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16 de mar de 2011

Mitologia Hindu

A mitologia hindu é provavelmente uma das mais antigas do mundo. Seus primeiros mitos remontam a, talvez, 8.000 anos e nasceram numa região conhecida como Vale do Indo (no atual Paquistão).

Desde que os primeiros tempos em que os humanos se sentiam protegidos dentro de uma caverna e sentavam em volta de uma fogueira, à vontade de contar os seus feitos para os demais, fez surgir a mitologia. Contar histórias sempre foi um dos principais passatempos dos seres humanos. Ainda hoje o cinema e os jogos de computador (RPG) são reflexos destas práticas.

Joseph Campbell, o conhecido estudioso da mitologia mundial, nos ensina que "o mito é a abertura secreta através da qual as energias inesgotáveis do cosmos são lançadas nas manifestações culturais humanas" e "a função primordial da mitologia e do mito sempre foi oferecer símbolos que fazem progredir o espírito humano."

O panteão hindu constitui uma tentativa formidável de criar máscaras pelas quais o ser humano tenta falar dos seus sonhos e medos.

A mitologia hindu inicia com o imanifestado (Adhinatha), que se manifesta na trimurti Brahma, Vishnu e Shiva, unidade na pluralidade.

Na mitologia hindu incluem-se todas as possibilidades: deuses, semi-deuses, seres celestiais, anjos, demônios e vampiros cujas sagas e peripécias serviram desde antiguidade para alimentar o imaginário e os ideais do ser humano.

Apesar desta inegável multiplicidade, o hinduísmo não é tão politeísta quanto aparenta; tirar essa conclusão seria tão leviano como concluir, olhando para o santoral cristão, que o cristianismo é politeísta.

O hinduísmo, tem uma base filosófica dividida em dharshanas (pontos de vista), mas até certo ponto termina a lógica e começa o imaginário de difícil determinação. Vale apenas ressaltar que, para os indianos não é mitologia, é Fé. A fé cristã é também vista como mito para eles.

Fonte: Wikipedia

MITOLOGIA INDIANA:

Nos assentamentos urbanos do vale do Indo, entre os restos da civilização precursora de Harappa, nas ruínas das altamente evoluídas cidades de Harappa e Mohenjo-Daro, encontraram-se as imagens em terracota e em selos de cerâmica de diversas divindades que bem podem considerar-se como precursoras das posteriores representações bramânicas.

Esta cultura, que já se comunicava regularmente com a mesopotâmica no século XXIV a.C., tinha o touro como animal emblemático principal, dada a abundância das suas representações, certamente como garante da fecundidade e como símbolo da vida após a morte; o touro ou boi sagrado compartilhava a sua popularidade, a julgar pelo número de achados, com uma deusa-mãe que também estaria a cargo da proteção da fecundidade, de um modo similar ao que o faria séculos mais tarde a deusa Devi, esposa de Shiva, uma figura da qual esta deusa inominada do vale do Indo pôde ser antecessora. O ubíquo e predominante touro sagrado aparece também em outras representações de perfil perante uma pira ritual, como o fará depois uma das advocacias de Shiva, Nandi; assim como outra representação do touro sagrado, em lugar preeminente junto de outros animais, pode ser, por sua parte, assimilada à posterior advocacia de Shiva como protetor dos animais, o deus Pashupanti.

Outros animais emblemáticos terrestres e aéreos também aparecem profusamente na cerâmica de Harappa, e são, naturalmente, os mesmos elefantes, tigres, serpentes, búfalos, águias, macacos, etc., que continuarão sendo parte importante das personificações zoomórficas dos deuses do panteão indiano.

Mas a primeira aparição histórica é a que nos vem colhida pelos Vedas, as obras escritas em sânscrito do ritual religioso elaboradas pelos arianos, um povo chegado à Índia vindo do noroeste entre os séculos XVI e XIII (a.C.). No grupo dos "arya", dos nobres, estavam as três castas dos Brahmanes ou homens da religião, os ksatriya ou guerreiros, e a última casta dos vaisya ou povo; com eles, mas a uma grande distância social, estavam os sudra ou vassalos, os que não eram "arya", mas iam junto dos nobres.

