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22 de out de 2011

Mães Antigas Europeias

Mirella Faur

O arquétipo da Mãe Antiga foi reverenciado e cultuado ao longo de milênios nas sociedades matrifocais da Europa e sobreviveu, mesmo depois da cristianização, em lendas e costumes folclóricos da Alemanha, Suíça, Áustria, Escandinávia, Itália e países eslavos. Memórias da Deusa Anciã pré-cristã encontram-se nas tradições ligadas a um grupo de deusas menores, pouco divulgadas e cujos nomes variam entre Holda, Hölle, Huldra, Reisarova, Gurorysse e Hyrokkin, na Escandinávia; Berchta, Perchta (e suas variantes Percht, Peratha, Bercht, Berta), nos países germânicos; Nicnevin e Gyre Carline, na Escócia; Befana e Lucca, na Itália; Perchta Baba e Baba Yaga, nos países eslavos.

Sua representação variava, mas elas tinham em comum as seguintes características: pele enrugada, cabelo desgrenhado, nariz pontudo ou de ferro, olhos azuis penetrantes. Suas atitudes podiam ser benévolas ou maldosas em função de suas atribuições, tais como recompensar o trabalho das mulheres, ativar a fertilidade da terra, dos homens e animais ou punir preguiça, gula, cobiça, injustiça ou maldade. Contava-se que elas apareciam sobrevoando os campos e as comunidades, cavalgando javalis, lobos ou outros animais, “dirigindo” um pilão ou uma peneira e conduzindo a “Caça Selvagem”, uma cavalgada noturna e fantasmagórica, composta de elfos, fadas e espíritos humanos (desdobramentos astrais de magos e bruxas), que recolhia as almas perdidas, perturbadas ou dos recém-falecidos.

As deusas anciãs se manifestavam principalmente durante os “Doze Dias Sagrados”, o intervalo entre as celebrações antigas do solstício de inverno (no hemisfério Norte) correspondendo ao Sabbat celta Yule ou ao Blot nórdico Jul (transformados no Natal cristão) e a atual Epifania (a celebração pagã da “divina aparição” e dedicada na Itália à deusa Befana). As Mães antigas ensinavam à humanidade os segredos da agricultura e das artes domésticas (fiar, tecer, bordar), cuidar e educar as crianças, manter vivas as tradições ancestrais e os antigos ritos sagrados. Elas recebiam oferendas de pão, mel, leite e tranças de pão (para substituir as oferendas feitas pelas mulheres com seu próprio cabelo), do qual se guardava uma parte para ser usada em curas e benzimentos.

No fim da Idade Média, lendas da Deusa Anciã se espalharam do Leste ao Oeste e do Sul ao Norte da Europa, descrevendo uma anciã poderosa que sobrevoava o céu acompanhada de espíritos (dos seres falecidos e dos não-nascidos). Ela era cultuada pelas mulheres – conduzidas por bruxas e curandeiras – em vários países, no topo das colinas, invocando as forças fertilizadoras e regeneradoras da terra. Aos poucos, as festas do calendário agrário pagão transformaram-se nos festivais sagrados da Roda do ano, com pessoas reunidas ao redor de fogueiras, comemorando a passagem das estações e a fartura das colheitas com cantos, danças, oferendas, jogos e procissões com máscaras. Assim as chamadas “festas das bruxas”, conduzidas pela “Senhoras da Noite”, eram reminiscências dos antigos Sabbats celtas e Blots nórdicos, em que se realizavam encantamentos, rituais e curas, posteriormente acrescidos com elementos dos costumes folclóricos e contos de fadas. Dos antigos festivais, o mais famoso era o Walpurgis Nacht alemão, o Samhain celta e as festas de celebração do dia primeiro de maio (Maj Fest), comemoradas na Bavária, Suíça, Itália, Lituânia, Eslovênia. Por não conseguir erradicar as tradições ancestrais locais, a igreja católica incorporou a data dos festivais no calendário cristão e manteve a proibição pagã de fiar ou tecer em certos “dias santos” (datas de antigas comemorações das deusas tecelãs), como uma imposição divina cuja transgressão levaria ao castigo (queima da mão pelo “fogo do inferno”).

Descrições de seres sobrenaturais benevolentes, que ensinavam as mulheres a fiar e a tecer – tendo também um lado sombrio, representado pela punição das preguiçosas e das crianças desobedientes – encontram-se em inúmeras lendas e contos de fada, principalmente nos livros dos irmãos Grimm. Essas figuras míticas, cuja presença permaneceu na memória e nos costumes das mulheres alemãs, suíças e austríacas até o século 20, guardam muitas das características das antigas deusas da fertilidade, protetoras das artes femininas, cujas bênçãos eram invocadas com orações, rituais e oferendas, evitando, assim, seus aspectos escuros. Nas longas noites do inverno europeu, quando as mulheres se reuniam para fiar, tecer, bordar, eram compartilhados contos divertidos ou ameaçadores, que ressaltavam a punição das crianças rebeldes, das mulheres preguiçosas e das que descuidavam das tarefas domésticas ou maternais.

Como uma figura constante, sobressaía-se Perchta, uma antiga deusa benevolente da Alemanha e Áustria, equiparada com as nórdicas Holda e Berchta. Com a cristianização, seu arquétipo foi distorcido, seu culto entrou em declínio e ela foi transformada em uma velha, feia e rabugenta bruxa. Nas lendas antigas, contava-se que ela visitava as casas entre o Natal e a Epifania, deixando recompensas para as mulheres trabalhadoras e presentes para as crianças boazinhas. Acreditava-se que o trovão era o som do seu tear e que Perchta aparecia como uma mulher velha, vestida de branco, que inspecionava o trabalho nos teares, a limpeza das casas, dos granários e estábulos. Ela recompensava as donas de casa trabalhadoras que a cultuavam e deixavam-lhe oferendas (de panquecas, mel e leite) com sorte no casamento, no nascimento dos filhos ou os segredos de como plantar e colher linho e cânhamo, mas também quebrava os fusos das preguiçosas ou embaraçava os fios, desmanchando o que era mal feito.

