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14 de mar de 2011

Mitologia Estoniana

A mitologia estoniana é um complexo de mitos pertencentes à herança do povo estoniano.

Muito pouco se conhece sobre a autêntica mitologia pré-cristã estoniana, uma vez que ela era uma tradição puramente oral e registros sistemáticos da herança popular só tiveram início a partir do século XIX, quando já a maioria dos antigos mitos havia se perdido.

Deve-se também ter-se em mente que nas diferentes fases do desenvolvimento da mitologia estoniana, seria mais correto falar-se sobre mitologia fino-báltica ou mesmo fino-úgrica. A organização social dessas tribos era heterogênea; não havia uma organização religiosa, presbíteros profissionais, textos sagrados e nenhuma tradição escrita. Da mesma forma, não existia nenhum panteão complexo ou sistema avançado de mitos.

Isto foi percebido como uma deficiência pelos intelectuais estonianos e germano-bálticos do século XIX, que começaram a criar uma base mitológica "própria" para uma nação emergente, seguindo a linha do romantismo nacional de Johann Gottfried von Herder. Hoje é difícil saber o quanto da mitologia estoniana, como nós a conhecemos atualmente, foi realmente construída no século XIX e início do XX. Deve-se notar que alguns elementos construídos são emprestados da mitologia finlandesa e podem estar relacionados à herança comum fino-báltica.

Os Antigos Mitos

Lago Kaali, em Saaremaa, onde Taarapita teria chegado do seu voo da Virônia.

Alguns indícios dos mitos mais antigos podem ter sobrevivido nas canções-runo. Há uma canção sobre a criação do mundo – um pássaro bota três ovos e começam a nascer os filhotes – um torna-se o sol, outro a lua e o outro a terra. Outros povos fino-úgricos têm também mitos segundo os quais o mundo surgiu de um ovo.

O mundo dos antepassados estonianos girava em torno de uma coluna ou uma árvore, na qual os céus foram fixados com a Estrela do Norte. A Via Láctea(Linnutee ou Via dos Pássaros, em estoniano) era um ramo da Árvore do Mundo(Ilmapuu) ou o caminho por onde os pássaros se moviam (e levavam as almas dos doentes para o outro mundo). Esses mitos eram baseados nas crenças animistas.

Ocorreram mudanças na mitologia proto-estoniana em decorrência do contato com tribos bálticas e germânicas, bem como devido à transição de caçadores-coletores para agricultores. As personificações de corpos celestiais, céu e deidades climáticas e deuses da fertilidade ganharam importância no mundo dos agricultores. Deve ter havido um deus do céu e do trovão chamado Uku ou Ukko, também Vanaisa (o avô). A maioria dos mitos e lendas registradas que descrevem o "avô" é, contudo provavelmente de origem posterior ao cristianismo e/ou de influência estrangeira.

Foi sugerido, entre outros pelo etnólogo e ex-presidente Lennart Meri, que um meteorito, que passou perigosamente sobre a população da região e caiu na ilha de Saaremaa a cerca de 3.000-4.000 anos atrás, foi um evento cataclísmico que pode ter influenciado a mitologia da Estônia e países vizinhos, especialmente quando são relatados que um "sol" parece ter surgido no oriente.[1] No épico nacional finlandês, o Kalevala, os cantos 47, 48 e 49[2] podem ser interpretados como a descrição do impacto, o consequente tsunami e o incêndio devastador das florestas.

As lendas estonianas sobre gigantes (Kalevipoeg, Suur Tõll, Leiger) podem ser um reflexo das influências germânicas (especialmente escandinavas). Existem numerosas lendas que interpretam vários elementos e fenômenos da natureza como consequências das ações de Kalevipoeg.

Este gigante fundiu-se ao diabo do Cristianismo, fazendo surgir um novo personagem – Vanatühi, um demônio gigantesco que vive em sua fazenda ou mansão, mais estúpido que malévolo, facilmente enganado por pessoas inteligentes, como o seu empregado Kaval-Ants (Astuto Hans).

Lendas Míticas

Outras lendas míticas encontradas nas canções-runo estonianas são:

  • um carvalho poderoso cresce em direção ao céu, é então derrubado e transforma-se em vários objetos míticos.

  • O sol, a lua e a estrela são os pretendentes de uma jovem virgem, ela escolhe a estrela.

  • um hábil ferreiro faz uma mulher de ouro, porém não é capaz de dar-lhe uma alma e uma inteligência.

  • um arvoredo sagrado começa a murchar depois de ter sido profanado por um casal de amantes; apenas o sacrifício de nove irmãos pode desfazer o mal causado.

  • poderosos heróis não são capazes de matar um terrível e gigantesco touro, apenas o irmão menor é capaz.

  • uma mulher é forçada a matar a sua filha que então vai viver no céu como Virgem do Ar.

  • uma menina acha um peixe e pede para o seu irmão matá-lo – dentro do peixe há uma mulher.

