriundo dos países nórdicos e bálticos, que celebravam no solstício de inverno o nascimento da criança solar e honravam sua parteira, a Mãe da Luz.

Apesar da destruição do seu antigo templo e de suas relíquias pelos fanáticos cristãos (que arrancaram os olhos de pedras preciosas da imagem e quebraram com marteladas a sua pesada estátua), não foi possível extinguir o culto da deusa Lucina. Como solução, a igreja católica transferiu a adoração do povo para uma figura cristã, Lucia ou Luzia, colocando um manto de castidade na imagem complexa da Deusa. Lucia foi considerada padroeira das doenças dos olhos e benfeitora dos pobres, a quem a santa teria lhes doado seus bens (uma clara alusão e incentivo aos fieis para fazerem doações à igreja).

As comemorações da deusa solar nos países nórdicos também foram substituídas pelas da Santa Lucia, festejada em 13 de dezembro, a data do solstício de inverno no antigo calendário Juliano. A comemoração de Lucia ou Luzia se espalhou pela Europa, tornando-se uma das santas medievais mais populares; ela era considerada virgem e mártir, uma jovem piedosa que preferiu arrancar seus lindos olhos a ceder aos avanços de um pretendente. Lucia aparecia vestida de branco e segurando seus olhos sobre um prato, antiga imagem da patera com oferendas (bolinhos) da deusa Lucina.

Seja deusa ou santa, o culto da padroeira dos partos continuou durante séculos, sendo também invocada nas bênçãos dos recém nascidos e na cura das mulheres. Na Itália as curandeiras de Toscana usaram até o século XIX um dos antigos encantamentos da Deusa, uma guirlanda de galhos de arruda com fitas vermelhas contra mau-olhado e benziam as crianças e os doentes com água impregnada de energia solar. Até hoje na Itália e Sicilia são feitas procissões com tochas e velas (lembrando a antiga lenda da Doadora da Luz) e compartilhados os biscotti - que reproduzem os olhos da santa - e os arancine, bolinhos dourados de batatas ou arroz e coloridos com açafrão, para lembrar o Sol. Em Palermo um prato tradicional das festas de Lucia é cuccia, preparado com trigo em grão, mel, açafrão e ricota, enquanto nos países nórdicos confeccionam-se bolos como “rodas douradas” ou bolinhos “olhos de gato”, encantamentos para atrair a abundância e as bênçãos da deusa solar.

Na Suécia, a celebração atual de Santa Lucia preserva elementos tradicionais e antigos e reveste-se de alegria por reverenciar e prenunciar o aumento da luz solar, tão desejada após os longos meses de inverno. No dia 13 de dezembro, as filhas mais jovens chamadas Lussibruden - noivas da luz - acordam de madrugada e preparam um desjejum especial para os familiares. Elas se vestem de branco e usam uma coroa de folhas de azevinho, fitas vermelhas, com 4, 7 ou 9 velas. Passando de um quarto para outro elas oferecem os tradicionais Lussekatter (“gatos de luz da Lucia”), bolinhos típicos coloridos com açafrão, biscoitos especiais de gengibre e glogg, uma bebida quente com vinho e especiarias. No decorrer do dia nas ruas tem procissões com moças vestidas de noivas, com purpurina dourada nos cabelos e rapazes com camisas brancas e chapéus salpicados de estrelas prateadas, enquanto outros personificam trolls e anões. Esse cortejo acompanha uma moça representando a Santa Lucia, que usa a coroa com oito velas representando a Roda do Ano e que distribui presentes para a multidão.

O renascimento do Sol no solstício de inverno era associado ao processo de vida/morte/renascimento e simbolizado no uso de coníferas (árvores sempre verdes) decoradas com luzes. Antigamente, cada família possuía uma árvore a quem davam presentes e pediam abundância e boa sorte. No topo da árvore colocava-se a representação da deusa solar, substituída depois por um anjo ou pássaro dourado. Para “ajudar” o retorno do Sol, neste dia faziam-se procissões com tochas, danças circulares que reproduziam a roda solar e se pediam bênçãos para o novo ano, que se iniciava com o retorno do Sol, renascido no auge da escuridão, na noite mais longa e fria do ano.

Mesmo vivendo no hemisfério Sul e seguindo outro calendário e religião, em que a antiga e sagrada celebração do solstício foi esquecida e substituída por profanas e consumistas festas natalinas, podemos reservar alguns momentos e refletir sobre a expressão da luz, a nossa própria e a que estamos buscando e celebrando. Após identificar o que obstrui, diminui ou obscurece o brilho genuíno da nossa individualidade, podemos acender uma vela e, olhando fixamente para sua chama, meditar e invocar a deusa Lucina. Com reverência e devoção Lhe pediremos visão clara, assertividade, coragem, segurança, proteção e a expressão correta do nosso poder e brilho pessoal, em todas as circunstâncias e situações, porém sem tentar ignorar ou ofuscar a luz alheia.

fonte do texto: http://www.teiadethea.org/?q=node/155

fonte da foto: http://nanasplace.zip.net/mitologia.html

Deusa Kali

Kali, a negra mãe do tempo

Por ti Devi, este universo é gerado e nosso mundo criado
Por ti Devi, ele é protegido e no fim do tempo consumido
Pois tu és a força criadora, o escudo protetor e o poder destruidor
Que segue a inexorável passagem do tempo.
Devi Mahatmya

Mirella Faur

Kali Ma, a deusa ancestral hindu é venerada na Índia como um arquétipo de Devi, a Grande Mãe, de quem tudo se origina e para quem todos devem retornar. Apesar de Kali ser na verdade uma deusa Tríplice: da criação, preservação e destruição, é este seu ultimo aspecto que é mais conhecido e – para nós ocidentais – o mais difícil de compreender e aceitar, por parecer primitivo e atemorizador. Representada como uma Deusa negra, nua, com os dentes à mostra e a língua de fora, adornada por uma guirlanda de caveiras e dançando vitoriosa sobre o cadáver de Shiva, o seu consorte, Kali desafia a imagem estereotipada da Mãe Divina bondosa e amorosa e desperta nossos medos atávicos da morte e do desconhecido.

No entanto, se procurarmos conhecer seus símbolos, ultrapassando a dicotomia conceitual do bem e do mal, poderemos paulatinamente perceber toda a beleza, plenitude e grandiosidade de Kali como sendo a própria Mãe do Tempo, cuja eterna dança entre a vida e a morte nos leva da destruição para a regeneração. Uma vez compreendida sua força e seu poder transformador, Kali nos oferecerá a libertação de todos os medos – inclusive perante a morte –, livrando-nos assim dos apegos, das fantasias e das ilusões.