As deusas anciãs Perchta, Holda e Berchta eram consideradas guardiãs dos espíritos das crianças não-nascidas e por elas protegidos nos seus poços sagrados. Elas atendiam os pedidos de fertilidade das mulheres recém-casadas e abençoavam as futuras mães e seus partos. Depois de as crianças nascerem, elas velavam seu sono, ninando-as para dormir ou as recompensavam pelo seu bom comportamento, deixando moedas e doces nas meias colocadas perto da lareira na noite de Yule (origem da lenda de Papai Noel descendo pela chaminé). Conheciam–se e também contavam-se histórias sinistras sobre as punições que elas infligiam às crianças rebeldes, cortando suas barrigas e nelas colocando feno ou lixo ou levando-as para suas grutas no famoso saco, ameaça perpetuada ao longo de gerações em diversos países.

Ambas as deusas moravam no inverno nas montanhas onde fabricavam a neve, enquanto no verão permaneciam nas grutas ou fendas dos rochedos. Elas eram descritas ora como “Senhoras Brancas”, com aparência luminosa (em alemão arcaico berath significa luminoso ou glorioso, que permaneceu no nome da deusa Lucina, cristianizada como santa Luzia), ora como velhas grisalhas e vestidas em farrapos, levando nas costas o proverbial saco para pegar crianças. Berchta às vezes era descrita tendo um pé grande e deformado – semelhante ao de ganso ou cisne – simbolizando sua capacidade de metamorfose em animais, ou visto como a marca deixada pelo uso excessivo da roda de fiar.

A igreja cristã proibiu o culto e as oferendas das deusas anciãs – consideradas bruxas nocivas e perigosas para a alma cristã – assim como as danças nos campos para ativar a fertilidade da terra, divulgando apenas os aspectos “demoníacos” destes costumes.
A denominação de Perchten (no plural) era dada aos acompanhantes das deusas anciãs, bem como às máscaras com feições de animais, que continuam sendo usadas até hoje em procissões e festas nas regiões montanhosas da Áustria e Suíça. Essas máscaras fazem parte dos costumes tradicionais de Natal em Salzburgo, na Suíça, no Tirol e na Áustria, além de serem usadas como fantasias no carnaval ou decorações e enfeites para vender aos turistas nas estações de esqui.

No século 16, as Perchten receberam duas apresentações: as bonitas e benévolas (Schöne Perchten), adornadas com fitas, correntes douradas, folhagens e flores, e as feias e escuras (Finster Perchten), com garras, presas afiadas, chifres, peles de animais e rabos de cavalos, destinadas para afastar fantasmas e “demônios”. Encenava-se um combate ritualístico entre elas, almejando a derrota da escuridão, enquanto homens vestidos como as “Perchten escuras” visitavam as casas fazendo muito barulho para afugentar os maus espíritos. As pessoas eram abençoadas com uma mistura de cinzas e farinha de milho, representando o poder de regeneração da vida após a morte. Ritualizava-se assim o triunfo da força vital e da luz sobre os poderes inferiores, do caos e da morte.

Na antiga Alemanha, a Senhora Saelde ou Selga – considerada uma deusa do destino por ter uma roda de fiar e uma cornucópia – sobrevoava o céu nas Doze Noites. A deusa italiana e etrusca Befana era chamada de Marantega (Mãe antiga) e era celebrada no final dos Doze Dias, data que corresponde à atual festa cristã da Epifania. Na Sicília, sua memória permanece na figura e nos costumes de La Strega ou La Vecchia (bruxa, velha), a Anciã de outrora, que deixa até hoje presentes para as crianças boazinhas ou uma varinha e pedaços de carvão para as desobedientes, na véspera de Epifania (6 de janeiro), vindo das montanhas cavalgando uma vassoura e descendo pela chaminé.

Na Rússia, a deusa equivalente era Baba Yaga, com dentes ou nariz de ferro, cavalgando um javali ou voando em um pilão e aparecendo nos solstícios. Apesar de sua demonização pela igreja cristã, suas máscaras eram usadas em ritos femininos da Ucrânia até o século 19, bem como continuavam as colheitas de ervas sagradas e as fogueiras de purificação a ela destinadas. Na Eslovênia, sua equivalente era Perchta Baba, que aparecia rodeada de águias e serpentes – símbolos do mundo superior e inferior – e anunciava a morte de alguém, caso sobrevoasse sua casa por três vezes (lembrando as Banshee celtas, espíritos femininos de anciãs cujo choro anunciava a morte de seus familiares).

Podemos perceber em todas as lendas pagãs, bem como nos contos de fada, a presença poderosa do arquétipo da Deusa Anciã, Senhora dos ciclos, transições e transmutações, cujos significados e atributos não eram ignorados ou distorcidos, mas conhecidos e reverenciados com sabedoria e aceitação das leis inexoráveis da vida e da morte, seguidas de renovação e renascimento. Cabe a nós, mulheres seguidoras da Tradição da Deusa, honrar e compreender as leis do eterno girar da Roda Cósmica e Telúrica manifestadas nos inúmeros aspectos, situações e eventos da nossa trajetória humana, vivendo plenamente e sabiamente a realidade presente e confiando na proteção e orientação divinas.

fonte do texto e foto: http://www.teiadethea.org/?q=node/60

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