  • as jovens saem à noite e rapazes de um arvoredo sagrado (ou da terra dos mortos) as seduzem oferecendo-lhes riquezas.

  • um lago muda para outro local quando é profanado por uma mulher imprudente ou um incestuoso casal.

Mitologia Artificial

Friedrich Robert Faehlmann e Friedrich Reinhold Kreutzwald compilaram a epopéia nacional estoniana "Kalevipoeg" a partir de diversas lendas prosaicas populares e imitação de versos runos que eles mesmos escreveram. Faehlmann também escreveu oito mitos ficcionais combinando motivos do folclore estoniano (a partir de lendas e canções populares), da mitologia finlandesa (a partir da "Mythologica Fennica" de Christfried Ganander) e da mitologia grega clássica. Matthias Johann Eisen foi outro folclorista e escritor que estudou as lendas populares e as transformaram em textos literários. Muitos de seus estudiosos contemporâneos aceitaram esta mitopoéia como a real mitologia estoniana.

A mitologia ficcional estoniana ou pseudo mitologia descreve o seguinte panteão: O deus supremo é Taara. Ele é celebrado nas sagradas florestas de carvalhos em redor de Tartu. Uku é o seu outro nome. As filhas de Uku são: Linda e Jutta, a rainha dos pássaros. Uku tem dois filhos: Kõu (trovão) e Pikker (raio), que protegem as pessoas contra Vanatühi, o senhor das profundezas e dos demônios. Pikker possui um poderoso instrumento musical, que faz com que os demônios sintam medo e fujam. Ele tem uma filha malcriada, Ilmatütar (a Virgem do Ar).

Mais recentemente um curandeiro muito conhecido do povo estoniano, Aleksander Heintalu, publicou a sua própria versão da velha mitologia estoniana na forma de um épico "Kuldmamma" (a Mãe Dourada) destacando a sociedade matriarcal das tribos fino-bálticas.

Os Seres Mitologias, Deidades e Heróis Mitológicos Estonianos

Ilustração para "Kalevipoeg" porOskar Kallis.

  • Kalevipoeg, Kalevine, Sohni, Soini, Osmi - herói gigante, antigo rei mítico da Estônia.

  • Kalm - a morte; espírito de uma pessoa morta; governante da terra dos mortos.

  • Kalmuneiu - a Virgem da Sepultura; uma menina da terra dos mortos.

  • Kaval-Ants (o astuto Hans) - empregado da fazenda do diabo, que engana o seu patrão Vanapagan.

  • Kodukäija - um fantasma inquieto.

  • Koerakoonlane - um guerreiro demoníaco com um focinho de cachorro.

  • Koit - a personificação do amanhecer, um jovem, amante eterno de Hämarik.

  • Koll – espectro.

  • Kolumat – homem espectro.

  • Kratt - um demônio que rouba e traz alimento, dinheiro e outros bens mundanos pata o seu criador e dono na forma de um remoinho de vento ou cauda de fogo de um cometa (também chamado de Puuk, Pisuhänd, Tulihänd, Hännamees).

  • Kurat, Kuri, Vanakuri - diabo (o Demônio).

  • Kuu - a lua.

  • Kõu - o trovão; filho de Uku, irmão de Pikker.

  • Kääbas - a morte, espírito da morte.

  • Külmking - um espírito de um morto profano.

  • Lapi nõid- a bruxa da Lapônia.

  • Laurits - deus ou espírito do fogo, relacionado a São Lourenço.

  • Leiger- um gigante que vive na ilha de Hiiumaa.

  • Lendva - uma doença enviada por uma bruxa má.

  • Libahunt - o lobisomem.

  • Linda - a mãe de Kalevipoeg.

Na mitologia estoniana e Kreutzwald's, no épico "Kalevipoeg", Linda era a mãe de Kalevipoeg e a esposa de Kalev. Ela tem seu nome em várias localizações estonianas, incluindo a Lindakivi (Pedregulho Linda), no Lago Ülemiste.

Estátua de Suur Tõll, obra de Tauno Kangro, localizada em Kuressaare.

Suur Tõll (Tõll, o Grande) é um herói gigante que, segundo a mitologia estoniana, habitava na ilha báltica de Saaremaa.

  • Taara - o deus supremo do panteão da pseudomitologia estoniana.

  • Taarapita, Tarapita, Tharapita - hipotético deus öseliano da guerra.

  • Taarapita ou Tharapita ou Taara é um meio-hipotético deus da guerra damitologia estoniana.

    A Crônica de Henrique da Livônia menciona Taarapita como o principal deus dos öselianos (habitantes da ilha Saaremaa), muito conhecido também pelas tribos vironianas do norte da Estônia. De acordo com a crônica, quando os cruzados invadiram a Virônia em1220, havia uma linda colina arborizada na Virônia, onde os habitantes locais acreditavam que o deus öseliano Taarapita havia nascido e voado de lá para Saaremaa. Acredita-se que esta colina seja a Ebavere (Ebavere mägi) na atual Lääne-Virumaa.