Esta obra do Veda, do conhecimento, que começa com o livro do Rig Veda, livro que se devia ter escrito para o século XX (aC), se continua com o Yajur Veda, contendo o primeiro ritual, o Sama Veda, no qual figuram os cantos religiosos, e o Atarva Veda, o tratado da religião íntima para uso privado dos fiéis. O Rig Veda, com mais de 1.000 hinos e 10.000 estrofes, nos fala de um Universo composto por duas partes:

Sat e Asat. Sat é o mundo existente, a parte destinada às divindades e à humanidade; Asat, o mundo não existente, é o território do demônio.

Em Sat está a luz, o calor e a água; em Asat só há escuridão, porque os demônios vivem nela, na noite. O Sat, o mundo visível e existente, está composto por três esferas: a superior do firmamento, o ar que está sobre as nossas cabeças e o solo do planeta onde vivemos. Mas a criação deste Universo não foi só um ato gratuito, um ato de vontade divina; pelo contrário, a construção do mundo que agora habitamos necessitou de uma luta heroica e decidida entre as forças do ar e as forças da matéria, porque o Universo é um lugar belo que só se pôde conseguir com o esforço que representa o combate entre as forças do bem e as forças do mal.

Entre os assura, os seres espirituais, havia uma grande rivalidade que se manifestava na briga entre os deuses aditya e os demônios raksa. Esta briga desembocou, finalmente, numa luta que resolverá o domínio do mundo dos assura, através do confronto direto entre os campeões dos dois bandos, entre o deva Indra, um filho do Céu e da Terra, que morava no ar, e Vritra, o dono dos materiais necessários para construir o Universo.

O deva, o deus Indra, era um aditya escolhido pelos seus companheiros para representá-los no combate no qual devia vencer o seu campeão de uma vez por todas. O seu oponente,Vritra, era um danava ou raksa; o seu antagonismo vinha de longe, até tal ponto que se tornou necessário chegar a iniciar o combate definitivo, aquele do qual sairá o chefe indiscutível. O deva Indra, após beber a bebida sagrada, o soma, cresceu tanto que os seus pais, Céu e Terra, tiveram que afastar-se para lhe deixar espaço; por isso ele habitava no ar da atmosfera que ficou aberta com a sua separação.

Indra foi armado com o raio (vayra) por Tvastri, o ferreiro dos deuses, e fortaleceu-se ainda mais tomando outros três grandes jarros de soma, mas a luta foi longa e difícil, porque Vritra, onde andava o filho de Danu, era nada menos que uma gigantesca serpente que vivia nas montanhas, dado que é sabido que as forças do mal gostam de tomar o aspecto da serpente.

Indra, com ou sem a ajuda de Rudra e dos maruts, divindades do vento, que nisso há versões diferentes, combateu Vritra até conseguir destroçar-lhe o lombo com o vayra; e não se deu por satisfeito, pois Indra também acabou com a mãe Danu, que caiu ao morrer sobre o cadáver do representante do mal. Mas do mal nasceu o bem e, assim, do seu ventre nasceram as águas da terra, até encherem os oceanos, de cujo calor saiu o Sol; e com o Sol, o ar, a terra firme e os oceanos, já foi possível construir o Universo, pois se possuíam todos os materiais requeridos, e se deu forma definitiva ao Sat dos deuses e das suas criaturas, enquanto o Asat invisível ficava para sempre afastado e relegado à sua não-existência.

