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25 de mar de 2011

Deus Apolo

Leto na Ilha de Delos

Delos, ilha sagrada do arquipélago das Cíclades, não estava no local onde atualmente se encontra. Era uma ilha flutuante, vagando incessantemente pelos mares. Um dia uma linda deusa, com terror e agonia estampados no rosto, pôs os pés naquela ilha. Era a deusa Leto e trazia no ventre dois filhos de Zeus, Apolo e Ártemis.

Amaldiçoada por Hera – a legítima esposa de Zeus –, que pediu à deusa Gaia, a Terra, que não desse abrigo para Leto, afim de que não conseguisse dar à luz aos frutos do adultério de seu marido, a mãe de Apolo estava impossibilitada de dar à luz em qualquer terra que se ligasse a Gaia, a deusa Terra, além de ser perseguida por um monstro denominado Píton, que Hera havia enviado atrás de Leto para não deixar que permanecesse tempo o suficiente para dar à luz em lugar nenhum. Até chegar em Delos. A qualidade de ilha flutuante - em algumas tradições criada especialmente por Possêidon, deus dos mares e tio de Apolo e Ártemis - de ser um espaço de terra não ligado a Gaia, fazia com que a ilha de Delos, ao contrário dos territórios da Ática e Trácia e das ilhas de Lesbos e Quios, por onde a deusa passara anteriormente, pudesse guarnecê-la e escondê-la de Píton para que desse à luz a seus gêmeos divinos.

O nascimento de Apolo

Diante da promessa de Leto de que seu filho construiria um magnífico templo em homenagem e gratidão à ilha que ousou opor-se à vontade de Hera compadecendo-se de uma mãe que sofria inúmeras dores num eterno e infindável trabalho de parto, duas pedras monstruosas irromperam do fundo do mar e sobre elas apoiou-se a ilha. Dessa forma Delos estabilizou-se e acolheu Leto.

De imediato muitas deusas vieram auxiliar Leto no trabalho de parto. Menos a deusa Hera, que, ao tomar conhecimento de que Leto havia encontrado leito onde dar à luz, havia preso sua filha Eilítia, deusa das contrações do parto, afim de que o parto não pudesse se realizar. Por nove dias e nove noites fortes dores atormentaram a deusa. Mesmo Hera, após os longos dias e noites de sofrimento da parturiente, compadeceu-se das dores de Leto e libertou sua filha Eilítia para auxiliar no trabalhoso parto.

Quando na décima noite ela deu à luz a seus dois filhos, a escuridão noturna tornou-se um luminoso dia. O Sol [deus Hélios] surgiu majestoso no céu, lançando em direção à ilha seus raios de ouro. Não podia ser diferente uma vez que havia nascido o deus da luz, Apolo de cabelos dourados e sua irmã Ártemis, a deusa da noite enluarada.

Apolo tinha apenas quatro dias de vida e já era uma criança robusta, cheia de poderes divinos. Recebeu de seu pai, Zeus, um arco e uma lira de ouro, assim como sua irmã os recebera em prata. Todos eram obra do deus Hefesto, o deus do fogo e das forjas. Seu novo arco de ouro (algumas interpretações o colocam de prata) incentivou o jovem deus a iniciar uma caçada ao monstro Píton, que atormentara sua mãe durante a penosa busca por um solo para pari-lo.

Num instante Apolo voou ao Parnaso, onde o odioso monstro tinha seu covil. Até então ninguém ousara de indispor contra Píton, que espalhava por toda parte desgraças extraordinárias. Nos locais onde arrastava seu corpo de serpente a terra e seus frutos apodreciam e uma imundície se esparramava em tudo o que havia ao redor, enquanto os homens morriam assim que se deparavam com seu horroroso semblante. 

Essa terrível serpente, ao perceber que alguém ousara se medir consigo, saiu do covil escuro e seu corpo monstruoso escorregou por entre as rochas, à procura do inimigo. Tão logo viu que tinha diante de si o filho de Leto, ficou enlouquecido de cólera e sua boca viscosa espumava ódio. Píton ergueu-se, colossal, bem à frente de Apolo, como se, com seu volumoso corpo, desejasse ridicularizar a temeridade do deus menino.

A questão da busca por esse enfrentamento da fera interior, do ser umbrático, sombrio, indefinido e pantanoso representa uma katábasis – palavra grega que significa ‘descida às trevas’ – realizada por Apolo, um momento em que o deus confronta o desconhecido que já existia e influenciava antes mesmo de seu nascimento e que agora estava sendo posto em xeque. De certa forma a serpente Píton significa um lado obscuro da própria Leto, um lado que não queria os filhos, que queria mantê-los como uma parte de si mesma, eternamente em trabalho de parto. Para que Apolo pudesse nascer essa Píton, essa ‘mãe serpente’ teve de ser destruída. Já veremos como o grego coloca esse ‘desconhecido familiar’ em xeque.

Um pouco mais sobre a origem de Apolo

As opiniões acerca da origem deste deus divergem bastante: há quem lhe dê por berço a Ásia, fazendo dele, primitivamente, uma divindade Hitita (os Hititas eram a raça do povo da cidade de Ílion, ou Tróia); outros o dizem um deus da Lícia; outros ainda consideram-no uma divindade nórdica. A própria Ilíada apresenta-o como aliado dos troianos (asiáticos), o que a princípio parece muito estranho, visto tratar-se do deus grego por excelência. Somente as mais recentes tradições gregas contam que Apolo, filho de Zeus e de Leto (identificada com a noite e também denominada ‘Latona’) é irmão gêmeo de Ártemis, pertencendo à segunda geração dos Olímpicos.

Apolo mata Píton

Mais rápido que um raio, Apolo atirou sobre Píton uma única seta. Acertou-o bem no meio da testa. Um urro terrível encheu os barrancos das montanhas e o horrendo monstro, fatalmente ferido, ia batendo nas rochas e encostas do Parnaso. Seu corpo monstruoso se enrolava e desenrolava desesperado de dor e, num dado instante, arremeteu-se imenso para o alto e, antes que pudesse alcançar Apolo, caiu de novo, para não mais levantar.

