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29 de abr de 2011

Deusa Perséfone

Texto Priscila Magalhães

Perséfone é a personificação do Ciclo das Estações grego: ela passava quatro meses no Submundo, quatro no Olimpo e quatro na Terra (com sua mãe). Vale lembrar que os gregos só tinham essas três estações. Portanto, fico mais com a opinião um tanto inaceitável que um "rapto" tenha sido dignificado como ação que produz o ciclo das estações. Creio que essa interpretação é tardia, fazendo parte do período patriarcal grego, pois, de certa forma, justificava o rapto de jovens mulheres pelos soldados. Mas Perséfone tinha o "compromisso" com sua mãe, com Hades, com Olimpo.

Entre outras coisas, se pegarmos Platão, perceberemos que ele faz uma associação entre Hades (o Esquecimento) e Dioniso (o Êxtase). Dionísio é uma divindade ligada ao êxtase; sua versão romana é Baco, ligado à bebida, que, de certa forma, também leva ao êxtase (quando na embriagues). Hades, por sua vez, é ligado ao submundo e à morte.

E, realmente, as alusões a Dionisio são fortes e gritantes no mito: a moita de narcisos (flor tradicionalmente atribuída a ele) e as sementes de romã que Hades deu para Perséfone comer. A romã também era atribuída a Dioniso e as sementes, por serem brancas e com o formato de uma gota, representam o esperma dele (os caroços lembram gotas de sêmen).

Bem, isso nos leva a crer que o mergulho da jovem Kore no submundo tenha algo a ver com a sexualidde sagrada. Por outro lado, Hades é associado a Plutão, que rege o signo de Escorpião - um signo de sensualidade e paixão e ligado à terra.

Nessa vivência, ela come três caroços de romã (que, como já disse, está associado a Dionísio e ao sêmen divino), sugerindo uma experiência sexual. Ao mesmo tempo, ela vagueia pelo Mundo das Sombras e lá, tem que encarar sua própria Sombra refletida nos olhos de Hades (o esquecimento, a morte).

Essa experiência é verdadeiramente única: o de encarar sua Sombra... No entanto, não fica ai: ela tem que aceitá-la (Sombra) como sua parte inseparável...

Outro elemento interessante do mito é a forma como Perséfone é chamada no início: KORE. Esse termo significa "mocinha", "garota"... Hoje em dia poderia até ser traduzido como "ninfeta". Mas é sério: a palavra ninfeta nos remete àquela mocinha que está começando a se tornar sedutora.

Portanto, tudo faz parecer que o "rapto" de Kore tenha sido, na verdade, uma ENTREGA SEXUAL. Nesse caso, sua associação com a morte é nítida: o prazer do orgasmo é tão forte que leva ao total esquecimento de todo o restante do mundo e ao êxtase - e voltamos à associação de Hades e Dioniso.

Alguns autores - como Jung - veem lógica nessa associação, posto que a morte é a privação permanente da personalidade e o êxtase (seja de que tipo for) também provoca esse mesmo efeito, mesmo que temporário. Durante o êxtase sexual, há um total bloqueio da personalidade - não nos lembramos quem somos - sequer que existimos. O êxtase seria, então, uma "morte" (compreendido, é lógico, o sentido disso).

Pessoalmente, acho esse mito um dos mais completos e complexos - do qual gosto muito. E não é só por falar do Submundo.

Uma das suas muitas mensagens é a da SEXUALIDADE SAGRADA. KORE - a "menininha da mamãe" - descobre-se mulher ao entregar-se aos desejos de Hades. Nessa entrega, ela morre - mas morre em inocência, deixando de lado as brincadeiras de menina para tornar-se mulher. Por isso ela sai dessa experiência completamente mudada: agora é PERSÉFONE, ou seja, uma mulher que sabe o que quer, que não está mais sob a custódia de sua mãe, mas tornou-se livre, rainha. É, portanto, o mito da transformação da mulher e da descoberta de seu poder. Trata-se, assim, de um mito profundamente significativo.

De certa forma, essa interpretação é ratificada pela tristeza de Deméter - que já não tem mais a sua "menininha" - e pela tentativa de substituí-la por Demophon, o filho dos reis que a acolheram. Seu lamento lembra, então, o da mãe que já não tem mais filhos para criar e sente-se meio sem razão para viver - e por isso parte para a única coisa que sabe fazer na vida: criar filhos. Apega-se ao filho de outro, casa e passa a cuidar dele como se fosse seu - inclusive fazendo o ritual da imortalidade sem o consentimento dos pais.

Talvez seja por isso também que, no mito, ela se associa a outra Anciã - Hécate -, que seria capaz de compreender sua tristeza. Mas também a Baubo, que a diverte com piadas obscenas levando-a a sorrir com a malícia típica das mulheres.

No mito, Kore ingressa definitivamente no universo da feminilidade adulta, com todo o seu drama de nascimento, sexo e morte.