Observar e acatar a impermanência da vida significa aprender a difícil lição do desapego e da renúncia. A entrega é difícil, presos como estamos nas teias das ilusões, nas amarras dos apegos, na trama das compensações, que nos fazem cair novamente nas armadilhas das sensações. Acreditamos que não podemos – e nem sabemos – como renunciar, nos desapegar, mudar, deixar ir, fluir, pois para renascer, primeiro precisamos morrer. Morrer para que o velho ego dê lugar para um novo Eu, descobrindo assim a nossa verdadeira identidade e assumindo a responsabilidade pelas consequências das nossas ações. Como estamos vivendo na ”era de Kali” (segundo a cosmologia hindu) é do seu poder que necessitamos para dançar a dança da transformação – nossa e do mundo ao nosso redor.

Para as mulheres modernas, Kali oferece um arquétipo poderoso para despertar a sua combatividade, aprender a delimitar e defender seus espaços, lutar por seus anseios e objetivos e vencer os demônios dos medos. Reconhecendo a sombra da Mãe Terrível – em si e nos outros – elas também vão saber quando precisam usar a espada da destruição ou o lótus da compaixão.

Descobrir, aceitar, liberar e transmutar a raiva, admitir e libertar-se dos medos e das culpas, identificar e rasgar os véus das ilusões, são etapas necessárias para encarar as sombras, ultrapassar as limitações, trocar de pele e assumir o verdadeiro poder. Não o poder sobre os outros, mas o poder interior que mobiliza a vontade, quebra a inércia e liberta dos grilhões. Somente assim a mulher renascerá para uma nova compreensão e vivência do Sagrado em si, nos outros, na vida e no eterno feminino.

Meditando a respeito da sua feroz apresentação, descobriremos que a sua cor preta evoca o mistério do útero cósmico primordial e do silêncio regenerador da terra. Sua nudez revela a beleza e a singeleza da verdade. Nas mãos ela segura a espada da sabedoria que destrói as ilusões, a tesoura que corta os apegos e as dependências, a cabeça decapitada que recomenda libertar-se do controle pela mente racional e os jogos egóicos, o lótus que promete a expansão da consciência e a realização espiritual. A guirlanda de caveiras é formada pelo colar das existências passadas, amarradas pelo cordão umbilical dos nascimentos futuros. Dançando freneticamente sobre o corpo morto do seu consorte, Kali o reanima, transformando o cadáver (Shava em sânscrito) em Shiva – o deus da dança e do poder fertilizador. As serpentes que envolvem seus braços simbolizam a força transformadora de Shakti, o princípio feminino da sexualidade e da vida, transmitido ao Shiva pela dança de Kali.

Aceitando a ideia da necessidade do processo de destruição para limpar o velho e abrir espaço para o novo, é fácil compreender os amplos atributos de Kali, seja como uma deusa guerreira que usa suas armas com coragem e sem pena, seja como uma deusa mãe criadora e preservadora da vida, bem como a negra ceifadora que acompanha o eterno e imutável processo de decadência, decomposição e regeneração.

Dependerá do seu momento e da sua prioridade conectar se e invocar um destes aspectos, com pleno conhecimento dos seus atributos, bem como tendo a plena consciência da responsabilidade da escolha e das consequências do seu pedido. Lembre-se que “às vezes é melhor não pedir do que pedir demais” e que “um presente requer sempre uma retribuição”. Portanto, cuidado com que pedir, pois poderá por Kali ser atendida!

fonte do texto: http://www.teiadethea.org/?q=node/144

fonte da foto: adrishta.com

Deusa Ishtar

Ishtar, a rainha do céu

Mirella Faur

Amplamente cultuada na antiguidade, conhecida sob vários nomes e títulos em diferentes países, Ishtar era uma deusa lunar, uma das manifestações de Magna Dea, a Grande Mãe do Oriente e uma versão mais tardia e complexa da deusa suméria Inanna. Foi venerada como Astarte em Canaã, Star na Mesopotâmia, Astar e Star na Arábia, Estar na Abissínia, Stargatis na Síria, Astarte na Grécia. No Egito sua equivalente era Ísis, cujo culto espalhou-se até a Grécia e Roma, florescendo até os primeiros séculos da era cristã.

Ishtar personificava a força criadora e destruidora da vida, representada pelas fases da Lua, crescente e a cheia que favorecem o desenvolvimento e a expansão, a minguante e a negra que enfraquecem e finalizam os ciclos anteriores. Como Deusa da fertilidade ela dava o poder de reprodução e crescimento aos campos, aos animais e aos seres humanos. Foi nesta qualidade que se tornou a Deusa do Amor, que teria descido do planeta Vênus, acompanhada de seu séquito de sacerdotisas Ishtaritu que ensinaram aos homens a sublime arte do êxtase: sensorial e espiritual.

Como rainha do céu era a regente das estrelas, pois ela mesma tinha vindo de uma estrela que brilhava no amanhecer e no entardecer e era o ponto central de seu culto. As constelações zodiacais eram conhecidas pelos antigos como o “cinturão de Ishtar” e era ela quem percorria o céu todas as noites em uma carruagem puxada por leões, controlando o movimento dos astros e as mudanças do tempo. Muitos eram os títulos que lhe foram atribuídos – “Mãe dos Deuses, A Brilhante, Criadora da Vida, Condutora da Humanidade, Guardiã das Leis e da Ordem, Luz do Céu, Senhora da Luta e da Vitória, Produtora de Sementes, Senhora das Montanhas, Rainha da Terra”.

As suas representações a mostram como a mãe que segura os seios fartos, a virgem guerreira, a insinuante sedutora, a sábia conselheira, a juíza imparcial. Mas Ishtar tinha também um aspecto escuro, que surgia quando ela descia ao mundo subterrâneo e uma época de terrível depressão e desespero caia sobre a terra. Na sua ausência, nada podia ser concebido, nenhum ser podia procriar, a Natureza inteira mergulhava na inércia e inação, chorando por sua volta. Era então chamada de “Mãe Terrível, Deusa da Tempestade e da Guerra, Destruidora da vida, Senhora dos Terrores Noturnos e dos Medos”. Porém, era nessa manifestação que ela podia ensinar os mistérios, revelar as coisas ocultas, propiciar presságios e sonhos, permitir o uso da magia, o alcance da sabedoria e a compreensão dos ciclos da vida e da natureza.

Em suas formas variadas e mutantes Ishtar desempenha as múltiplas possibilidades da essência feminina, sendo a personificação do princípio feminino – seja o da natureza Yin, seja o da anima. Nas celebrações de lua cheia dedicada ao seu culto (chamadas Shapattu) as mulheres da Babilônia, Suméria, Anatólia, Mesopotâmia e Levante levavam oferendas de velas, flores, perfumes, mel e vinho para seus templos, cantavam-lhe hinos, dançavam em sua homenagem e invocavam suas bênçãos para suas vidas, suas famílias e sua comunidade.

fonte do texto: http://www.teiadethea.org/?q=node/152

fonte da foto: alcateiasite.blogspot.com

Deusa Iemanjá

Iemanjá, nossa mãe do mar

“A estrela brilhou
Lá no alto-mar
Quem vem nos salvar
É nossa mãe Iemanjá.
Seja bem-vinda
Nossa mãe bondosa
Venha nos ajudar
E para o fundo do mar
Todo o mal descarregar”
Ponto cantado da Umbanda popular.