A imagem de Apolo como um deus da luz que ostenta uma certa frieza em ação, um certo ‘sangue-frio’ e objetividade, destaca um lado mais sombrio, mais simbolicamente ‘lunar’ do deus. A princípio Apolo seria uma divindade noturna, como veremos adiante em ‘O Apolo simbólico’.

Apolo canta o Peã

Cheio de alegria por sua grande vitória, Apolo apanhou o amado instrumento, a lira dourada, e começou a cantar o Peã1 da vitória. O triunfo de uma grande façanha era agora acompanhado de um outro triunfo – e este não era nada além de uma canção. Mas pela primeira vez no universo ouviu-se uma canção tão magnífica. Pelos seus versos e pela melodia fazia desaparecer todo o contraste entre a luta selvagem e a paz, entre a destruição e a criação, entre a morte e a vida. Era uma canção que abalava com sua força e beleza. Uma canção que fazia o universo ficar mudo e os homens, que tanto padeceram por causa de Píton, arrepiaram-se de emoção, com lágrimas de alegria a lhes encher os olhos.

Quando Apolo terminou seu peã, um barulho espalhou-se por toda a parte. Era o barulho dos gritos e urros de júbilo dos homens ao ouvir aquele hino triunfal. É com justiça que, desde então, Apolo é também incontestavelmente o deus da música.

O Oráculo de Delfos e o Apolo Pítio

O deus enterrou Píton na encosta do monte Parnaso, sobre sua sepultura fundou um templo e um oráculo. Trata-se do famoso Oráculo de Delfos, que prediz aos homens as decisões de Zeus, pai de Apolo. A partir de então Apolo ganhou um de seus epítetos, o de Apolo Pítio, já que, na estrutura simbólica do mito, é comum deixar que parte desse monstro que se encontra e se derrota no interior viscoso e umbralino, torne-se parte integrante da personalidade do ser que o haja derrotado. Essa estrutura pode ser encontrada quando Jasão engana ou mata o dragão que guardava o velocino de ouro e, ao fugir, leva Medeia, sua futura esposa, que também era parte integrante do dragão, da mesma forma Hércules veste-se com a pele do leão de Neméia após matá-lo, ou Perseu usa a cabeça da medusa para salvar Andrômeda. [Mais detalhes em ‘O Herói de Mil faces’ de Joseph Campbell]

O Oráculo de Delfos estava, então, associado à práticas primitivas de invocação dos mortos, já que era realizado sobre o corpo putrefato da serpente Píton e, pode-se dizer, valia-se de sua força vital, de sua ligação com sua mãe Gaia, a Terra, para realizar suas predições. Dessa maneira o Oráculo de Delfos, assim como Apolo, também tinha sua ‘sombra’[Jung], seu enraizamento nessa dimensão ctônica (do grego chthón ‘terra, terreno’) do reino dos mortos e do contato com os ancestrais. 

A vidência ou mântica, na Grécia, é uma prática ligada ao transe e a sacerdotisa do templo de Apolo, a chamada Pitonisa (sim, também derivado da nossa velha amiga serpente), além de só poder fazer predições após ter passado por um estado de transe, também incorporava essa atmosfera perigosa, subterrânea, ligada à morte, às sementes e às famílias. 

Sentada sobre um banquinho em tripé forrado com peles de serpente e que se equilibrava sobre uma fenda no chão donde se desprendiam vapores que auxiliavam na entrada no estado de transe, a Pitonisa passava as mensagens divinas a sacerdotes que a interpretavam e passavam para o consulente. Quem fosse consultar o Oráculo de Delfos não podia travar contato com a Pitonisa, somente com os sacerdotes-intérpretes de Apolo.

Antes de Apolo a mântica (prática de adivinhação), estava ligada aos mortos e agora assumia a forma da mântica solar de Apolo, sem perder algumas características anteriores. O templo de Apolo em Delfos era um local de purificação, de cura de doenças, contendas e chagas, mas ao mesmo tempo estava intimamente ligado à terra, aos mortos, ao subterrâneo.

O bom pastor

Píton era filho da deusa Gaia, a Terra, que agora considerava Apolo um assassino por o haver matado. Segundo o antigo direito grego, a Têmis, uma justiça que pode ser compreendida como o ‘olho por olho’, Gaia tinha todo o direito de matar Apolo, castigá-lo ou puni-lo como lhe aprouvesse. Mas como o jovem deus também era predestinado a ser o deus que absolveria os pecados dos assassinos arrependidos (ver Apolo na Oréstia), era preciso que primeiro ele próprio se purificasse do crime. Resolveu, então, fazer isso mesmo, ainda que o assassinato que cometera tivesse sido uma bênção para deuses e homens. Por isso – em algumas interpretações por iniciativa própria e em outras por ordem de seu pai Zeus – despojou-se de sua substância divina e rumou para a Tessália, onde se tornou um humilde pastor a serviço do rei Admeto.

Coisas estranhas aconteciam quando Apolo saía para levar ao pasto os rebanhos de seu patrão. Quando o deus pegava a lira e dedilhava suas cordas, os animais selvagens, encantados, saíam da floresta e saltitavam alegremente ao redor dele, junto com os carneiros e as vacas. Posteriormente essa habilidade de Apolo foi herdada por seu filho Pan, o sátiro dos bosques.

Desde a época da chegada de Apolo a riqueza e a alegria inundaram a corte de Admeto: seus animais se multiplicaram, seus estoques se encheram de sacas e sacas de cereais, suas talhas transbordaram de azeite e vinho, de azeitonas e de manteiga. Carregados também estavam os muros e o teto, de onde pendiam pesadas sacolas com queijo e outros produtos comestíveis. Tudo do bom e do melhor, pois aquela cidade era a morada – ainda que inadvertidamente – do deus da abundância, da fartura e também ironicamente do métron, da moderação, do comedimento. Como Apolo poderia ser simultaneamente o deus de tais opostos? Veremos mais adiante.