Os três deuses encarregados de velar pelo Sat desde o momento da sua criação são Dyaus, Indra e Varuma. Dyaus está a cargo da primeira esfera cósmica, a concavidade do firmamento; Indra da segunda, do ar da atmosfera e dos elementos e meteoros que nela acontecem; Varuma encarrega-se da terceira esfera, da qual a ordem cósmica estabelecida rege na terra. Indra, o aditya Vritahan, o campeão aditya que matou Vritra, já o conhecemos pela sua façanha de libertar as águas e construir o mundo.

Dyaus Pitr, o Céu Pai, é o esposo do fecundador de Prtivi Matr, a Terra Mãe; Dyaus o Grande é o espírito benfeitor supremo do dia e da luz. Varuma, o deus que está em todos os lados, é também o chefe dos adityas, os filhos de Aditi, a deusa virgem do ar; Varuma cuida do rito da verdade divina, e fá-lo zelosamente da Terra e da Lua, isto é, mantém-se vigilante no dia e na noite, ajudado na sua constante missão protetora pelas estrelas como zelador que é da ordem sagrada no Universo visível, do Sat, embora o deus solar Mitra siga substituindo-o nas tarefas diurnas, de um modo auxiliar, pelo menos na Índia, dado que o Mitra transferido para o Ocidente, primeiro através da Babilônia e mais tarde da Pérsia, converte-se num deus principal.

Varuma é o deus sábio que conhece tudo o que já aconteceu e tudo o que tem de suceder. Da sua garganta brotam as águas das sete fontes do céu, de onde vêm à terra para formar os grandes rios do planeta. Dyaus Pitr, donde talvez sairá o Zeus grego, é o deus supremo do Céu.

Varuma também velava pelos mortos, paraíso no qual reina junto com o primeiro humano nascido e falecido, o bom Yama, e com a sentinela dos dois cães protetores das almas, Syama e Sabala. O deva Indra, desposado com a deusa Indrani, era uma divindade caprichosa, embora fosse o deus principal dos humanos, e os seus caprichos manifestavam-se com mulheres, homens ou animais, tanto que a divindade Gautama teve que enfurecer-se com a sua atitude e chegou a desmembrá-lo, embora mais tarde os seus divinos companheiros se ocupassem de recompor o seu corpo desfeito.

Entre os aditya estavam também Mitra, do qual já se falou, Baga, Amsa, Daksa e Aryaman, junto de Indra e Varuma, formando o septeto básico; também se costumava pôr um oitavo aditya, o errante Martanda, que, com o seu contínuo andar pelo céu, era simplesmente uma divindade astral, o Sol, Surya, desposado com a deusa da Aurora, Uchas, uma deusa bondosa e benfeitora. A serviço dos adityas estavam os cavaleiros ou Asvins, divindades menores que tinham os seus domínios na escuridão de cada noite, dispensadores do orvalho no seu correr celestial e outorgadores de muitos mais bens espirituais e corporais.

Os centauros Gandharva vigiavam o sumo sagrado do Soma, que era, além disso, outro deus de importância nas cerimônias sagradas. Estes centauros Gandhava eram do mesmo modo umas divindades tutelares das almas emigrantes na metempsicose. Os Gandharva estavam unidos às mais belas divindades, as perturbadoras Apsara, ninfas da água e concubinas dos deuses maiores. Precisamente um Gandharva, Visvavat, foi o pai do primeiro mortal.

Visvavat estava casado com Saranya, a filha do ferreiro dos deuses, Tvachtar, o mesmo que proporcionou o raio a Indra para lutar com Vritra. Deste casamento nasceram Yama e a sua irmã gêmea, e esposa, Yami.

Os Gandharva também se ocupavam da escolta do deva Kama, deus do amor e esposo de Rati, deusa da paixão amorosa. Na mitologia bramânica, Kama, foi morto por Shiva, dado que tinha tentado distraí-lo nas suas meditações, seguindo as maliciosas instruções da mutante deusa Parvati, esposa de Shiva; mas foi devolvido à vida pelo mesmo Shiva, ao ouvir a pena que invadia a apaixonada viúva Rati. Depois da sua misericordiosa ressurreição, Kama passou a tomar a nova denominação de Ananga.