Mirella Faur

O culto a Iemanjá foi trazido ao Brasil no século XVIII pelos escravos da nação ioruba, oriundos de Abeokutá, região no Oeste africano. Apesar das perseguições e proibições, têm sido mantido vivo até os dias de hoje pela dedicação de seus pais, mães e filhos “de Santo” e de fé.

Hoje em dia, com exceção da Índia, o Brasil é o país que concentra o maior número de pessoas no mundo a cultuarem uma das manifestações da Grande Mãe, graças a esta profunda fé ancestral e ao sincretismo religioso, contribuindo, inconscientemente, para o fortalecimento e para a expansão do Sagrado Feminino.

Analisando-se o nome Yemanya conforme a Lei de Pemba – a grafia sagrada dos Orixás, postulada pela Umbanda Esotérica, reconhecemos o princípio gerador, a matriz dos poderes da água, a potência criadora, as qualidades nutridoras, a própria representação do eterno e sagrado feminino: a Divina Mãe.

No sincretismo afro-brasileiro, Iemanjá foi equiparada à Virgem Maria (em seu aspecto de Stela Maris, atributo herdado da deusa egípcia Ísis), sendo cultuada como “Nossa Senhora dos Navegantes” com procissões marítimas similares aos antigos rituais egípcios e romanos Navigium Isidi. Em Cuba e na Umbanda, Iemanjá é reverenciada como La Virgem de Regla, padroeira dos marinheiros, enquanto que na Santeria, assim como na Umbanda esotérica, Ela é considerada uma das sete forças originais.

Segundo o escritor e estudioso Pierre Verger, Yeyé Omo Ejá, “A Mãe cujos filhos são peixes” era o orixá dos Egbá, uma nação ioruba estabelecida outrora perto do Rio Yemojá, no antigo reino de Benim. Em razão das guerras, os Egbá migraram e se estabeleceram em uma região às margens do Rio Ogun, tornando-se o novo centro do culto de Iemanjá, que foi então levado pelos escravos para o Brasil, Cuba e Haiti.

O mito descreve como Iemanjá, filha de Olookun, o deus ou deusa do mar, teria casado pela primeira vez com Orunmilá, o deus do oráculo, e depois com Olofin, o rei de Ifé, com quem teve dez filhos. Após algum tempo, Iemanjá fugiu de Ifé e foi para o Oeste, onde foi encontrada pelo exército de seu marido. Sem querer voltar para Ifé, Iemanjá quebrou uma garrafa mágica dada por seu pai/mãe para ser utilizada em caso de perigo. Da garrafa saiu um rio que a levou de volta para o oceano, onde reside até os dias de hoje.

Na mitologia ioruba, Iemanjá é descrita como uma mulher morena, madura, com seios volumosos. No Brasil, Iemanjá é representada como uma sereia, possivelmente uma reminiscência das antigas deusas-peixe neolíticas encontrada em várias escavações realizadas em templos na Europa e na Ásia. Também pode ser representada como uma mulher magra e esbelta, com seios pequenos, o que contradiz suas qualidades geradoras e nutridoras características.

Na Tradição da Deusa, Iemanjá é a mãe ancestral do oceano, conhecida como Mami Vata, em Gana ; Agwe, em Dahomey ; Yemayá, no Haiti; La Balianne, em Nova Orleans e Mãe d´Água ou Janaína, no Brasil. Apesar da diversidade de nomes e representações em seus diversos cultos, Ela é sempre a regente do mar, da lua cheia, padroeira da fecundidade e da gestação, inspiradora dos sonhos e das visões, mãe divina protetora e nutridora que acalenta e mitiga as dores.

Assim, no fim do ano e na véspera do Novo Ano, nada mais apropriado do que invocar a bênção de Iemanjá, suplicando-lhe que remova todos os resíduos negativos (materiais, mentais, emocionais, psíquicos ou espirituais) criados ou adquiridos ao longo do ano que passou. Seja na noite de 30 de dezembro, seja na seguinte – que é a data tradicionalmente a Ela consagrada – procure um lugar por onde passem os caminhos que levam à Iemanjá: mar, lagoa, rio, fonte, praia, arrecifes.

Mergulhe na água, entregue à água suas dores, mágoas, ressentimentos, fracassos, decepções, medos e preocupações e saia purificada e renovada. Caso não seja possível, tome um banho de desimpregnação fluídica, com sal grosso e infusão de pétalas de rosas brancas. Enquanto ora à Iemanjá, ofereça-lhe arroz cozido com leite de coco e coberto com mel, vinho espumante, uvas e flores brancas, perfume e incenso de rosas e um colar de contas de cristal.

Agradeça-lhe por tudo que você criou, nutriu, alcançou e recebeu ao longo das treze lunações do ano que passou. Reconheça e agradeça as alegrias e as dores, as conquistas e as perdas, os frutos doces e os amargos, mas principalmente seja grato por sua fé, que mantém viva a chama sagrada da esperança e que ilumina as incertezas da vida. Peça-lhe que continue zelando por você no silêncio da noite ou no tumulto do dia, que lhe envie avisos nos sonhos e que lhe sustente no combate cotidiano, enxugando suas lágrimas ou aumentando sua coragem.

Despeça-se dela com a tradicional saudação Odo Iyá e, envolta no seu amor e fortalecida por sua bênção, entre para mais um Ano Novo de paz, saúde, amor, sucesso, prosperidade e segurança, dedicando-lhe o primeiro brinde de sua comemoração e entoando seu canto tradicional:

"Yemaya Assessu, Assessu Yemaya,
Yemaya Olodo, Olodo Yemaya".

fonte do texto e foto: http://www.teiadethea.org/?q=node/159

Héstia e Vesta, Guardiã da Chama Sagrada

 

Mirella Faur

Héstia era a filha primogênita do casal de Titãs Rhea e Chronos, uma das doze divindades olímpicas que, em troca do direito de permanecer virgem, cedeu seu lugar no Monte Olimpo para o deus Dionísio. Apesar de sua importância como deusa guardiã da lareira, da família e da comunidade, Héstia não tinha um templo específico, nem foi “personificada” em imagens ou estátuas. Mesmo invisível no plano físico, Ela era a mais presente divindade na vida humana, sendo representada pela luz e pelo calor do fogo, honrada em cada casa, cidade e nos templos dedicados aos outros deuses. O fogo aceso nos altares dos templos e nas lareiras das moradias era o pedido e o convite para que Héstia se tornasse presente, trazendo as bênçãos da iluminação. Héstia não tinha rituais específicos, sendo a veneração da chama sagrada a maneira antiga e atual para sua reverência e invocação.