Admeto, jovem e belo, orgulhava-se de sua riqueza. Montado em seu cavalo branco, saía para a planície, admirando seus rebanhos. Seus cavalos, cheios de vigor, beleza e agilidade, corriam pela vasta campina e seus bois puxavam com força o arado, que se metia bem fundo dentro da terra fértil, como se Gaia houvesse reatado amizade ou ao menos perdoado Apolo por sua humildade.

Não era de se admirar que muitos reis agora quisessem Admeto como seu genro e, para isso, lhe apresentavam as filhas. Porém seu coração era de Alceste, a belíssima filha de Pélias, o rei da vizinha Iolco.

A façanha de Admeto

Pélias, no entanto, não tinha a intenção de casar sua filha, pois queria que ela cuidasse dele em sua velhice – o que era a desculpa aberta para encobrir uma paixão platônica e incestuosa que o rei de Iolco sentia pela própria filha -. Por isso Pélias declarou que daria a mão de Alceste em casamento somente àquele que conseguisse atrelar a um carro (os gregos costumavam usar quadrigas e não bigas, como os romanos) um leão e um javali juntos.

Como alguém poderia atrelar lado a lado dois animais tão selvagens e diferentes, uma vez que até então ninguém ousara nem mesmo jungir apenas um deles? 

Admeto, no entanto, inflamado de amor por Alceste, decidiu enfrentar o grande desafio. Sua coragem, porém, não deixou de comover Apolo. O perigo de que o ousado jovem fosse despedaçado pelas duas feras era iminente e o deus de cabelos dourados resolveu ajudá-lo e dar a ele a força necessária para atingir seu intento. Assim o intrépido Admeto realizou a grande proeza exigida por Pélias e eis que agora corria em direção a Iolco, sobre o carro puxado por um leão e um javali juntos!

Cheio de admiração pela inacreditável façanha do rapaz – e um certo receio de que o jovem rei estivesse sobre a proteção de algum deus –, Pélias deu-lhe a mão de sua filha em casamento. Alceste sentou-se no mesmo carro e Admeto a levou em triunfo para o seu palácio, onde realizou um grandioso casamento.

Por nove anos o deus da luz teve de permanecer nas terras de Admeto. Ao término do nono ano, já purificado de seu crime, retornou a Delfos. Desde então Apolo é o deus do grande e nobre sentimento de perdão e protege todo o homem que mostrar um real arrependimento.

Estar em Delfos, onde agora erguiam-se o magnífico templo e o oráculo sagrado, muito agradava a Apolo que, contudo, não se esquecia de Delos, sua ilha natal. Muito menos da promessa que sua mãe, a deusa Leto, havia feito ali. Por isso, pouco tempo depois, um templo resplandecente, o templo de Apolo, distinguia-se entre todos os santuários de Delos.

Escravo de Dânao

Outras versões contam que Após matar Píton, Zeus mandara Apolo para o oriente, como escravo do rei Dânao, para que este dele se servisse como melhor o aprouvesse. Esse rei pediu a Apolo (e também a Posseidon que se encontrava juntamente com Apolo na condição de escravo) que construísse as muralhas da cidade de Ílion, também conhecida como Tróia. É por isso que as muralhas de Tróia não puderam ser derrubadas. Não foram construídas por mãos humanas e mãos ou armas humanas não seriam capazes de pô-las abaixo.

Esta teria sido uma outra forma de purificação para o crime de Apolo, que também pode ser lida como punição de Zeus contra uma outra revolta dos deuses olímpicos chefiados por Posseidon e Hera contra Zeus, mas essa é outra história.

No País dos Hiperbóreos

Também chegava o tempo em que deixava a Hélade (Grécia) para ir ao ilmunidado, ao fabuloso país dos Hiperbóreos, onde morava sua mãe. Apolo é um deus com traços pluriculturais e especialmente orientais e não é de se estranhar que sua mãe pudesse aparecer algumas vezes como ‘estrangeira’. O fato de ser um deus oriental explica a atuação de Apolo ao lado dos troianos na Ilíada, de Homero.

Apolo realizava uma longa, mas belíssima viagem para chegar àquele país encantador. Montado em um carro alado, puxado por dois grandes e branquíssimos cisnes, viajava por sobre as nuvens, deixando a Hélade (Grécia) para trás de si. Conforme rumava mais e mais para o norte, apareciam do alto as primeiras neves que cobrem os picos das montanhas, como se fossem capuzes muito brancos. Em seguida a neve ia ficando mais abundante, até que enfim, tudo o que se via abaixo do carro de Apolo parecia estar coberto com um alvíssimo lençol. No alto, porém, onde voava o deus de cabelos dourados, o tempo era como de primavera e os cisnes arrastavam incansavelmente o carro divino.

Enfim, prosseguindo ainda mais para o norte, a neve começava novamente a diminuir e ao longe, além do norte, sobressaíam os raios dourados do sol, que passavam pelas nuvens e iluminavam uma terra fascinante.

Esse era o país dos Hiperbóreos, do eterno e fresco verão, das muitas cores e da abundância de luz, das águas cristalinas e dos pássaros paradisíacos que cantavam docemente. A tradução de ‘Hiperbóreos’ é ‘habitantes além do Bóreas’ (o vento norte), um povo lendário que na imaginação mítica dos gregos morava na região norte do mundo, onde o sol nasci e se punha apenas uma vez por ano, e onde esse povo vivia em paz e era feliz.Segundo constava os Hiperbóreos tinham uma veneração especial por Apolo.