Os Marut, os deuses dos ventos, filhos do deus Rudra e da deusa Prasni, tinham grande poder, tanto como o dos temporais devastadores que vinham das montanhas, ou o dos ventos carregados de água benéfica que apareciam estacionalmente na época das chuvas, que era simplesmente o urinar dos cavalos de Rodasi, a outra esposa do seu pai Rudra, ou o da sua mãe, a vaca Prasni.

Mas os Marut não estavam sozinhos no reino dos ares, pois o deus Savitar era quem fazia com que se levantasse o vento, se pusessem em movimento os raios do sol e fluíssem as águas dos rios, porque ele próprio era o movimento e até o próprio Sol, embora então tomasse o nome de Surya. O deva Puchan, armado com uma lança de ouro, encarregava-se de unir o destino dos seres vivos e de cuidar deles em todo o necessário para o seu sustento, assim como de guiá-los nas suas viagens pelo bom caminho.

Mas o culto mais popular, o que atraía os mais abundantes sacrifícios dos fiéis, os crauta do ritual, dirigiam-se preferentemente a Agni ouAnhi, o deus vermelho do fogo, o dos sete braços e três pernas, o que estava em todos os lugares onde se fizesse fogo. Anhi era filho da união entre o Céu e a Terra e, posteriormente, foi adscrito à união entre o Céu e Brahma.

Anhi estava casado com Svaha, que o fez pai de três filhos: Pavaka, Pavamana e Suc. Ao redor deste deus formou-se uma muito especializada e importante casta sacerdotal, pois só ela se considerava capaz de dirigir-se a ele com rezas e cânticos específicos, uma ordem sacerdotal que daria mais tarde nascimento à casta superior dos Brahmanes, precisamente os responsáveis de que a religião popular que se colhia nos livros do Veda fosse deslocada em favor do mais completo e complexo corpus do culto bramânico, uma mistura de religião e metafísica que se converterá também no regulamento quotidiano para os crentes, fazendo dele uma forma de vida totalizadora do religioso e o doméstico.

Da união dos Veda e do ritual sagrado elaborado de cima pela classe sacerdotal, nasceu a nova doutrina bramânica, na qual revelação e costume se sintetizavam para formarem um único corpo de regras que preside toda a vida dos fiéis, que vai desde os livros revelados, os quatro Veda, os livros ascéticos do Aranyaka, os religiosos Brahmanes e os litúrgicos Upanisads, aos livros escritos pelo homem para compendiar o conhecimento humano, os que tratavam da astronomia, da arte e da linguagem, os Vedangas, as leis reunidas nos Dharma e os Sutras, os livros de relatos legendários Puranas, e as epopéias do Ramayana e oMahabharata, onde se encontra o texto védico do Bhagavad Gita, que nos ensina as três vias sagradas de acesso ao conhecimento pela contemplação, as obras e a devoção religiosa.

O Brahmanismo contempla na sua base o mistério da Trimurti, a trindade do absoluto, do Eu ou atman, como criador de toda a existência e possuidor de todas as ideias. O Eu existe nas suas três pessoas complementares: Brahma, o criador, Visnú, o conservador e Shiva, o destrutor.

Mas também o Eu, o Único, coexiste ao mesmo tempo nas duas naturezas unidas, na mortal e na imortal, porque as duas naturezas são simplesmente uma única essência, o último princípio, o atman. Por isso o deus que conhece tudo e que tudo experimenta é, antes de mais, a ubíqua presença universal, quer seja em criatura viva ou em coisa inanimada. E os humanos não somos senão reflexo dessa dupla natureza mortal e imortal a um tempo, todos os humanos somos um eu pessoal, mais a parte proporcional do Eu total, a esse eu ao qual devemos tentar unir-nos, para alcançar a paz eterna, a harmonia com o último princípio, para poder aspirar a ser felizes nesta vida contingente e eternos na vida transcendente.