Ela recebia as honras em primeiro e último lugar, em razão dos direitos especiais de seu nascimento e renascimento. Conta o mito que, à medida que a deusa Rhea dava à luz aos seus filhos, Chronos os engolia, por temer ser por eles destronado. Quando Zeus nasceu, Rhea conseguiu enganar Chronos, dando-lhe uma pedra enrolada em panos para engolir e escondeu Zeus na gruta do Monte Ida, onde ele foi criado por sacerdotes e amamentado pela cabra Amalthea. Quando se tornou adulto, Zeus deu um vomitório para que Chronos expelisse todos os filhos por ele engolidos; a última a ser devolvida foi a primogênita Héstia, daí seu título de “a primeira e a última”.

Diferente de outras divindades, Héstia jamais participou das disputas ou intrigas entre os deuses, nem das guerras promovidas por seus irmãos, adquirindo, assim, o direito de ser reverenciada como o centro da casa e do templo e de receber as honras e oferendas em primeiro e último lugar. Por ter imposto sua vontade de permanecer virgem e de jamais aceitar um homem na sua vida, Ela (assim como Ártemis e Athena) era invulnerável às flechas de Eros e aos feitiços de amor de Afrodite.

Poucos escritos existem sobre Héstia, sendo que a principal fonte de informação está nos hinos do poeta Homero. Sua importância para o povo grego estendia-se além das reverências e oferendas a Ela dedicadas, que eram feitas antes de cada refeição ou ritual. Como sua bênção era pedida para o fortalecimento da unidade familiar, uma mulher, quando se casava, recebia em sua nova moradia uma tocha acesa na lareira da casa materna, levada por sua mãe para consagrar o lar dos recém-casados, demonstrando a importância da continuidade da energia ancestral feminina e do elo entre mãe e filha. Quando uma criança nascia, aos cinco dias de vida sua família reunia-se ao redor da lareira e a apresentava à Héstia, pedindo Sua bênção e permissão para a admissão no clã familiar.

Além de ser o elo entre humanos e o plano divino, Héstia também era a protetora dos templos e das comunidades. O Estado era uma continuação da família e cada cidade tinha nos templos um santuário – chamado Prytantis – e uma lareira dedicada à Héstia, zelada pelas sacerdotisas chamadas Prytantes. Visitantes e viajantes pediam as bênçãos para sua estadia ou viagem nestes santuários e os suplicantes e foragidos neles encontravam asilo e proteção. Do templo principal era levada a chama para abençoar as novas cidades e colônias e acender novas lareiras, sendo Héstia o elo que ligava o lar ancestral da capital aos confins do império, da mesma maneira como era feito com a continuidade do fogo materno para com seus descendentes.

Como arquétipo, Héstia representa a essência (em grego a palavra é essia), o centro da psique, a própria chama interior da natureza divina. Ela também simboliza a energia feminina invisível que permeia um lugar ou situação e que torna esse local sagrado.
Como deusa virgem, personifica o conceito da auto-suficiência, ou seja, “ser completa em si mesma”, sem precisar da presença de um pai, marido, filho ou amante. Nessa condição, ela podia seguir seus próprios valores e caminhos, sem lutar pelo poder, sem ter que se submeter à autoridade masculina ou fazer concessões.

O termo latino para “lareira” é focus e, na interpretação astrológica, o asteroide Vesta define a capacidade de focalização e concentração em um determinado objetivo, o que exige a prática do silêncio, introspecção e meditação. Para as mulheres marcadas por sua influência (seja pela presença relevante do asteroide no mapa natal ou através de uma conexão voluntária), o estado de contemplação e as práticas de focalização tornam-se mais fáceis. Mesmo atividades corriqueiras ou afazeres de casa podem ser um meio para ordenar pensamentos e silenciar a mente, encontrando assim momentos de quietude, introspecção e harmonia interior. Conectando-se com a energia de Héstia, a agitação e pressa, a habitual cobrança e o senso exagerado do dever e fazer tornam-se menos importantes; realça-se, assim, o valor e a necessidade de estar conscientemente no “aqui e agora”. Cada vez que uma mulher cria ordem, beleza, paz e harmonia em um ambiente, ela consagra esse espaço.

Desde a pré-história, o fogo era o centro da vida comunitária, pois, além de fornecer luz e calor, era o ponto de encontro dos clãs e dos conselhos de anciãos, sendo também um símbolo de hospitalidade e proteção. Para as mulheres contemporâneas, momentos de solidão e de silêncio são requisitos necessários para o centramento e para as práticas espirituais. Apesar do ritmo agitado da vida e das pressões e exigências modernas, as mulheres que buscam seu crescimento e evolução espiritual não precisam ir para o longínquo Avalon, nem se retirar em um mosteiro ou ashram. Basta criar um tempo e espaço sagrados, formar um grupo ou círculo junto com outras mulheres, ter um propósito e um centro espiritual e permanecer em silêncio e meditação. O mergulho no âmago das essências individuais possibilita encontrar a conexão e a força nutridora de Héstia. A representação do centro pode ser uma vela ou lamparina, um cristal, uma mandala ou a imagem da luz divina.

A versão romana de Héstia era personificada por Vesta e seus cultos diferiam em alguns aspectos. Vesta também era uma força sagrada estabilizadora e centralizadora, protetora das famílias e cidades. No entanto, suas sacerdotisas – as Vestais – tinham maior prestígio e atuação do que as Prytantes já que os romanos tinham um número maior de festividades públicas para reverenciar Vesta do que os gregos, onde o culto era concentrado nos lares. O fogo sagrado de Vesta era velado no Forum Romanum por seis Vestais, em um templo esférico que reproduzia a Terra, cujo perímetro era proibido aos homens após o anoitecer. As Vestais eram escolhidas entre as filhas de famílias nobres e deviam servir por trinta anos, dos quais dez eram de aprendizado, outros dez de sacerdócio e os últimos para ensinar as novas Vestais. Elas deviam manter sua castidade, estando submetidas a regras severas, como no caso de infração ao seu voto, quando eram enterradas vivas. Como recompensa, recebiam alguns privilégios: convites para jantares com autoridades, os melhores lugares nos teatros e arenas e passeios de carruagem; elas não eram submetidas à autoridade paterna, podendo possuir bens e, depois dos trinta anos de serviço, podiam se casar. Por serem consideradas imbuídas de poderes especiais, eram honradas por todos e podiam perdoar condenados caso passassem perto deles. Sua pureza era considerada a garantia da segurança e salvação de Roma e por isso era vigiada em permanência pelo Sumo Pontífice.

