Pesquisar neste blog

A principal fonte dos textos postados aqui é da Internet, meio de informação pública e muita coisa é publicada sem informações de Copyright, fonte, autor etc. Caso algum texto postado ou imagem não tenha sua devida informação ou indicação, será escrito (autoria desconhecida). Caso souberem, por favor, deixe um comentário indicando o ou no texto, ou caso reconheçam algum conteúdo protegido pelas leis de direitos autorais, por favor, avisar para que se possa retirá-lo do blog ou dar-lhe os devidos créditos. Se forem utilizar qualquer texto postado aqui, por favor, deem os devidos créditos aos seus autores. Obrigada!

Abençoados sejam todos!

8 de mar de 2011

Geb, Nut e o Nascimento de Ísis

Segundo os antigos egípcios, o mundo surgiu de Nun, um grande oceano primitivo que os sábios identificaram como o rio Nilo, fonte de vida e abundância para todo o Egito. Essa obscura divindade gerou Rá, o supremo deus solar que deu posteriormente ao mundo uma nobre descendência. Dentre esses descendentes estavam Geb e Nut, personificações, respectivamente, da Terra e do céu. Rá, contudo, havia estabelecido desde sempre que Geb e Nut jamais haveriam de se unir para procriar novos deuses, pois ele, como deus soberano, temia a perda do poder absoluto caso essa união viesse a acontecer. Contudo, Rá, pouco previdente, permitira que ambos permanecessem perigosamente próximos um do outro, pois enquanto Geb, personificação masculina da Terra, vivia estirado sobre o leito do mundo, Nut, a deusa ‘celestial, permanecia encurvada acima dele, apoiada apenas nas pontas dos dedos das mãos e dos pés. Durante a longa era em que ambos permaneceram assim, não tiveram outra coisa a fazer senão observarem-se mutuamente.

— Nut, ó minha bela irmã! — disse um dia Geb, tornando coragem para dirigir a palavra a deusa que pendia sempiterna sobre Si. — Não se aborrece de estar o tempo todo suspensa ai no alto? A deusa afastou os longos e sedosos cabelos que lhe pendiam da cabeça, fazendo com que uma chuva fresca de orvalho descesse sobre o corpo estendido do deus. — Não, pois tenho muitas e belas coisas para observar — disse ela, com os milhares de olhos estrelados que lhe recobriam o rosto a faiscarem vividamente. — Mas já que você toca no assunto, demonstrando sua preocupação, não nego que seria um alívio para minhas doloridas costas se pudesse espichá-Ias um pouco — completou ela, dando um ligeiro suspiro de dor.

Geb, feliz por poder prosseguir a conversa, respondeu assim as palavras da deusa: — Ora, e por que näo o faz, se assim manda a sua vontade? — Porque, ao fazê-lo, meu corpo ficaria quase unido ao seu — respondeu a deusa, afetando uma grave preocupação. — Sei eu, porventura, se o descanso de meu corpo não importaria em incômodo para o seu?

— Oh, não, estrelada Nut, por certo que não...! — retrucou Geb, numa precipitação que revelava algo mais que a polidez divina. — Se está cansada de permanecer encurvada como um sublime arco, pode, com toda a certeza, espichar os nervos e tendões de seus delgados braços e de suas distendidas coxas. Nenhum desgosto traria a minha pele sentir a tepidez da sua.

A deusa fez, então, como Geb dissera, e logo seu corpo negramente aveludado espichou-se, dando alívio as suas costas encurvadas e fazendo com que ao mesmo tempo seu tronco descesse quase ao nível da Terra. Um grande suspiro de alívio brotou dos lábios frescos de Nut. Entretanto, a sensação enorme de alivio fez com que não fosse capaz de perceber que seus seios, naturalmente fartos e tornados ainda mais proeminentes pela força da gravidade, roçassem suas pontas, suavemente, no amplo peito do deus estendido.