Enquanto Brahma ficava estabelecido num plano metafísico, as outras duas personificações do Trimurti, Shiva e Visnú, convertiam-se em figuras queridas e temidas, nos santos visíveis aos qual havia que recorrer num caso concreto, nas pessoas divinas mas humanizadas das quais se podiam contar lendas e acreditar em prodígios, porque os deuses que se assemelham aos homens nos seus defeitos e nas suas virtudes sempre estão mais perto deles.

Visnú, por exemplo, foi o herói amado, o ser celestial que descia continuamente ao mundo ao qual tinha dado vida com o seu hálito divino, para livrá-lo do mal, que também tentava perpetuar-se sobre a sua superfície, aproveitando cada uma das novas recreações. As suas façanhas aparecem relatadas nos circunstâncias e esses textos penetram profundamente no fervor popular, porque não há coisa melhor do que poder contar as muitas histórias do deus valente e bondoso. Shiva, por ser o deus destruidor da trindade bramânica, viu-se impelido a adotar papéis cada vez mais terríveis e assim, transformado radicalmente desde o seu primitivo caráter de deva benfeitor, chegou a representar o deus implacável a quem se encomendava a ingrata tarefa da destruição, mas nem por isso deixava de dar o melhor de si em benefício das grandes causas, embora tivesse que repetir uma e mil vezes o sacrifício.

Também se fez em breve assumir ao terrível Shiva a tutela da fecundidade, e os signos fálicos elevaram-se por todo o território da Índia em sua honra, num patrocínio lógico de compreender, porque ao ser um deus tão poderoso e valente, não podia deixar de ser o homem desejável ao qual dirigir-se com devoção, para rogar-lhe que comunicasse a graça da sua força e vigor aos filhos esperados.

Há muitos milênios o deus Visnú começou a sua carreira mitológica como mais uma divindade da natureza, talvez como um deus solar, mas foi galgando postos constantemente, passando para um lugar de máxima importância na trindade trimurtiana, para o segundo lugar, atrás do grande Brahma. Agora Visnú está à espera da última encarnação do seu ciclo, depois de ter tido nove das dez previstas pelo plano bramânico, tendo já passado pelas do peixe que salvou Manú do dilúvio, a tartaruga que obteve a bebida sagrada do amrita, o javali que voltou a salvar a terra do novo dilúvio, o leão que castigou o blasfemo demônio Hiranya, Trivikrama, o Brâmane anão dos três passos, o Parasurama que venceu os chatrias, o Rama exemplar que se narra no Ramayana, Rama Chandra, o príncipe negro Krisna,Buda.

A décima será o acontecer do gigante com cabeça de cavalo branco, de Visnú como Kalki, vindo à Terra para a batalha definitiva contra o mal, quando se acabe o mundo e Shiva apareça também sobre as ruínas do dia do fim do mundo. Nas populares e muito belas epopeias sacro-poéticas do Ramayana e do Mahabharata, Visnú já se converte no verdadeiro protagonista da lenda, relegando Brahma, o que fora poder eterno, para um segundo plano, enquanto ele se aproxima mais e mais do fervor popular e habita nas moradas paradisíacas rodeado pelo amor eterno de um milhar de incondicionais pastoras celestiais, as Gopis, e na companhia de Laksmi, divindade do amor, da ciência e da sorte, segundo nos contam os textos do Ramayana. Quando Visnú desce à terra para acompanhar os humanos, fá-lo geralmente incorporando-se em um deus de quatro braços, braços que portam o disco, o maço, a concha ou a trombeta, e a espada ou o lótus, emblemas que são representações das suas faculdades e virtudes, como são os símbolos do Sol, da força, do combate contra o mal e o seu justo castigo, respectivamente.