Com o passar do tempo, as vestais se tornaram “bodes expiatórios” e foram usadas para fins políticos, sendo-lhes atribuídas as causas de desastres naturais ou as derrotas nas batalhas, por, supostamente, terem infringido seus deveres e quebrado o voto de castidade. Durante as festividades de Vestália, que duravam de 7 a 15 de junho, as matronas romanas descalças e veladas seguiam em peregrinação para levar o pão por elas assado como oferenda para os templos. No final do festival, as Vestais fechavam o templo, lavavam-no e depois abriam-no com um banquete oferecido às divindades, contando apenas com a presença de mulheres. Uma vez por ano, no dia primeiro de março, o fogo sagrado era apagado e novamente acesso ritualisticamente pela fricção de dois paus, revelando o simbolismo oculto de Vesta como deusa geradora e sustentadora das mulheres e das famílias.

Atualmente foi perdido o respeito pela continuidade da união familiar com a reverência e gratidão ao sagrado antes das refeições. Vivemos na era do fast food, com todas suas consequências nefastas: falta de diálogo e convívio entre pais e filhos, distúrbios alimentares, diabetes e obesidade. Por não mais honrar e ancorar a energia unificadora e protetora de Héstia em nosso cotidiano, negando o lugar de honra do Seu fogo sagrado em nossas casas, canalizamos o aspecto sombrio e destrutivo do fogo, que se manifesta no superaquecimento global, nos desequilíbrios e conflitos religiosos, na falta de respeito e de reverência perante o sagrado e a natureza.

No entanto, o arquétipo de Héstia permanece esquecido e oculto em nosso inconsciente e caberá a nós – mulheres conscientes de sua força e missão espiritual – reacender o fogo sagrado, em nós, em nossas vidas e famílias. Para isso, precisamos encontrar novas formas de manter a união e harmonia familiar, cuidando da alimentação saudável dos filhos, evitando a poluição ambiental e mental pelo consumismo, a invasão dos alimentos refinados e processados. Podemos e devemos criar singelos momentos de silêncio e de gratidão pelo pão diário, em uma oração conjunta nas refeições ou ao redor da chama de uma vela.

O nosso desafio – como mulheres, filhas, esposas ou mães – é saber como combinar as exigências do mundo externo, estressante e caótico, com a missão ancestral de cuidar da casa, da harmonia familiar e da manutenção da chama sagrada. A resposta se encontra nos pequenos gestos: unir-se em conversas sem assistir TV ou ler jornal, incentivar encontros familiares em datas sagradas, informar-se sobre os alimentos saudáveis, mobilizar pessoas para grupos de estudo e oração, preservar a coesão e sintonia grupal evitando discussões, disputas e competições. Quanto mais isso ocorrer e melhor forem o bem-estar e harmonia alcançados e compartilhados, mais fácil será despertar e ativar o fogo sagrado de Héstia no coração de outras pessoas, criar núcleos luminosos no centro das moradias e das comunidades, para poder curar corpos e mentes e fortalecer a essência divina de todos.

fonte do texto e foto: http://www.teiadethea.org/?q=node/38

21 de out. de 2011

Deusas: Hera e Juno

Hera e Juno, as padroeiras dos relacionamentos

“O meu canto louva Hera, filha de Rhea, Rainha imortal, irmã e esposa de Zeus. Sentada no seu trono dourado Ela recebe as homenagens dos deuses do Olimpo, que A glorificam e honram tanto quanto ao Zeus, pois a ambos pertencem o cetro e o céu.”
Hino a Hera, de Homero (adaptado)

Mirella Faur

Hera, a Rainha Celeste, uma das mais antigas e poderosas deusas do mundo mediterrâneo, nos primórdios reinava sozinha e sem consorte, verdadeira herdeira da tradição da Grande Mãe. No entanto, poetas e historiadores no período helenístico e clássico Lhe atribuíram um papel de menor importância, descrevendo-A como a esposa ciumenta e vingativa de Zeus, uma deusa insegura, cruel e injusta, padroeira do casamento e da fidelidade, que ela respeitava e cumpria apesar do alto preço a pagar.

Zeus era um deus todo-poderoso, com comportamento tipicamente patriarcal, adúltero e dominador, que violentava deusas, ninfas e mortais e se gabava das suas conquistas e dos filhos ilegítimos. Hera aparece nos mitos clássicos e poemas homéricos como a consorte dependente e fiel, que usa seus poderes sobrenaturais e sua astúcia para se vingar das traições conjugais, matando as amantes e os filhos bastardos sem, no entanto, confrontar ou abandonar seu marido infiel.

Apesar desta descrição negativa, o culto de Hera floresceu em vários lugares, seus templos imponentes e faustosos sendo encontrados de Babilônia até Síria, Grécia, Creta e Roma, os mais famosos sendo os de Hierápolis, Sparta, Olímpia, Micenas, Argos, Cós, Samos, Corinto, Attica, Beotia, Epidaurus, Euboea, Platea e Creta.

Como se explicam os séculos de devoção a uma deusa “vulnerável” e misógina, com os inúmeros festivais e celebrações – chamados Heraea – em Hierápolis (com procissões, oferendas nos altares, banquetes e competições esportivas) ou Olímpia (com jogos e competições de corridas entre mulheres de várias faixas etárias) e as procissões anuais das sacerdotisas levando as estátuas de Hera para serem lavadas no mar?

Para compreendermos estas incongruências históricas devemos perscrutar os mitos arcaicos e a origem do mito clássico. Na era de Touro Hera era honrada como a deusa celeste com “olhos de vaca” (símbolo de beleza e riqueza), que presidia sobre todas as passagens da existência feminina. O nome grego He-era significava A Senhora e A Escolhida, atribuído a uma deusa minoica do céu, da tempestade e do vento, sua essência sendo a soberania da terra e seus títulos definindo a regência das fases da vida da mulher e da natureza. Assim Parthenia era a donzela, a lua nova, a primavera, Teleia – a mulher adulta, a lua cheia, o verão e Khêra, a viúva ou mulher solitária, a lua minguante e o inverno.

Além dessa apresentação tríplice, Hera ainda tinha como atributos: Ataurote - a virgem, Nymphomene - a noiva, Zygia- a casada, Gamelia - padroeira do casamento, Antheia - deusa das flores, Acrea - a senhora das alturas, Hippia – padroeira das corridas de cavalos. Suas imagens mais antigas a representam nos altares dos templos como um pilar de madeira sagrada envolto em panos ou uma mulher majestosa e bonita, os cabelos presos por um diadema, sentada sobre um trono e segurando um cetro com um cuco no topo (seu animal sagrado além do falcão, do pavão e da vaca) e uma romã (indicando sua regência também sobre a morte, além da vida).