Estaria aí, talvez, a lembrança nostálgica dessas paragens longínquas, de onde os primeiros helênicos passaram à Grécia, no começo do décimo milênio antes da era cristã. Os gregos consideravam o Hiperbóreo um pouco à maneira da Etiópia e da Atlântida, como uma espécie de paraíso remoto, um sítio de recreio para bem aventurados, mal definido geograficamente. Foi de lá que partiu a flecha prodigiosa que formou, no céu, a constelação de Sagitário.

Mal o deus de cabelos dourados descia do carro e pisava a relva verde, uma verdadeira festa acontecia, com os pássaros que voavam entre as árvores e os raios dourados do sol. Gorjeavam de modo tão belo que pareciam até mesmo as melodias divinas da lira de Apolo.

Todavia, no mesmo instante, lá longe na Hélade, nuvens negras haviam coberto o sol. Fazia frio e chovia, porque o deus da luz tinha partido, porque chegava o escuro inverno – época em que Core, ou Perséfone, guiada por Hermes, voltava ao Hades para conviver com seu marido e, sua mãe, Deméter, deusa da terra e das estações do ano, entrava em profunda depressão -. Os homens, reunidos em torno do fogo, esperavam pacientemente pelo retorno de Apolo em luz e calor e de Perséfone, para que Deméter florescesse a terra.

O Hiperbóreo, então, era uma espécie de super-homem, vivente feliz, sábio, mágico até um certo ponto, e habitante de um país um tanto Utópico. É interessante verificar como, à medida que os deuses iam, passo a passo, se distanciando do mundo dos mortais e à medida em que estes mesmo mortais se distanciavam das ‘leis’ personificadas nestes deuses, o país dos Hiperbóreos começou a florescer para os homens como um Éden para os deuses, espaço em que eram valorizados ao máximo, glorificados e exaltados por um povo que poderia ser interpretado pelo povo helênico (o povo grego) como o povo merecedor dos deuses, o povo temente, sem disputas, sem cismas, a raça perfeita, o paraíso na terra. É plausível que essa comparação social feita pelos gregos aos seus ‘irmãos’ hiperbóreos tenha uma forte influência na continuidade da religião helênica. Como se o fato da crença nos deuses estar se tornando mais fluídica fosse também pelo fato desses mesmos deuses encontrarem quem os adore de maneira mais própria.

As desventuras amorosas de Apolo

Apolo e Dafne

Apolo amava muito o belo da vida. Uma vez, em Delfos, quando experimentava com as setas de ouro sua habilidade no tiro ao alvo, o jovem Eros, filho alado de Afrodite, apresentou-se diante dele. Parecia estar à procura de uma oportunidade de enlear o deus em alguma aventura amorosa.

Naquele momento a flecha de Apolo havia atingido o talo de uma maçã pendurada no galho de uma macieira distante. Eros apanhou então o seu arco e o ergueu, alvejando a mesma maçã antes que esta chegasse ao solo.

- Deixe-me atirar minhas setas em paz, menino! – Disse Apolo aborrecido. – E te faria muito bem não ousar medir-se comigo!

- Sei que suas flechas não erram o alvo – disse o risonho Eros -, mas as minhas também são infalíveis. 

Mais aborrecido ainda do que Apolo, Eros abriu as asas e voou para o alto do Parnaso. Em seguida puxou da aljava duas flechas: uma era a flecha que despertava o amor e a outra era aquela que o recusa. Com a primeira feriu Apolo direto no coração e com a segunda a ninfa Dafne, filha do rio Peneio, que àquela hora passava, desapercebida, perto do deus de cabelos dourados.

Apolo, atingido pela seta do amor, ficou maravilhado com a beleza da ninfa e seu porte delicado, e avançou para o lugar onde ela estava, com o intuito de lhe falar. Dafne, porém, atingida pela flecha que recusa o amor, assim que viu Apolo, afastou-se. Ele, então, se aproximou ainda mais, mas a ninfa, com passos ligeiros, foi para mais longe. Apolo com saltos rápidos tentou chegar perto da bela Dafne. E foi isso. Ela saiu correndo. Como louco o deus a perseguia, gritando-lhe para que parasse, mas ela corria cada vez mais.

- Pare, eu lhe peço! – implorava o filho de Leto. – Não quero lhe fazer mal!

Mas a ninfa de pés ligeiros não dava sinais de que iria parar e escapava dele continuamente. Apolo, por sua vez, também não desanimava e sempre a perseguia e a pedia que parasse: - Não tenha medo, bela ninfa. Por que foge como se algum animal selvagem a perseguisse? Não sou mal, sou Apolo, filho de Zeus. Ordeno a você que pare de correr assustada.

Por essa passagem percebe-se o ‘fino trato’ que Apolo possuía ao lidar com a natureza feminina, ao ‘ordenar’ que ela deixasse de se assustar com ele.

Mesmo com toda a ‘sensibilidade’ de Apolo, Dafne continuava a correr. Ora Apolo se aproximava dela parecendo que iria alcança-la, ora ela se distanciava dele com um súbito solavanco. Em seguida ele a alcançava de novo, pronto para tocá-la, mas mais uma vez a ninfa escapava, como uma borboleta assustada.

O deus de cabelos dourados, no entanto, não parecia estar disposto a parar sua desenfreada perseguição. A flecha de Eros havia despertado nele uma paixão feroz.

- Por mais que ela resista, uma hora se cansará e eu a alcançarei. – E, de fato, Dafne começou a ficar cansada. O deus da luz aproximava-se cada vez mais... e eis que estendia os braços e chegava perto de tocá-la, de apanhá-la...

- Oh, deuses! E você, meu pai, por que me deixas cair nas mãos de Apolo? Não o quero para meu amante! Melhor eu me transformar numa pedra ou numa árvore, do que ser tocada por alguém que não amo! Ainda que seja ele um deus!