Shiva é a terceira pessoa do Trimurti, embora para os seus fiéis ele seja a primeira e incontestável divindade trinitária. Casado com a também impressionante deusa Parvati, a montanha, que conhece muitas advocacias, desde a de Sati, ou esposa, e Ambiká, ou mãe, até à de Kali, a negra, a deusa da morte. Com a sua esposa Shiva habita nas regiões que formam o teto do mundo, no Himalaia, no cima do monte Kailas. Naturalmente, um amor como o da deusa Parvati e o deus Shiva não podia deixar de ser grandioso e conta-se que, quando por fim Shiva e Parvati se uniram pela primeira vez, todo o planeta estremeceu num gigantesco terremoto.

O deus Shiva apresenta-se às vezes perante os homens nu e coberto com a cinza da ascese, com toda a pureza do seu ser, adornado com o sinal inconfundível de um terceiro olho vertical no meio da fronte, com o qual vê tudo, símbolo da sua onisciência, e com o cabelo preso num grande carrapicho, o mesmo que parou a queda da deusa Ganga, a deusa das águas sagradas do rio Ganges, na Terra, absorvendo com a sua estoica dor essa imensa quantidade de água, que era tão necessária para a vida do povo indiano. Outras vezes aparece completamente coberto de serpentes, para apontar inequivocamente a sua imortalidade, e armado com o arco Ayakana e o Jinjira, mais o raio e um machado, porque então é a personificação do tempo, o deus destrutor.

Quando aparece como deus da justiça, fá-lo montado num touro branco e o seu corpo está coroado por cinco cabeças e um número par de braços, entre dois e dez, empunhando numa das suas mãos um tridente no qual estão enfiadas duas cabeças. Na fronte destaca-se a marca de uma lua em quarto crescente, o seu cabelo vermelho eleva-se como uma tiara e a sua garganta é azul, para recordar que é o Nilakantha, o herói que salvou o mundo de todo o veneno vomitado por Vasuri, o rei das serpentes, e o apanhou na sua mão para bebê-lo depois, queimando a sua garganta divina com a peçonha, antes que deixar que os homens morressem pelo seu efeito.

Entre o Mito e uma possível Realidade:

O príncipe Siddharta Gautama, conhecido pela posteridade como Buda (Iluminado), viveu entre os anos 550 e 471 (a.C.). Nasceu ao norte de Benarés, em Kapilavastu, com o anúncio feito a Maia, sua mãe, segundo nos conta a sua lenda, de que a sua vida seria a de um rei de corpos, um Kakravartin, ou a de um pastor de almas, um Buddah. Nasceu o prodigioso menino através do costado de Maia, auxiliado por Indra e acompanhado de duas serpentes das águas, duas Nasa, que criam vastas fontes de água quente (Nanda) e fria (Upananda) para lavar a criatura prodigiosa, que perderá uma semana depois a sua mãe. O seu pai, o viúvo rei Suddhodana, decidiu rodeá-lo de tudo o mais belo que estava ao seu alcance, para evitar que fosse o homem espiritual que se tinha profetizado, apartando-o daquilo que lhe pudesse fazer pensar nas misérias humanas e pondo-o nas mãos da sua cunhada e nova esposa Mahaprajapati.

Mas Siddharta, no seu retiro perfeito, chegou a ver e a reconhecer o sofrimento alheio, soube da doença e da morte e, sobretudo, viu num asceta a perfeição que o pai queria proporcionar-lhe com presentes e prazeres. Foram os seus quatro encontros: com a velhice, com a doença, com a morte e com a serenidade. Então, e após vencer qualquer classe de tentações postas pelo seu pai, o príncipe Gautama, que tinha casado com a mais bela das donzelas, com Gopa, e já tinha um filho, decidiu seguir o exemplo do asceta, abandonando o mundo de esplendor do seu pai. Segundo se conta, Siddharta tinha vinte e nove anos quando decidiu abandonar tudo para procurar a verdade, e ainda passou outros seis anos percorrendo a Índia na companhia do seu fiel Chandaka, procurando essa serenidade admirável no anônimo frade, mas o seu esforço não se via recompensado pelo êxito; não tinha encontrado o mestre procurado nem alcançado o estado desejado.