Hera aparecia como uma deusa lunar e celeste, que controlava o céu, a terra, o ar e a água, protegia as mulheres, seus ritos de passagem e relacionamentos, regente da arte, da ciência, do tempo e das profecias. Seu culto antecede em muito o de Zeus, até mesmo em Olímpia, onde seu templo foi depois dedicado a Zeus. Quando as tribos invasoras vindo do Norte europeu invadiram a Grécia, o culto de Hera tornou-se um empecilho e assim ela foi transformada na consorte de Zeus, deus celeste e senhor dos raios.

O casamento mítico de Hera e Zeus representa a derrota do culto matrifocal na Grécia e Creta pré-micênica pelos cultos patriarcais e a amalgamação forçada das duas tradições e seus panteões. Os eternos conflitos do casal divino simbolizam as batalhas entre os seguidores de Zeus e os adoradores de Hera. A permanente tensão conjugal e a esterilidade matrimonial descreviam o contraste entre a antiga descendência matrilinear e as novas imposições da hierarquia patrilinear. Zeus negou a Hera realização sexual e emocional e nascimento de um filho legítimo, com medo de que ele poderia usurpar a sua soberania (assim como ele fez com o seu pai Chronos).

Hera – à sua vez – recusou-se gerar um herdeiro que perpetuasse o direito e a hegemonia patriarcal. Os inúmeros estupros de deusas e mortais atribuídos a Zeus representavam a violação dos direitos matrifocais e o ostracismo imposto às sacerdotisas de Hera pelos adeptos de Zeus. A perseguição e punição das amantes de Zeus por Hera era uma metáfora que simbolizava o compromisso sagrado que impedisse a submissão das sacerdotisas à nova ordem patriarcal. A matança dos filhos destes estupros era uma medida extrema para evitar a existência de descendentes leais à nova ordem patriarcal. A severidade do comportamento de Hera com seus inimigos reflete o desespero das seguidoras do seu culto, que lutaram até a morte para preservar a linhagem matriarcal e os direitos sagrados das mulheres. Como consequência da instauração da nova ordem patriarcal, as mulheres foram proibidas de exercer práticas curativas, terem acesso aos estudos, cultos e calendários lunares, sendo punidas pelas transgressões das regras. Até nos dias de hoje, a violência contra as mulheres é atribuída ao comportamento errado, omisso, devasso, rebelde, fútil ou carente das mulheres.

No panteão Olímpico Hera aparece como filha de Chronos e Rhea, irmã de Zeus que se apaixonou por ela, mas Rhea não lhe deu seu consentimento por conhecer a sexualidade voraz e desprovida de ética do seu filho. Para conseguir vencer a resistência de Hera refratária aos seus avanços, Zeus lançou mão de um estratagema, se transformando em cuco, que parecendo enregelado de frio foi acolhido nos braços compassivos de Hera. Depois que Zeus reassumiu suas feições ele a violentou, forçando-a aceitar o casamento, festejado por todas as divindades.

O mito conta que a celebração do casamento durou 300 anos e em seguida o casal divino foi morar no monte Olimpo, onde Hera passou a dividir o trono com Zeus e ser a única deusa casada. No início a relação foi amorosa e pacifica, mas depois começaram as brigas perpétuas, com traições de Zeus, fidelidade e vinganças de Hera, humilhações e disputas recíprocas.

Apesar desta união tumultuada, Hera passou a ser reverenciada como a esposa modelo, que permanecia fiel e monógama, apesar da infidelidade do marido e das investidas de outros deuses. Enquanto Zeus gerou vários filhos fora do casamento, da sua união com Hera nasceram apenas as deusas Hebe e Eileithya que, segundo algumas fontes, não eram filhas, mas personificações da própria Hera (sua face jovem e a protetora dos partos). Para se vingar de Zeus pelo nascimento de Athena, Hera gerou de forma partenogenética (sem parceiro) os deuses Ares (odiado por Zeus), Hefaisto (rejeitado pela própria Hera por ter nascido aleijado) e uma criatura monstruosa, Tifon, a serpente de cem cabeças, inimiga mortal de Zeus.

A relação conjugal de Zeus e Hera tornou-se o protótipo do casamento humano, com brigas, separações e repetidas voltas, Hera se retirando na solidão durante algum tempo, mas voltando após a renovação da sua “virgindade” ao se banhar na fonte sagrada de Kanathos. Em troca da sua fidelidade Hera esperava a mesma conduta do seu cônjuge e sua decepção se manifestou na amargura, ciúme obsessivo, raiva e vingança, bem como na projeção da sua libido reprimida e manifestada pela licenciosidade de Zeus.

Sua atuação feminina era mais como esposa do que como mãe, podendo ser definida como uma “matriarca contida e reprimida em um mundo patriarcal”, sem ter tido o direito e as condições mútuas para que fosse celebrado o verdadeiro hieros gamos, o casamento sagrado e consagrado. Os mitos clássicos enaltecem apenas a virtude da fidelidade de Hera, sem mencionar seus antigos atributos de proteção, força e nutrição. A ênfase está no ciúme mórbido, na maldade cruel das vinganças, na imagem maldosa de Hera, fato atribuído à vida conjugal de Homero, perseguido e atormentado por uma esposa vil e ciumenta.

A equivalente romana de Hera, a deusa Juno tinha um mito semelhante, mas uma maior autoridade e relevância, por terem sido agregados ao seu culto os atributos lunares e de fertilidade da terra de uma antiga deusa mãe. Para os gregos, a união perene de Hera e Zeus simbolizava a importância da manutenção do casamento. Para os romanos o casamento, lar e família tinham uma importância conjunta maior, louvando-se também a fertilidade e a maternidade como atributos divinos. Juno Natalis era a guardiã dos partos e da maternidade, Juno Lucina conduzia a alma para a luz e Juno Pronuba protegia as mulheres casadas, o mês de junho sendo a ela dedicado como favorável aos casamentos. Acreditava-se que cada mulher possuía uma individualidade feminina sempre renovada e jovem nomeada juno, equivalente ao genius dos homens.

O asteroide Juno simboliza o princípio de relacionamento e da parceria equilibrada e harmoniosa, sendo associado com os signos de Libra e de Escorpião, definindo a aspiração para a união perfeita e os sofrimentos e complexos psicológicos oriundos da não realização. Ele descreve os jogos de poder, as manipulações, repressões, projeções, decepções, medos e conflitos encontrados nos relacionamentos desiguais e desajustados e indica as soluções para a sua transmutação e cura.

Para as mulheres que buscam resgatar os verdadeiros valores e conceitos da tradição da Deusa é imprescindível descartar a visão patriarcal de Hera como uma deusa vulnerável e dependente e A honrar como protetora e defensora, que cuida dos seus direitos, favorecendo e atraindo relacionamentos justos, leais e de honesta parceria. Precisamos transformar o arquétipo distorcido da Hera como esposa infeliz e dependente enraizado no nosso inconsciente, na cultura, literatura e ordem social vigente. Resgatar a Hera arcaica que vive em nós - simultaneamente com a sua imagem negativa mais recente – significa ver Hera como um incentivo para que amemos mais a nós mesmas, buscando nosso aprimoramento individual, cuidando dos nossos corpos, mentes, corações e limites.