— Oh, perdão! — disse ela, erguendo-se instintivamente ao sentir pela primeira vez o contato. — Não foi de propósito! — Ora, não foi nada... — disse Geb, um tanto desconcertado também. E assim permaneceram por mais algumas eras — pois naqueles dias primordiais da sedução havia tempo de sobra para a requintada arte da protelação —, ate que Nut pediu licença a Geb, outra vez, para abaixar-se “só um tantinho mais”. O deus alegremente acedeu, e Nut desceu ainda mais o seu corpo, ate seus seios repousarem francamente sobre o peito rígido de Geb. Desta vez, porém, ela não recuou nem pediu desculpa alguma, pois seus olhos cerrados simulavam um sono de fingida inocência. “Que assim permaneçam”, pensou o deus, tacitamente concordante. “Seräo a um só tempo um delicioso prazer e uma amena barreira ao exército rebelado de meus desejos.” Porém, ao sentir o coração da deusa bater de encontro ao seu, percebeu que o escudo macio que os separava se convertera em estímulo, sendo agora um motivo a mais para que se completasse a rebelião nas hostes de seus desejos, solidamente arregimentados e de lanças avidamente enristadas.

Nut foi despertada de seu fingido sono ao sentir que havia agora um segundo ponto de contato entre ambos e que não era ela, certamente, quem o patrocinava, já que seu corpo não havia descido um milímetro de encontro a terra. Num gesto que nem mesmo Bastet, a deusa felina, poderia ter igualado, ela saltou para o alto como uma perfeita gata, indo cair de quatro novamente, acima de Geb, com o ventre contraído ao máximo. — Ora, que atrevido...! — exclamou a deusa dos céus, tão rubra que os pássaros começaram a cantar, imaginando que já era o dia que surgia.

Geb não conseguiu reter uma gostosa gargalhada, que deixou a deusa desconcertada a ponto de não saber como reagir. Mas o riso dele era, afinal, tão puro e despido de malicia que ela, despindo também suas fingidas suscetibilidades, resolveu soltar livremente as rédeas de seu soberano instinto. A bela Nut desceu inteira sobre Geb e assim permaneceram ambos por onze eras inteiras.

— Malditos traidores! — exclamou o deus, fazendo com que o disco solar que lhe ornamentava a cabeça despedisse assustadoras chispas. — São apenas rumores, sublime divindade... — disse o mensageiro, temeroso de que a ira de Rá extravasasse ali mesmo. (Já naquele tempo, sabiam os mensageiros que não raro terminam como vítimas inocentes dos males que anunciam.) O rosto de Rá assumia, cada vez mais, a forma adunca de um falcão, enquanto seus olhos negros e pequenos como contas também pareciam fulgurar sinistramente. — Silêncio, imbecil! — exclamou o furibundo deus, fechando-se em si mesmo. O mensageiro, sem dar-lhe as costas, retirou-se a maneira prudente dos caranguejos, pois sabia que o deus já começara a planejar sua vingança.

“Devo separar esses dois o mais rápido possível!”, pensou Rá. “Como pude ser imprudente a ponto de deixá-los assim tão próximos?” Durante o dia inteiro o deus solar ardeu furiosamente, de tal sorte que o Egito inteiro esteve ameaçado de ser mergulhado em nova e terrível seca. Então, chegando a uma conclusão, decidiu pôr de uma vez o seu plano em ação. — Farei isto pessoalmente! — disse Rá, subindo em sua barca. No mesmo dia, chegou a presença do casal de amantes, que continuavam misturados num gigantesco abraço. — Basta, lúbricos! — disse Rá, dando um grito que ecoou por todo o mundo.

Geb e Nut levaram um grande susto. A deusa ergueu-se, temerosa da ira de Rá. — De hoje em diante, ficarão os dois inteiramente separados! — disse o deus, dando a voz o tom solene dos decretos irrecorríveis. — Oh, não! — exclamou a deusa, levando as mãos a cabeça.