    Há várias interpretações para o nome Taarapita, uma delas seria a de "Thor, socorro!" (Taara a(v)ita em estoniano) e associada ao deusescandinavo Thor. Outras interpretações são: "Thor, o Raio" (Taara pikne) ou "Thor (é) grande" (Taara (on) vägev). No século XIX os criadores da pseudomitologia estoniana fizeram de Taarapita o deus supremo do panteão estoniano. Contudo, Taarapita é raramente mencionado no autêntico folclore estoniano.

    Taarapita tem também inspirado um movimento neopagão estoniano, conhecido como taaralased ou taarausulised. Na metade do século XIX, Taarapita tornou-se popular nos movimentos nacionalistas. A partir daquele período, a segunda maior cidade da Estônia, Tartu, foi poeticamente chamada de Taaralinn ("cidade de Taara").

    Taarapita era conhecido das tribos tavastianas da Finlândia. Existe um antigo local de culto atualmente conhecido por Laurin Lähde (fonte de Lauri) na região de Janakkala, onde os tavastianos desde a Antigüidade adoravam o deus Taara. Esse culto chegou até o século XVIII e foi proibido pela Igreja, que fechou o lugar.

    Taarapita pode ter sido conhecido entre os eslavos da ilha de Rügen, onde os cruzados dinamarqueses destruíram um ídolo pagão chamado Turupit, em 1168.

    O "vôo de Taarapita, da Virônia até Saaremaa" tem sido associado à queda de um grande meteorito em Saaremaa e que teria dado origem ao lago Kaali. Um dos defensores da teoria do meteorito e suas consequências foi Lennart Meri, o presidente da Estônia 1992–2001, que escreveu vários livros sobre o assunto. Porém, os estudos no local onde teria caído o meteorito de Kaali não confirmaram ser o evento suficientemente recente para poder ser preservado no folclore.

    Variações semelhantes do nome "Thor" são também conhecidas entre muitos povos de língua fino-úgrica. Os Kantis têm um deus chamadoTorum, os Samis têm o deus Turms, os Samoiedas, o deus Tere. O bispofinlandês Mikael Agricola menciona em 1551 um deus da guerra chamadoTurisas, embora seja mais provável que ele referia-se a Turisas; os finlandeses têm também a deidade Tuuri, que era o deus da colheita, sorte e sucesso. Essas deidades estão associadas à hipotética palavra da língua proto-fino-úgrica que significa "alto".

    A adoração de Thor (Tooru, em estoniano) era comum na Estônia Ocidental. De acordo com diversas crônicas medievais, os estonianos não trabalhavam nas quintas-feiras (dias de Thor) e as noites de quinta eram chamadas de "noites de Tooru". Algumas fontes trazem que os estonianos costumavam reunirem-se em bosques sagrados (Hiis) nas noites de quinta-feira, onde músicos tocavam gaita-de-fole sentados sobre pedras, enquanto as pessoas dançavam e cantavam até o dia amanhecer.

Os santos cristãos apresentados como deuses:

Objetos Míticos e Mágicos

Uma rocha errática ("Pedra sagrada").

  • Navio Branco (valge laev) - navio mítico que traz liberdade e leva as pessoas para terras melhores. Este mito surgiu por volta de1860quando uma pequena seita liderada por Juhan Leinberg (também conhecido por Profeta Maltsvet) reuniu-se perto de Tallinn para esperar pelo navio branco que os levariam embora.

  • Chapéu de unhas (küüntest kübar) - torna invisível o seu portador (geralmente Vanatühi).

  • Luvas (kirikindad) – acreditava-se dar proteção ou poderes mágicos, especialmente as usadas por eclesiásticos ou marinheiros. As luvas eram (são) adornadas com padrões geométricos especiais e estreitas faixas vermelhas;

  • Cinto (kirivöö) - o cinto tinha os padrões mais antigos e mágicos de todos os artigos de criados, cintos de tecidos vermelhos e cordões de amarrar eram artigos comuns nos sacrifícios (eles eram amarrados nos galhos das árvores sagradas). Um cinto era amarrado em volta da parte do corpo que estava doente e, eram bem apertados na cintura, para proteger e dar força ao seu portador.

  • Pedras sagradas - o fim da Idade do Gelo deixou muitas pedras grandes na Estônia que não são da natureza do terreno em que se encontram (rochas erráticas). Muitas delas foram consideradas sagradas e as pessoas iam até elas para oferecerem sacrifícios, prata, sangue, fitas vermelhas e moedas e pedir por proteção e saúde. Frequentemente, as pedras possuíam pequenos furos, onde as oferendas eram colocadas. O significado e função desses orifícios ainda são discutíveis; de acordo com o paleoastrônomo Heino Eelsalu eles podem tem a função de calendários.

  • Florestas itinerantes - quando as pessoas de alguma localidade eram más, gananciosas e cruéis, as florestas deixavam esses locais e se transferiam para outro. A maioria das histórias sobre florestas itinerantes é encontrada nas áreas costeiras da Estônia.

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