Devemos ter a coragem de exigir um relacionamento equitativo, harmonioso, honesto e equilibrado, vivendo com integridade, lealdade e respeito, sem nos deixar limitar ou prender por medos, co-dependências e concessões. Pede-se à Hera a benção para um casamento sagrado, uma união alquímica que una as almas e não somente corpos, corações ou interesses, em busca da fusão com o divino amor, que tudo permeia e que existe em todos e no todo.

fonte do texto: http://www.teiadethea.org/?q=node/154

fonte das fotos: cinthyahayka.blogspot.com;

Deusa Sophia

Hagia Sophia, a sabedoria sagrada

“...Há milênios fui pelo Senhor criada, no começo de tudo, como Seu primeiro ato criador, antes mesmo da Terra, quando não existia o abismo profundo, nem fontes de água, montanhas, colinas ou campos. Quando Ele estabeleceu os céus Eu estava lá, também quando traçou um círculo na superfície do abismo e firmou a abóbada celeste, quando delimitou as margens dos mares e a fundação da Terra. Eu estava sempre ao seu lado como uma Mestra criadora e parceira, sendo o seu deleite e me alegrando ao lado dele no mundo habitado... Livro dos provérbios, 8:22-31

Mirella Faur

Inúmeros textos (“livros da sabedoria”) da bíblia hebraica descrevem Hokhmah, a Sabedoria feminina, de forma complexa e desafiadora, dando origem a inúmeras interpretações e contradizendo o conhecido monoteísmo judaico. Ela – assim como Yahweh – era invisível e transcendente, sua origem retrocedendo ao “inicio dos tempos antes da Terra existir”. Mas também era imanente, pois além de consorte de Deus e construtora do universo, ela fazia parte da criação e caminhava no meio da humanidade.

A controvérsia gira em torno da sua aparição, vista ora como primeiro ato de criação de Deus, ora como entidade pré-existente, herdeira de Zoé, arquétipo da própria existência. Filósofos modernos argumentam que a Sabedoria representa a ordem oculta do mundo, sendo uma lei cósmica, um pré-requisito da criação e, portanto, percebida e reconhecida por Deus, mas sem ser por ele criada. Como princípio espiritual e força transcendental, Hokhmah é a mediadora entre Deus e o mundo e proporciona à humanidade a sua redenção. O seu surgimento (do abismo profundo, sinônimo do ventre primordial, de uma Deusa mãe) confirma a sua origem e natureza feminina e co-participante no processo de criação. A natureza de Hokhmah é a própria Lei da Vida, mescla de amor e conhecimento que traz à humanidade tanto a alegria, quanto o sofrimento. Ela é o espírito invisível que guia a vida dos humanos e os convida através das mulheres a participarem da sua hospitalidade e buscarem seus conselhos, como é descrito nestes versos:

"A sabedoria construiu Sua casa sobre sete pilares, preparou uma farta mesa e enviou Suas mulheres para convidar aqueles que queriam ter a visão para compartilhar do seu pão e do seu vinho".

(Provérbios 9:1-6).

"...saibam que não dedico meus esforços apenas para mim, mas para todos aqueles que buscam sabedoria. Meus pensamentos são mais amplos que o mar e meus conselhos mais profundos que o grande vazio...".

(Livro de Ben Sirach 24:3-6)

Os livros mais antigos da bíblia que falam sobre a sabedoria baseados em compilações de textos arcaicos de Suméria, Babilônia e Egito, preservam as qualidades de sabedoria de deusas como Nammu, Inanna, Cibele, Isis, as Rainhas do céu e da Terra que antecederam por dois milênios a cultura hebraica e grega. Muitas destas imagens e atributos constituíram a base dos textos do Velho Testamento, em que a sabedoria aparece como uma árvore com fruto, um manto que envolve e protege, uma figura velada e misteriosa, um símbolo mítico da divindade feminina.

A sua mudança da representação metafórica da sabedoria no judaísmo, personalizada nos textos posteriores (hebraicos, gnósticos, cabalísticos e helenísticos) para Espírito Santo e Logos foi embasada em distorções de palavras e gêneros na língua hebraica e grega. De Hokhmah - palavra feminina em hebraico- chegou-se ao termo grego neutro Hagion Pneuma e ao masculino Logos, depois ao conceito latino e masculino do Spiritus Sanctus, apesar da sua imagem ser a pomba, totem da Deusa Mãe. A transição da sabedoria como atributo da Mãe Deusa até sua transformação no Espírito Santo dos evangelhos gnósticos e cristãos aparece nos Livros dos provérbios (400 a.C), Ben Sirach (200 a.C.), O canto de Salomão, o Livro de Enoch (100 a.C.).No livro de Ben Sirach “a sabedoria é criada da boca do Altíssimo, que fez sozinho a abóbada celeste, os mares e a terra, e que lhe determinou morar somente em Israel”, privando assim o resto da humanidade da qualidade universal da sabedoria. A real fonte da compreensão intelectual, do esforço e da realização foi transformada no Torah, que à sua vez passou a ser declarado o receptáculo da própria sabedoria identificada pelo Logos, a palavra. A jornada da sabedoria da Terra para o céu foi descrita desta forma:

"A sabedoria tentou fazer sua morada no meio dos filhos dos homens, mas não encontrou lugar para ficar e retornou à sua origem, entre os anjos".

(Livro de Enoch, 42:1)

Como punição pela perda, os pecadores seriam punidos, as pessoas comuns não mais podiam reverenciar as leis da natureza, que iriam ser interpretadas por mestres, padres e homens de lei, os únicos autorizados para compreender os escritos sagrados.O Torah foi visto como escrito pelo próprio Deus e a natureza feminina e universal da sabedoria foi abolida, considerada um compromisso com a lei de punição e recompensa.

O verdadeiro significado da sabedoria não se perdeu mas ressurgiu de outra forma, como Sophia, no Livro de Sabedoria de Salomão, escrito em grego no primeiro século a.C. em Alexandria, por autores judeus não tradicionais com orientação helenística e com comentários de mulheres de um grupo místico chamado Therapeutae. Nele a descrição de Sophia (“a qualidade elevada da alma”) é muito semelhante a Hokhmah bíblica, mas com poderes expandidos, como podemos ver nos versos a seguir:

"Ele deu-me o conhecimento de tudo que existe, para compreender a ordem do mundo e a ação dos elementos, o início, meio e final do tempo, a mudança das estações, os ciclos dos anos e a posição das estrelas, a natureza dos animais, as espécies das plantas, as virtudes das raízes, as forças dos espíritos e o raciocínio dos homens".