A Metamorfose de Dafne

E, realmente, naquele instante, Dafne enrijeceu-se. De seus braços e cabelos despontaram galhos e folhas, enquanto seu corpo tornou-se o tronco de uma árvore. Assim, a jovem ninfa se transformou no perfumado loureiro, que todos conhecemos. Apolo, em alta velocidade, em vez de agarrar a linda moça, agarrou a copa de uma árvore.

Uma grande tristeza se apossou então do deus da luz. Ficou muito aflito por ter causado o desaparecimento da ninfa que ele amara tão repentina e fervorosamente. Com olhos tristes, acariciou as folhas do cheiroso loureiro e, em seguida, cortou um ramo e o colocou na cabeça. Nunca Apolo esqueceria a bela a indomável ninfa. E é por isso que muito frequentemente ele se apresenta com folhas de louro à cabeça.

Apolo e Marpessa

Apolo jamais de casou. Era o mais belo de todos os deuses, levava sua vida como lhe agradava, e estava satisfeito2. No entanto uma vez prometeu casamento, mas nem nessa ocasião era seguro que permaneceria fiel e, felizmente, o casamento não aconteceu.

Isso ocorreu com Marpessa, a filha do rei da Etólia. O pai da moça, o rei Eveno, era muito duro com ela, mas também era um guerreiro digno e valente. Tomou então a decisão de que daria sua filha em casamento somente àquele que o vencesse em um duelo de carros.

Pela mão da formosa Marpessa e pela sua abundante fortuna, muitos tiveram a coragem de duelar com Eveno, mas todos foram mortos e ninguém mais ousava se medir com ele. Até que um dia apresentou-se diante de Marpessa, montado em Pégaso, um cavalo alado, um lindo e audacioso rapaz. Esse era o invencível herói Idas, filho do rei da Messênia.

Marpéssia, que havia escutado muitas histórias sobre as proezas de Idas, ficou aterrorizada ao vê-lo. Melhor não se casar nunca do que tomar como esposo aquele que matasse seu pai. Afinal, Eveno não tinha que lutar agora contra um rapaz qualquer, mas com o célebre herói Idas, que poderia matá-lo.

Marpessa e Idas

O herói, ao ver o rosto assustado de Marpessa, percebeu o que ela estava pensando e lhe disse bondosamente:

- Ouça, linda princesa: não vim para assassinar o seu pai. Nem desejo a sua riqueza, nem o seu trono. Venha, pois, para que fujamos antes do dia nascer.

Marpessa, ao ouvir as sensatas palavras do gentil rapaz, sentiu-se envolvida pela felicidade e prontamente aceitou acompanhar Idas. Ele a fez montar o belo Pégaso, que fora presente do deus Posseidon, e agora corriam rapidamente para a Messênia.

Assim que o rei Eveno tomou conhecimento de que sua filha havia fugido com Idas, chamou Apolo em seu auxílio. O deus de cabelos dourados, que amava Marpessa, aceitou de bom grado ajudá-lo e, como um raio, os dois partiram para alcançá-los.

Entretanto, enquanto atravessavam o rio Licormas, Eveno foi arrastado por suas furiosas águas.  Apolo correu e conseguiu apanhá-lo, mas já era tarde: Eveno tinha morrido. O deus da luz prometeu então ao rei morto que tomaria Marpessa de Idas e a tornaria sua mulher, que seu neto seria um famoso herói. Disse-lhe ainda que, mesmo morto, seu nome seria imortal, porque aquele rio que lhe tomara a vida passaria a se chamar Eveno. E, tendo dito estas palavras, como um raio partiu novamente ao encalço de Idas que, antes de conseguir chegar à Messênia, viu-se face a face com Apolo.

A luta de Apolo e Idas

Idas percebeu de imediato o que o deus queria e, em vez de recuar, entrou rapidamente na frente de Marpessa para protegê-la, enquanto seu olhar taciturno mostrava que estava pronto para tudo. Ele, que não quisera duelar com Eveno, não hesitava agora em se indispor com um deus! Assim, os dois rivais não demoraram a começar a briga.

A luta entre Idas e Apolo foi terrível. Impulsionado por seu amor por Marpessa, Idas avançou sobre Apolo como um leão e Zeus, notando a batalha do alto do Olimpo, quis apartá-los, o que parecia impossível, até que o rei dos deuses decidiu lançar um relâmpago no meio deles.

Ao se separarem o deus dos raios ordenou que lhe pusessem a par do que estava acontecendo:

- Zeus, meu pai – disse Apolo – quero Marpessa para minha esposa e é um grande desrespeito que um mortal queira me impedir!

- Pai dos deuses e dos homens – disse Idas – Marpessa é minha e nada irá me fazer recuar!

Zeus ficou pensativo por alguns instantes e em seguida, virando-se para Marpessa, disse-lhe:

- Linda princesa, você tem todo o direito de escolher sozinha o marido que deseja e eu lhe prometo que será como você decidir!

Marpessa, tendo primeiramente agradecido humildemente ao grande Zeus por aquela decisão, voltou-se para o deus da luz e lhe disse:

- Apolo, você é um deus. Goza e sempre gozará de eterna juventude, jamais envelhecerá. Eu, porém, ficarei velha um dia e, então, você me abandonará. Senhor Zeus, há anos vivo sofrendo, destinada a tomar por esposo, caso venha a me casar, o assassino de meu pai. Apenas Idas demonstrou ter amor, sabedoria e bravura sem igual entre todos os meus pretendentes. Eu o amo e quero me tornar sua esposa.

E assim foi, Apolo se submeteu à vontade de Zeus e, cheio de admiração pelo bom senso de Marpessa e pela audácia de Idas, desejou-lhes que vivessem felizes e partiu para Delfos.

Cassandra

Apolo também apaixonou-se por Cassandra, filha de Príamo, o sábio rei de Ílion (Tróia) e ela lhe prometeu que, se o deus da luz lhe ensinasse a arte da predição, a sua mântica solar, ela, de posse dessa habilidade, se entregaria a ele. 