— Durante o ano todo Chu, seu pai, estará colocado entre vocês e seu descansado amante, para impedir que ambos voltem a ser um só! Chu, o deus do ar, imediatamente foi postar-se entre Geb e Nut. Com seus braços suspendeu o corpo de Nut ate deixá-lo inteiramente fora do alcance das sedentas mãos do infeliz amante. — Oh, Nut, que tristeza não poder mais sentir seu corpo colado ao meu! — lamentou-se Geb, prostrado sob os pés do deus aéreo. Rá ordenou aos remadores de sua luminosa barca que se mexessem, pois já se aproximava a hora dele mergulhar de novo no misterioso Amanti, o reino das trevas, no qual ingressava ao final de cada dia.

Durante muito tempo a pobre Nut permaneceu suspensa sobre os braços do incansável Chu, a lamentar seu negro fado. Sitas lágrimas desciam noite e dia até provocar uma verdadeira inundação sobre o corpo de Geb. — Perdoe, meu amado — dizia ela, com a cabeça inclinada, a olhar tristemente para o deus —, mas não posso conter minha tristeza! Chu, o deus do ar, permanecia impassível, a manter a deusa suspensa sob suas mãos. — Melhor faria se pensasse em outra coisa — disse-lhe, enfim, o deus aéreo. — Como espera que o faça, cruel sentinela? — disse a chorosa deusa. — Graças a seu servilismo abjeto e que estou impossibilitada de pensar em outra coisa! Veja, ali está Geb, meu belo e adorado irmão! Se pudesse outra vez estreitá-lo em meus braços já não precisaria mais pensar em coisa alguma. — Basta, insensata! — exclamou Chu, com um grande sopro. — Bem sabe que aqui estou para impedir a consumação de seus amores proibidos! De repente, porém, Nut lembrou das palavras do poderoso Rá: “Durante o ano inteiro Chu estará vigiando-a!”. Somente então deu-se conta de que não sabia o significado da palavra “ano”. Quis perguntar a Chu, mas achou melhor buscar a resposta em outro lugar.

— Está bem, meu pai, acato suas palavras — disse a deusa, parecendo subitamente conformada. — Permita, apenas, que eu faça uma visita a Thot, o mais sábio dos deuses, para que ele termine de suavizar as minhas penas. O deus do ar, após vacilar um pouco, terminou concordando. — Desde, é claro, que esse tratante permaneça aos meus pés! — acrescentou com frieza, referindo-se ao pobre Geb.

Nut aceitou e partiu no mesmo dia era uma visita a Thot. Assim que chegou a presença do deus da grande cabeça de íbis, a deusa prosternou-se. — Sábio Thot, permita que desfrute um pouco de sua proveitosa companhia. O deus estava sentado de pernas cruzadas sobre uma esteira trançada com fibras de ouro. De cabeça baixa, estava todo entregue a tarefa de redigir num papiro os seus intrincados hieróglifos. Apesar de ter feito um vago sinal de assentimento para que a visitante se aproximasse, continuou tão absorto em sua tarefa que seu compridíssimo bico negro quase encostava no papiro estendido em seus joelhos.

— Por que não usa, em vez do caniço afiado, a ponta adunca de seu longo bico para redigir os hieróglifos? — disse Nut, tentando dar um tom descontraído a visita. Thot, porém, ignorou solenemente o gracejo. Na grande sala escutava-se apenas o risque-risque intermitente do caniço a raspar sobre o papiro desenrolado. Estaria o deus engendrando alguma nova invenção? Depois deter inventado a escrita, a álgebra, a geometria e a astronomia, o que mais seu cérebro fecundo estaria prestes a parir? — O que está inventando agora? — perguntou a deusa do céu. Depois de um longo silêncio, Thot ergueu a cabeça e disse: — Estou terminando o calendário. — Calendário?... O que é isso? — Uma inédita maneira de se medir o tempo — disse o deus, tornando-se finalmente receptivo. — Com este sistema poderei ultrapassar o antiquado método de se contabilizar o tempo por meio da mera alternância do dia e da noite. — Oh, näo haverão, então, mais dias e noites? — indagou Nut, algo confusa. — Claro que sim — disse Thot, com um sorriso indulgente.