Por fim, na solidão de uma noite de Bodh-Gaya, quando se encontrava praticamente à beira da desesperança, sob os ramos da árvore Bo, Gautama foi iluminado e, com a força da verdade, o Buddha começou o seu caminho de pregação à boa gente que encontrava no seu caminho. A sua verdade era simples, nada há de permanente num Universo mutante, num Universo no qual os nossos atos, e não os deuses, nos premiam ou castigam com um novo nascimento em que o nosso ser, emigrado, alcançará um estado mais perfeito ou mais imperfeito, segundo os méritos da nossa própria vida, segundo tenha sido de triunfal a sua luta contra os anseios e as paixões.

A doutrina de Buda desenvolveu-se com força na Índia e fora dela, mas, pouco a pouco, a sua implantação no território onde nasceu foi perdendo força, mudando-se com mais vigor para o outro lado dos confins do norte, no reduto inacessível do Tibete, e atravessando mais tarde para o este, chegando à península da Indochina, à China, Mongólia, Coréia e Japão, para ficar definitivamente assentada no Extremo Oriente.

Também com o decurso do tempo, a doutrina simples e quase ateia de Buda se foi enriquecendo com elementos alheios, dando ao asceta Buda uma dimensão divina da qual ele teria fugido envergonhado e confuso, e pondo junto dele toda uma corte de deuses tradicionais, até fazer crescer da mera ideia filosófica da renúncia todo um bosque de personagens mitológicos, onde permaneciam parte do Brahma original e, sobretudo, do Indra do culto védico, agora reduzidos a pessoas santas do budismo e transformados até no seu aspecto, com Indra batizado Sacra, à frente de uma ordem celestial de trinta e três deuses, à espera de receber a ordem de Buda para ir em sua ajuda com o vayra sagrado, para lutar a seu lado contra Mara, o novo demônio da tentação, o rei dos prazeres.

Este Mara, que reina na Terra, no Inferno e nos seis andares inferiores do Céu, tem sob as suas ordens um exército de demônios e serve-se das suas três filhas, Sede, Desejo e Prazer, como avançadas do seu mundo de pecado.

O príncipe iluminado, vencido pela necessidade de uma religião que se adaptasse à tradição indiana, transformou-se num deus múltiplo no tempo, no protótipo da transmigração incessante, numa pessoa divina que tinha vivido em muitas ocasiões, como se o personagem sagrado se tivesse encharcado também da essência de Visnú e das suas circunstâncias, num deus que operava milagrosamente e que se multiplicava na Terra em outros seres humanos, dado que, mediante o exato cumprimento da sua doutrina, ia dando lugar ao nascimento de inumeráveis Bodhisattvas, daqueles humanos santificados que iriam progredindo no caminho da transmigração, até chegarem a ser também outro novo Buda numa futura reencarnação, quando os seus méritos acumulados assim os recompensassem com a divindade.

Também se viram desde os Veda os antigos Gandharva, mas agora a cargo da música do Céu, e fizeram-no como auxiliares de um dos quatro Lokapalas, os soberanos dos quatro rumos. Estes Lokapalas estão a cargo dos pontos cardeais: no Norte está Kubera, com os também tradicionais Yaksas, os antigos auxiliares de Shiva; no Este Dhritarastra, governando sobre os Gandharva; no Sul está Virudhaka, senhor dos pequenos gênios anões; no Oeste o senhor é Virupksa, com as suas serpentes aquáticas Nasa, donas da chuva. Junto dos demônios de Mara e das suas filhas, que conhecem as trinta e duas magias das mulheres e as sessenta e quatro dos desejos, há outras criaturas infernais, desde os desgraçados espíritos emigrantes Pretas, míseras almas penadas, ao legendário Davadatta, o primo de Buda e traidor, passando por Hariti, a deusa da doença negra, da varíola, mãe de quinhentos demônios, que foi transformada numa mulher bondosa por Buda, ao ver o amor que sentia pelos seus filhos.