Apolo então a acolheu como sua sacerdotisa e a ela foi ensinada a arte da adivinhação, da interpretação da vontade de Zeus, ou da vontade das Moiras, as deusas que fiavam o destino dos homens. Ao final de seu período como neófita nas artes de Apolo, Cassandra se recusou a entregar-se ao mais belo dos deuses e Apolo, ultrajado por haver sido descartado, cuspiu na boca de Cassandra gerando um miasma, uma chaga, que impedia qualquer pessoa de acreditar nas predições de Cassandra, muito embora ela nunca houvesse errado uma única vez sequer.

Um outro efeito do miasma de Apolo foi uma espécie de ‘histeria’ que fazia com que a profetisa não conseguisse se conter ao fazer previsões, que as fizesse sempre aos berros, sacudindo o corpo e arrancando os cabelos, de forma que nunca era acreditada, como quando profetizou que o Cavalo dos gregos, dado de presente para a cidade de Ílion (Tróia) após dez anos de guerra, estava repleto de soldados que incendiariam a cidade à noite.

Calíope

A união de Apolo com a ninfa Calíope deu nascimento ao músico e herói Orfeu. É significativo que tanto Pan quanto Orfeu, conhecidos por sua habilidade musical, sejam filhos de Apolo, o deus da música. Calíope morreu no parto.

Corônis

A bela Coronis, filha de Flégias, rei dos Lápitas, da Tessália, fugia das investidas de Apolo, que conseguiu encurralá-la numa caverna e lá a forçou a entregar-se a ele. Ao saber que Corônis o havia traído, Apolo flecha a princesa na barriga, mas salva o próprio filho, Asclépio, que se torna o patrono da medicina.

Cirene

Depois de várias desventuras amorosas frustradas, Apolo resolve se consultar com seu pai Zeus, que, ao contrário do absurdamente belo filho, não perdia uma conquista amorosa. Zeus lhe aconselhou que, para que se aproximasse de sua escolhida, Apolo se metamorfoseasse em um animal e brincasse um pouco com ela para deixá-la mais à vontade, para que não fugisse dele como era o ‘modus operanti’ das vítimas dos flertes do deus da luz.

Então Apolo, enamorado da náiade Cirene, metamorfoseou-se em uma pequena tartaruga (convenhamos: Zeus se metamorfoseava em cisne, urso, chuvas de prata, tinha um pouco mais de charme) e Cirene se interessou pela pequena tartaruga. Pegou-a, acariciou, brincou com sua cabeça e, já e sentindo bem à vontade com o pequeno réptil, colocou-o em seu colo e o abraçou. Apolo não se contendo mais abriu a boca em direção ao seio de Cirene e o abocanhou com força tal que jorraram gotas de sangue enquanto a bela náiade se desvencilhava do pequeno animal traiçoeiro jogando-o longe.

Ao som da Lira de Ouro

Apolo não conhecia a aflição e, de posse de sua lira, espantava toda e qualquer preocupação e concedia tranquilidade e alegria. Frequentemente tocava seu amado instrumento nos banquetes do Olimpo. Quando o deus de cabelos dourados encostava os dedos nas cordas mágicas de sua lira de ouro, as nove Musas corriam alegres para o seu lado e começavam a cantar. Todo o palácio se enchia de doces melodias divinas. Logo vinha a vontade de dançar, saltavam imediatamente as Musas e as Graças e com elas a belíssima Afrodite. Quanto mais aumentava a alegria no Olimpo, mais diminuía a infelicidade na Terra.

Apolo também tinha filhos. Um deles era Pã de pés de bode, o deus dos bosques. Outro filho seu era o célebre médico Asclépio. Sua mãe era Corônis, filha do rei da Tessália. Porém, ela morreu assim que deu à luz. Seu pai então entregou-o nas mãos do maior preceptor que havia no mundo: o centauro Quíron, que morava no verdejante Pélion. Foi junto a Quíron que Asclépio aprendeu tantas coisas sobre medicina e, por fim, superou seu mestre. Além de não haver doença que ele não pudesse tratar, chegou mesmo a ressuscitar mortos! Entretanto, esse grande bem para a humanidade não haveria de durar muito...

Asclépio

Hades, o inominável, irmão de Zeus e senhor do mundo subterrâneo também denominado Hades, foi se queixar ao seu irmão Zeus da ressurreição dos mortos, pois teve medo de que o reino do mundo inferior ficasse vazio.

O soberano dos deuses e dos homens, ao ouvir falar da ressurreição dos mortos, pôs-se de pé de um salto, cheio de ira. Suas sobrancelhas se franziam, seus olhos ganharam um brilho de cólera e imediatamente nuvens negras encheram o céu. Começou a relampejar e a trovejar, abalando a terra como se o céu inteiro viesse abaixo.

- Quem é ele para querer modificar a ordem e as leis que existem no mundo? – Gritou com voz de trovão. E, com um raio, atingiu Asclépio imediatamente o enviou ao reino do Hades.

Apolo chorou a perda do filho, porém os homens choraram ainda mais, pois o adoravam, mais até que a muitos deuses. Entretanto, mesmo do reino do mundo inferior, Asclépio tinha forças para ajudar os homens e curar doentes. Toda a Grécia estava cheia de templos de Asclépio e de ‘asclepeions’, que eram como hospitais ou centros de cura, construídos no ponto mais saudável de uma região. Neles os sacerdotes do ‘deus-médico’ cuidavam dos doentes com conselhos, plantas e orações.

Asclépio ainda contava em seu trabalho com a ajuda de suas filhas, a deusa Hígia e a deusa Panacéia3. A primeira cuidava para que os homens vivessem de forma saudável, para não adoecerem, e a segunda era uma importante farmacêutica. Tinha elaborado ainda um remédio que levava seu nome. Como a ‘panacéia’ não havia outro, era um remédio muito raro, mas curava todas as doenças. Assim diziam...

Apolo e Hélios, quem diabos é o deus-Sol?