— Apenas o tempo deixará de ser contado de maneira tão simplória. Nut deu um sorriso respeitoso, embora, no seu intimo, não entendesse que necessidade havia de se complicar o velho método. “Um sistema tão simples e perfeito!”, pensou ela, desconfiando um pouco da exagerada sabedoria do confrade.

—O tempo ficará, doravante, dividido em anos — explicou melhor Thot. — Cada ano, por sua vez, será composto de 360 dias e noites ajuntados. Então, de repente, Nut teve uma luminosa idéia. — Escute, Thot... Estaria disposto a um jogo de dados, para relaxar? — Dados?! — disse Thot, subitamente animado. — Está bem, vamos. O jogo de dados (também uma invenção sua) era o seu passatempo predileto. O deus simplesmente perdia a cabeça toda vez que lhe propunham um desafio. — Aquele que perder deve um pedido ao outro, está bem? — disse Nut, ajeitando-se sobre a esteira.

— Naturalmente, é o que diz a regra 934 do manual do “Maravilhoso jogo de dados de Thot” — retrucou o deus, de maneira pedante, já que era autor também das milhares de regras que inventara para o jogo. A disputa começou e logo Nut deu um jeito de passar a perna em Thot, pois, se ele era inventor, ela não lhe ficava atrás. — Ganhei! Ganhei! — exclamou Nut, pulando de alegria. Thot rilhava o grande bico negro, sem entender como conseguira ser tão vergonhosamente tapeado. — Vamos, o meu pedido! — disse Nut, imperativamente. — Pedido...? — resmungou o deus, que nunca tivera tanta cara de íbis como então. — Ora, esqueceu a regra 933? —934...! — Pouco importa! Tenho ou não direito ao meu pedido? O deus cerrou seu longo bico negro e resmungou quase inaudivelmente: — Está bem. Faça-o de uma vez. — E simples: quero que acrescente cinco dias ao seu calendário.

—Mas... Por quê? — Não interessa, apenas acrescente os cinco dias. Toth resmungou mais um pouco, mas acabou cedendo, afinal. Quando chegou o 361° dia, Chu — o deus do ar encarregado de manter separados o casal Nut e Geb — foi obrigado a se afastar, já que sua missão se limitava a vigiar o casal durante os 360 dias que compunham o ano. — Os próximos cinco dias não fazem parte de ano algum; portanto, dê o fora daqui — disse Nut, desvencilhando-se dos braços de Chu, que não teve outro jeito senão abandonar o seu posto.

— Finalmente a sós outra vez! — disse Nut, lançando-se aos braços de seu amado. O produto desses longos cinco dias de amor surgiu sob a forma de quatro filhos: dois homens e duas mulheres. Osíris, o primogênito, era alto e tinha a pele escura (de resto, como a de todos os egípcios). Dizem que no instante de seu nascimento uma grande voz ressoou no templo de Toth, em Tebas, profetizando o seu futuro glorioso, embora também um grande infortúnio. Seth, o deus ruivo que nasceu logo após Osíris, seria a causa de sua desgraça. A bela Isis e a pouco expressiva Néftis vieram logo depois. Tão logo Rá tomou conhecimento do nascimento das quatro novas divindades, compreendeu que seus dias de glória estavam no fim, e que, muito em breve, deveria se retirar do trono do mundo, deixando-o a cargo de Osíris, o deus que, após reinar entre os vivos, iria reinar também entre os mortos.

Extraído do Templo de Apolo

Nenhum comentário:

Postar um comentário