(Livro de Sabedoria do Salomão, 7:17-20).

Sophia se revela uma divindade feminina, atributo de sabedoria da natureza acessível às mulheres, que ficou degradada ao se tornar possessão humana e apenas um veiculo para a grandeza masculina e por isso aos poucos desaparecendo. Interpretações posteriores consideram a Sabedoria o Espírito Divino, um atributo radiante e reflexo luminoso de Deus ou o próprio espírito criador, a centelha divina presente nos humanos e em toda a natureza. Ela pode ser vista como criadora por ter feito o mundo e conhecer suas leis, que compartilha com os seres humanos.

A atividade mental, a capacidade criativa, portanto, pertencem também às mulheres, permitindo-lhes assim confiar no seu intelecto e raciocínio lógico. Deus é considerado a fonte do conhecimento, mas cuja origem é a própria sabedoria, contida nas leis naturais e não confinada em um livro bíblico. A sabedoria é definida como: inteligente, sagrada, única, diversa na manifestação, sutil, móvel, clara, pura, singela, bondosa, invulnerável, beneficente, irresistível, perspicaz, humana, firme, segura, livre da ansiedade, poderosa, vê tudo e permeia os espíritos inteligentes, puros e bondosos.

Porém, depois dos capítulos iniciais do livro em que se enumeram as 21 qualidades de Sophia, ela passa a ser vista como uma mulher com que os homens desejam se casar e considerá-la uma maneira para aumentar seu próprio poder. A sabedoria tornou-se assim um objeto a ser possuído pelos sábios, garantindo-lhe poder e vitória sobre os inimigos, sucesso nos negócios e felicidade doméstica, perdendo seus aspectos universais e sagrados. Especula-se que os capítulos foram escritos por pessoas em épocas diferentes, mas o mistério não foi resolvido.

Reflexos da Hockhma hebraica são encontrados nos hinos órficos, 80 poemas que honravam várias divindades gregas, atribuídos a Orfeu e usados em rituais entre 300 a.C. e 500 d.C. Independentemente dos seus nomes, as deusas honradas eram manifestações da Grande Mãe, o principio divino feminino universal, existente e manifestado nas leis da natureza, conhecido como Hockhma ou Sofia, a Sabedoria, com os mesmos atributos e qualidades citados nos livros hebraicos. Todavia, a mudança histórica do sagrado feminino para o monoteísmo patriarcal levou aos poucos ao esquecimento e diminuição de status das deusas do Oriente próximo e da Grécia, antes cultuadas e honradas. Expandindo a noção da divindade acima da compreensão humana a sabedoria perdeu seu aspecto telúrico, a mulher foi dissociada da imagem da Deusa e passou a ser menosprezada como manifestação do pecado e do mal. Espírito e natureza tornaram-se polaridades opostas e simbolizadas pela Sophia celeste e a Eva terrestre.

Com o advento do cristianismo o arquétipo feminino foi totalmente eliminado da ligação com o divino, a matéria decretada inferior ao espírito, o atributo de sabedoria associado com Jesus e depois transformado na terceira figura da trindade masculina, o Espírito Santo. A conexão entre Sophia, a Mãe Divina e seu filho Cristo é perdida, Jesus nasce como filho de Deus Pai e de Maria (simples mortal) e assume as qualidades de Sophia, a sabedoria passando a ser atributo masculino. Hockhma hebraica ou Sophia gnóstica são totalmente negadas como aspectos divinos femininos e jamais é feita alguma menção à sua existência prévia nas escrituras cristãs. A sabedoria é personificada por Jesus como o mediador entre o plano divino e material e cuja missão era salvar as almas e não mais orientá-las para se tornarem “moradas da sabedoria”. Jesus, apesar da sua associação pelo apóstolo posterior pelo apóstolo Paulo com os atributos e títulos da sabedoria, nunca afirmou ser ele a Sabedoria divina. O enfoque passou a ser a salvação, conseguida ao pertencer ao cristianismo, que privou assim a alma da união mística do criador com a criação, separando os processos físicos, mentais e espirituais e levando ao distanciamento da natureza e à inferiorização da mulher.

As seitas gnósticas que preservaram a associação mítica entre a Deusa e a imagem de Sophia como personificação da sabedoria divina feminina, foram proibidas no ano 326 pelo imperador Constantino. Sophia ou Sapientia (que emerge do mar e de cujos seios jorram o vinho vermelho e branco da iluminação pela união das polaridades) reaparece apenas na Idade Média nas obras de vários filósofos, ordens iniciáticas (Templários, Cátaros, Graal) alquimistas e trovadores. A natureza lunar de Sapientia é representada nas suas duas faces, uma clara, outra escura e que está presente nas figuras das duas Marias, a Mãe (doadora da luz) e a consorte (Madalena que detém o conhecimento da sabedoria oculta). A igreja ortodoxa preservou por um bom tempo o titulo grego de Sophia como sendo a sabedoria divina (Hagia Sophia) dedicando-lhe inúmeras igrejas, inclusive a basílica bizantina. Santa Sofia foi uma adaptação da Grande Mãe gnóstica simbolizada pela pomba de Afrodite e depois transformada no Espírito Santo.

Por ser a natureza desvalorizada na comparação com a salvação e as mulheres sendo a ela associados, surgiu a doutrina do controle e autoridade masculina, a dominação do mundo material e exploração das mulheres. Esta teoria foi reforçada pela culpa atribuída à mulher pelo pecado original e a origem dos males no mundo. A demonização das mulheres e da natureza enfatizou a supremacia masculina, divina e humana, premissa que incentivou as horrendas e cruéis perseguições da Inquisição na Idade Média.

O que importa para nós mulheres é lembrar que Hagia Sophia é uma energia divina feminina, mediadora entre o céu e a Terra, que detém e compartilha o conhecimento universal do Logos e da sabedoria ancestral. Ela existe em todas nós mulheres e agora chegou a hora de prestar atenção à sua voz e agir de acordo com as leis da natureza, onde é sua morada, buscando inspiração, conhecimento intelectual e sintonia espiritual. Quanto mais conscientes agirmos na nossa vida, mais poderoso e recompensador será o conhecimento que encontraremos, fruto da árvore da sabedoria e verdade.

Conscientes do nosso poder e da habilidade de criar, poderemos assumir nossa condição inata de Filhas da Sophia, sacerdotisas da dança sagrada da vida e da Terra, artesãs dos nossos sonhos e realizações, reconhecendo e honrando a unidade e a interdependência da luz e escuridão, silêncio e palavra, razão e intuição, Espírito e matéria.

fonte do texto: http://www.teiadethea.org/?q=node/142

fonte da foto: profeciasoapiceem2036.blogspot.com