Sendo o deus do dia e da luz, Apolo não era, contudo, o próprio sol. Conduzia apenas o seu carro, o carro do Sol, e, no desempenho dessa função, tinha o nome de Febo. Vivificava os seres, fazia germinar as plantas e amadurecer os frutos e as searas, purificava a atmosfera e destruía os miasmas, mas era ele igualmente o deus da canícula, das secas; o deus forte e sempre vitorioso, mas também o deus que mata. 

Hélios era o deus-Sol, o sol em si, o astro, filho dos titãs Hipérion e Téia, irmão de Eos, deusa da aurora e de Selene, a Lua. Era uma divindade muito atarefada em percorrer o mundo e pouco se envolvia nos assuntos de deuses e homens. Tem uma participação importante em Homero, na Odisseia, onde, em sua ilha, tem seus bois roubados e assados pelos homens de Ulisses.

Apolo na tragédia grega

O Apolo da Oréstia

A Oréstia é uma tragédia de Ésquilo, autor de Prometeu Acorrentado e Os Persas. A Oréstia demonstra de maneira espetacular o conflito que se forma entre o poder decrescente dos deuses e da sua justiça arcaica, a Têmis, e o poder ascendente do homem grego dentro da Polis democrática. O conflito básico em Ésquilo (e também em Sófocles) se dá entre o Cosmo legitimado dos deuses e o poder profano, a independência do homem arquitetada no seu arbítrio que lhe conferia também a responsabilidade por seus atos. Esse homem da Polis grega, responsável por seus atos, é o ‘homem trágico’ de Vernant em sua obra “Mito e Tragédia na Grécia Antiga”.

O Apolo da Oréstia é um deus Kourós (jovem entre 18 e 19 anos, ainda não adulto e já não mais criança, espécie de pós-adolescente), ligado à iniciação, um guia iniciático de adolescentes em ritos de passagem. O papel do Oráculo de Delfos na Oréstia está ligado à passagem da Têmis (justiça dos valores Homéricos, do pensamento mítico e do homem como objeto dos deuses) para a Dike (justiça alicerçada nos valores da Polis e do cidadão, do homem como sujeito dotado de livre-arbítrio), a um processo de moralização da cultura grega para os moldes da Polis, com a responsabilidade individual como um grande marco, o horror ao crime como uma nova perspectiva e tendo o auto-conhecimento, o famoso ‘conhece-te a ti mesmo’ (em grego gnoti sáuton) inscrito no portal do templo de Apolo, como um conhecimento dos próprios limites, como uma recomendação do métron (a ‘moderação’).

O funcionamento do ‘conhece-te a ti mesmo’ de Apolo e a lógica interna da atuação, a princípio incoerente do deus, é expresso perfeitamente na Oréstia.

O primeiro passo é forçar o indivíduo a ir ao seu limite, a cometer um crime, uma Lyssa, uma hamartia, uma ‘falta trágica’, ir às trevas de seu ser, literalmente descer ao mais baixo ponto em que aquele ser humano em especial pode chegar. Apolo, na qualidade de deus de uma tradição patriarcal, pede a Orestes que ‘vingue o assassinato de seu pai’. Orestes, para ser guiado por esse Apolo Kourós, por esse Apolo guia dos jovens em seus ritos iniciáticos, estava com seus 15 ou 16 anos.

O segundo passo é descer às trevas interiores, efetuar a Katábasis, que implica em realizar a hamartia, a descer no mais profundo de sua alma, a conhecer, por dentro, as trevas interiores do próprio inconsciente, da própria alma, pois para que Orestes pudesse se vingar do assassinato de seu pai era preciso que ele assassinasse também quem havia tomado a vida de seu pai, e essa era sua mãe, Clitemnestra que, após alguns anos de guerra em que seu marido, Agamêmnon, ficou em terras estrangeiras para resgatar a esposa do irmão, Helena, esposa de Menelau, uniu-se com Egisto, o primo de seu marido, com o qual tramou e executou a morte de Agamêmnon, pai de Orestes. E Orestes, por instrução de Apolo e com a ajuda da irmã Electra, mata a mãe e o tio, chega ao fundo de seu inconsciente, ao limite trágico de sua existência.

O terceiro passo é o resgate de Orestes, quando pensa que estará livre de qualquer sanção por haver executado a mãe a mando de Apolo, o espírito da mãe invoca as Eríneas, deusas ancestrais que salvaguardavam a família e o poder do matriarcado para seguir o filho invocando-lhe a culpa e a loucura. Orestes foge das Eríneas e vai ao templo de Apolo em Delfos para que o deus o salve dessa culpa e dessa loucura que o perseguem sempre de perto. É aí que Apolo aparece, como personagem, na Oréstia, em sua terceira parte, nas Eumênides:

Falas de Apolo como guia iniciático, dirigindo-se a Orestes:

- Jamais te trairei! Serei até o fim teu guardião fiel, quer esteja a teu lado, quer nos separem distância intermináveis e em tempo algum protegerei teus inimigos. 

- Deves, porém, fugir daqui e ter cuidado. Elas querem continuar a perseguir-te e te procurarão por todos os lugares, tentando sempre te expulsar de onde estiveres em tuas longas caminhadas sem destino, além do mar e das cidades que ele cerca. E não te deixes dominar pelo cansaço enquanto pastoreias tuas desventuras; mas, quando perceberes que afinal chegaste À nobre cidade de Palas (Palas Atena, a deusa, a cidade referida é a cidade de Atenas), ajoelha-te e abraça a imagem antiquíssima da deusa...

Fala de Apolo como representante da nova geração patriarcal de deuses e sem respeito pela antiga geração:

- Já podes ver as fúrias dominadas; vencidas por pesado sono, ei-las imóveis, estas virgens malditas, filhas antiquíssimas de um passado remoto (...) criaturas malditas por todos os homens e pelos deuses que se reúnem no Olimpo.