Até o começo desse século, toda mulher sabia que ao se aproximar o momento do parto estaria exposta à um grande risco de vida. Como a relação sexual é o pré-requisito para a gravidez e o nascimento, também nos liga com forças interiores implacavelmente sombrias. Assim, nesse mito, nascimento, sexo e morte estão ligados num significado além do óbvio: Perséfone descobre outras leis, que se referem às forças da Natureza, às forças da paixão, da destruição, da transformação... Leis que as regras dos homens não conseguem subjugar, nem mesmo entender o sentido. Nesse aspecto, trata-se de um mito fundamentalmente dos Mistérios Femininos.

O dualismo presente no Mito de Perséfone fez com que alguns autores afirmassem sua presença em nossa psique. A ida de Perséfone ao Mundo Subterrâneo seria nosso "eu inconsciente" (quando Kore desce ao Submundo, onde a razão - sua mãe - não fala mais alto que sua vontade) e sua volta nosso "eu consciente" (quando volta como Perséfone, a razão a chama novamente, ficar uma estação com sua mãe), numa luta constante.

Laurie Coubot diz: "As Deusas das Profundezas podem colocar as mulheres em contato com o inconsciente. As lembranças, os sentimentos profundos e os sonhos são importantes para elas. Mais do que a de outras mulheres, suas vidas parecem ser guiadas pelos grandes arquétipos. Gostam de desempenhar o papel de conselheiras, amigas, guias e instrutoras. Muitas mulheres influenciadas por estas Deusas possuem poderes sensitivos e dão boas curandeiras ou médiuns."

Sempre que sentir necessidade de entrar em contato com seus sentimentos instintivos mais profundos ou quando sua vida contradizer esses sentimentos, a Deusa pode lhe dar coragem de ser forte ao demonstrar esses sentimentos para os outros, principalmente ao ser amado.

Imagino que haja trilhões de associações e assim poderíamos juntar a Liberdade de Afrodite e o Compromisso de Perséfone, atravessando e usando a ponte entre os dois mundos de uma maneira livre, a liberdade de ir e vir, quando e como quiser. O compromisso de deixar agir o inconsciente e o consciente na plenitude.

Uma das doze divindade gregas do Olimpo, a equivalente deusa Ceres dos romanos, foi a deusa cretense da fertilidade e da agricultura e irmã de Zeus. Era também considerada como deusa da lei, da ordem e do casamento. Como mãe de Corê, rainha de Hades, era ligada ao outro mundo e aos rituais da morte. Sua filha, Corê (=mosca), eram adoradas juntas e foi um grande golpe quando sua filha passou a viver em Hades com o nome de Perséfone, levada por Plutão. Profundamente abalada pela perda de sua filha, vagou por nove dias sem comer, sem beber. Ficou procurando-a e finalmente, seguindo o conselho de Hécate, deusa da noite, pediu a Hélio, o deus-sol e o olho do mundo, que lhe dissesse onde estava sua filha e quem a havia raptado. Ficou profundamente chocada ao saber que fora Plutão quem havia levado Perséfone pra Hades. Evitando a morada olímpica, vagou durante algum tempo disfarçada de velha, até chegar a casa de Celeus e Metarina, em Elêusis. Ofereceu-se como babá do filho recém-nascido do casal. Sob seus cuidados, o menino cresceu como um deus. Uma vez, curou a febre do menino com um beijo e quando a noite caiu, ela arrumou o garoto com suas mãos e pronunciou três vezes um encanto solene e o colocou nas cinzas. A mãe, que a estava observando, pulou gritando e tirou seu filho do fogo. Tomando sua forma divina e aparecendo em todo o seu esplendor, disse a Metarina que, ao arrancar o guri do fogo, lhe roubou a imortalidade que ela havia lhe dado. Mas prometeu que o garoto se tornaria o maior lavrador da terra. Em sua tristeza, e não permitiu que a terra produzisse nada antes que sua filha voltasse para ela. Os outros deuses tentaram dissuadí-la, mas ela estava decidida. Finalmente, Zeus concordou que Perséfone deveria voltar, com a condição que ela não comesse nada em Hades, pois as Parcas não consentiriam em soltá-la. Mas Plutão foi astuto. Ofereceu a Perséfone uma romã, o símbolo do casamento, e ela comeu alguns grãos. No momento em que Perséfone estava partindo na carruagem de Hermes, que Zeus havia enviado para apanhá-la, Plutão lhe disse que deveria passar a metade do ano no mundo dele por ter comido um pouco da romã. Desde então, cada vez que Perséfone desce ao Hades para encontrar o seu marido, o inverno chega na terra. Quando ela volta para a sua mãe, a primavera faz o inverno desaparecer e traz as flores e o verde da natureza.

(Colaboração de Renato Monteiro Kloss)

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