Com estes e muitos mais deuses, o asséptico corpo primigênio do ascetismo budista foi-se enchendo de personagens locais, cobertos de atributos e também de ornamentos e, ainda mais, se foi tornando mais e mais barroco à medida em que, nos diferentes lugares da Ásia, se ia apropriando de divindades locais para o seu novo panteão, como é o caso dos mais representativos Bodhisattvas, Mitreya, Manjusri e Tara (que tinha sido deusa da energia na Índia e passa a ser encarnação de Buda) no Tibete, ou a multidão de divindades existentes associadas a Buda ou aos Bodhisattvas na China e Japão.

Buda, o asceta histórico original, esvai-se perante a série de Buddahs que já alcançaram o Nirvana, o repouso eterno, e ele só é o Gautama ou o Sakiamuni, e não haverá mais até chegar o Mitreya do último tempo, enquanto uma nova família de Buddahs celestes reina num também novo e heterodoxo Paraíso encravado no mais elevado.

Finalmente, o budismo doutrinal evoluiu, transformando a sua essência tanto como o seu aspecto formal, e do metta da serenidade chegou-se ao bhakti da sensibilidade e do amor, para que no karma também se inscrevam a renúncia e os sacrifícios, abrindo-se o ser humano, da individualidade primigénia do budismo até chegar à doutrina da necessidade de transferir a graça alcançada por um mesmo para os outros, para o próximo.

Quase mil anos depois de Buddah, na mesma época em que nasce o hinduísmo, Nataputta ou Vardhamana, alcunhado Mahavira (o Grande) e Jina (Vencedor), funda o Janismo. Em efeito, era filho de uma personalidade, mas aos trinta anos morreram os seus pais e esse acontecimento levou-o a repartir as suas riquezas e sair à procura da verdade numa longa peregrinação que desembocou numa rebelião religiosa contra o Brahmanismo.

O Janismo é uma religião sem deuses e que procura alcançar na transmigração a paz do espírito, nas suas duas vertentes; digambara e svetambara, a nudez total ou hábito branco.

O janista leva vida eremita, com a esmola como simples forma de supervivência e o respeito extremo a qualquer ser vivo, com um especial ênfase na proteção dos animais, para alcançar a liberdade pelo triratna: conhecimento, fé e virtude.

A fé alcança-se com a leitura dos Agamas do Mahavira; a virtude exige não matar, não roubar, não mentir, a castidade e a renúncia total. Para o janismo, o Universo divide-se em duas partes: uma material, sem vida (adjiva) e outra viva (atman), que se liberta da matéria pelo dharma das suas obras e fica apanhada no karma das suas faltas, no seu caminho para a perfeição do siddha, o nirvana janista.

O sincretismo sij foi fundado pelo guru Nanak nos finais do século XV, procurando a união de hinduísmo e Islã. O guru Arjam escreveu em gurmuji, em pujabi, o que seria depois o texto sagrado do Adigrant, recompilando os ensinos de Nanak sobre um único deus e um mundo sem castas, no qual as almas conhecem a reencarnação em virtude da perfeição e da pureza que tenham sabido conseguir na sua vida anterior. E assim se reencarna o guru Nanak nos sucessivos gurus que governam o culto sij. A obra de Arjam foi escrita, precisamente, numa época de perseguição muçulmana, o que levou este grupo religioso punjabi a transformar-se em temíveis guerreiros. À parte da humildade e da sinceridade, a alimentação omnívora (perante o vegetarianismo hindu e os alimentos proibidos dos muçulmanos) e rejeitar a divisão em castas, os sijs distinguem-se pelos seus turbantes e pela obrigação de conservar sempre o seu cabelo.

Fonte: Site de Emerson Luiz de Faria -

 http://www.geocities.com/Athens/Cyprus/8943/Mitologia/Mitologia.html

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