Apolo envia Orestes para Atenas pois não pode efetuar a viagem para Orestes, não pode tirar de Orestes o mérito por haver ido ao mais fundo de seu ser, ao seu último limite, e ter retrocedido plenamente consciente de quem é de que escolhas é capaz. Esse Apolo é plenamente consciente de seu papel como guia e protetor.

Na qualidade de deus purificador, de deus da luz, em contraposição às sombras, aos fantasmas representados pelas Eríneas, essas antigas deusas protetoras do matriarcado e da dimensão pantanosa, nebulosa, terrena e aquosa do princípio feminino, Apolo sai de seu templo infestado pelas Eríneas com o arco na mão pronto para ser usado. Após humilhá-las verbalmente nos versos 235 ao 254:

- ‘Abandonai agora mesmo a minha casa! Ordeno-vos! Deixai em paz o santuário onde proclamo profecias verdadeiras; se não obedecerdes sereis atingidas pelas serpentes sibilantes de asas brancas (referência às próprias flechas) que, saltando da corda de meu arco áureo, vos forçarão a vomitar, entre estertores a negra espuma que deveis a tantos homens e a expelir o sangue que sugaste deles!’, demonstra como a questão da aparência é importante para Apolo:

- ‘E vosso aspecto é condizente com tal gosto’. 

A estratégia argumentativa de Apolo para com as Eríneas é impressionante em sua capacidade de reverter os ditos das antigas deusas, mas contém seus hiatos porque coloca em conflito direto duas lógicas essencialmente contrárias e complementares, o matriarcado e o patriarcado. Ao mesmo tempo em que cumpre às Eríneas ‘expelir do lar os matricidas’ [verso 245], Apolo relativiza a questão perguntando-lhes o que faziam quando a mulher, Clitemnestra, mata o marido, Agamêmnon.

Uma questão que fica levantada é a de que, ao instruir Orestes a que procure a deusa Atena ao invés dele mesmo, Apolo, eliminar as Eríneas, Apolo estaria apenas ciente de que Orestes precisava expiar ainda mais sua culpa e a ‘loucura’ de haver chegado ao ponto de assassinar a própria mãe, ou se ele mesmo, Apolo, possuía discernimento suficiente sobre si mesmo para perceber que julgaria Orestes sem uma visão clara do lado representado pelo fantasma de Clitemnestra e suas Eríneas, do lado matriarcal. Ou será que Apolo, como deus das predições, sabia do destino das Eríneas, que haviam de se transformar em Eumênides e mudar sua natureza, ou da importância da criação do tribunal em Atenas para julgar o crime de Orestes?

O Apolo simbólico

Ao surgir durante a noite, na Ilíada, Febo Apolo, deus do arco de prata (canto1), brilha como a lua. Será preciso levar em conta a evolução dos espíritos e a interpretação dos mitos para que se possa reconhecer nele, muito mais tarde, o deus solar, o deus de luz, e para entender que seu arco e suas flechas sejam comparados ao sol com seus raios. Originalmente talvez se relacionasse mais à simbólica lunar. Apresenta-se no canto 1 acima mencionado como um deus vingador de flechas mortíferas: O senhor arqueiro, o toxóforo, o argirotoxo (que tem o arco de prata).

De início revela-se sob o signo da violência e de um orgulho desvairado. Mas, ao reunirem-se elementos diversos de origem nórdica, asiática e do mar Egeu, esse personagem divino torna-se cada vez mais complexo, sintetizando em si inúmeras oposições que consegue dominar, terminando por encarar o ideal de sabedoria que define o milagre grego. Realiza o equilíbrio e a harmonia dos desejos, não pela supressão das pulsões humanas, mas por orientá-las no sentido de uma espiritualização progressiva que se processa graças ao desenvolvimento da consciência. 

Deus muito complexo, terrivelmente banalizado quando o reduzem à figura de um homem jovem, sábio e belo, ou quando – numa simplificação do pensamento de Nietzsche – o opõem a Dioniso, como a razão contraposta ao entusiasmo. Pelo contrário, Apolo é o símbolo da vitória sobre a violência, do autodomínio do entusiasmo, da aliança entre a paixão e a razão – filho de um deus (Zeus) e neto (por parte de sua mãe, Leto) de um Titã. Sua sabedoria é fruto de uma conquista, e não uma herança. Todas as potências da vida nele se conjugam a fim de incitá-lo a não encontrar seu equilíbrio senão nos pináculos, e para conduzi-lo da entrada da caverna imensa (Ésquilo) aos cimos dos céus (Plutarco). Apolo simboliza a suprema espiritualização; é um dos mais belos símbolos da ascensão humana.

Notas:
1. Peã: Através de Homero e sobretudo no Hino Homérico a Apolo, conhecemos o peã como sendo formado por um proêmio do solista e um clamor ritual do coro com base no grito ié paián. O peã era um hino cantado por homens, caracterizado pelo estribilho ié paián e variantes do mesmo. Trata-se de um grito ritual sem sentido – ou de sentido perdido ao longo do tempo – e que somente depois foi interpretado como sendo um deus. O lançamento do grito ritual era interpretado como uma invocação a Apolo. O peã era cantado com várias intenções: para pedir a salvação por ocasião de uma peste, para festejar um casamento ou em uma simples cerimônia de comemoração pela vinda do deus Apolo (Hino a Apolo); mas muitas vezes, como na Ilíada, era também cantando antes da batalha ou depois de um triunfo, em sinal de agradecimento. voltar

2. A verdade é que Apolo, embora dotado de grande beleza, viveu diversas aventuras amorosas, quase todas mal-sucedidas. voltar

3. Hígia: forma latina do grego Hygíeia, ‘saúde’ (personificada em deusa). Panacéia: do grego Panakéia, significa ‘a que socorre a todos’, designação da filha de Asclépio, o deus da medicina. voltar

http://www.consciencia.net/filosofia/apolo.html

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